<$BlogRSDURL$>

segunda-feira, abril 05, 2004

"Ela parecia um uivo", escreveu a Clarice Linspector no seu livrinho porno 

Encontrei-o inesperadamente e em poucos minutos estava tudo terminado. Vi-o sobre a mesa com uma etiqueta estranha. O título soou como um sarcasmo dissimulado, uma frase sussurrada ao ouvido que depois explode numa metáfora incontrolável. Refiro-me ao pequeno livro de Clarice Linspector, "A Via Crucis do Corpo". Li-o durante a manhã (e princípio da tarde) de um destes dias. A edição é quase desprezível. Parece papel de embrulho com uma fotografia casual na capa. É da editora brasileira artenova, e tem data de 1974. Faz 30 anos.
O livrinho da autora consagrada e celebrada começa com uma explicação: "O poeta Álvaro Pacheco, meu Editor na Artenova, me encomendou três histórias que, disse ele, realmente aconteceram. Os fatos eu tinha, realmente faltava a imaginação. E era assunto perigoso. Respondi-lhe que não sabia fazer história de encomenda. Mas - enquanto ele me falava ao telefone - eu já sentia nascer em mim a inspiração. A conversa telefónica foi na sexta-feira. Comecei no sábado. No domingo de manhã as três histórias estavam prontas." (explicação) O livro é composto por pequenas histórias cruentas - "contundentes", segundo a autora - que a deixam chocada. "Chocada com a realidade", escreve.
Os pequenos relatos, que por vezes se aproximam na sua informalidade e ligeireza narrativa, pelo menos aparente, da crónica cruzada com ficção, são 13 (número funesto): "Miss Algrave", "O corpo", "Via crucis", "O homem que apareceu", "Ele me abateu", "Por enquanto", "Dia após dia", "Ruído de passos", "Antes da ponte Rio-Niterói", "Praça Mauá", "A língua dos "p", "Melhor do que arder", "Mas vai chover". E quem nunca leu antes Clarice Linspector (como era o meu caso), poderá sentir uma primeira desilusão. A Literatura e a Vida estão cheias de histórias improváveis, contadas por escritoras talentosas.
Miss Algrave, solteira e virgem, dactilógrafa, morava em Londres e foi amada por um visitante de Saturno; depois enquanto esperava a sua segunda visita tornou-se libertina, amante insaciável de andar na rua.
Xavier, Carmen e Beatriz vivem um triângulo amoroso e uma paixão intensa mas irregular. Xavier apaixona-se por outra mulher, Carmen e Beatriz planeiam o assassinato e sepultam-no no jardim. O cadáver jaz sob um roseiral e a polícia admite que o melhor "é finjir que nada aconteceu".
Maria das Dores estava grávida e seu marido nunca lhe tocara. Era virgem como a mãe de Cristo. O marido, que aceitou fazer de S. José, colaborou na deriva para a história divina. O menino nasceu no estábulo da quinta da tia Mininha.
Era sábado e tinha ido comprar coca-cola e cigarros. Na loja encontrou Cláudio, um amigo remoto, que parecia perdido. Em casa conversaram e beberam café. Cláudio sofria muito e fazia poemas. Também falaram de literatura. "Fui me deitar. Eu tinha morrido", é como acaba a história.
Serjoca e Aurélia eram amigos; Serjoca maquilhava Aurélia com arte. Uma noite conheceram um homem atraente que preferiu a amizade (talvez o amor) de Serjoca. Aurélia era apagada lentamente (e com arte) pelo amigo que a maquilhava agora com malícia. Uma noite esbofeteia-se a si própria e recupera o rosto que parecia perdido, anulado, pela maquilhagem: "Acabara de nascer. Nas-ci-men-to."
A escritora trabalhou todo o dia e espera pelas 20.00 horas. Enquanto espera pensa. Ninguém lhe telefona, pensou mesmo telefonar a si própria para confirmar que estaria impedido. "A gente morre às vezes." É 13 de Maio, é um dia quase como os outros. A escritora está decidida a escrever um livro pornográfico, até já pediu autorização ao filho. Do outro lado do telefone não concordam com ela, pode ser devastador. Uma e outra coisa, mais ou menos duas histórias, o medo de falar em público. "Viva eu! que ainda estou viva. E agora acabei." E com estas palavras acabou e também acabo eu.
Dona Cândida Raposo tinha oitenta e um anos. "Essa senhora tinha a vertigem de viver." Cheirar profundamente uma rosa, ouvir Liszt, ver o verde das árvores e a altitude deixavam-na arrepiada. O desejo não passava. Foi ao ginecologista que lhe disse que o desejo não passa nunca. "Mas isso é o inferno!", exclamou Dona Cândida. "É a vida, senhora Raposo", explicou o médico. Nessa noite, por conselho do ginecologista, Dona Cândida raposo satisfez-se sózinha. Depois chorou.
É uma história enrolada. Jandira era linda e ficou sem a perna que gangrenou. O noivo fugiu dela. Ao fim de três meses a rapariga linda morreu. Bastos, o noivo, vivia já com outra mulher, com Leontina. Um dia, por ciúme, esta despejou uma chaleira a ferver no ouvido do rapaz que dormia. Leontina passou um ano na prisão. Quando saiu voltou para Bastos, surdo e mirrado. Amavam-se de verdade. O pai da rapariga morta continuou amante da mulher do médico. A história é um pouco escabrosa e a prova está em que o homem, pai de Jandira, tinha um dente de ouro, na frente, apenas por luxo. Cheirava a alho. A escritora esboçou esta história para se livrar dela: "E é só."
Luísa era Carla e Carla era Luísa. Carla trabalhava num clube erótico, Luísa não. Dormia com clientes, era natural. Celsinho, "homem que não era homem", era o seu amigo dos momentos difíceis. Celsinho tinha adoptado uma criança a quem dedicava todo o seu tempo. Numa noite Carla dançou com um homem que espicaçou o desejo de Celsinho. Discutiram. Ele disse:
"- Mas você não é mulher de verdade!
- Eu,? como é que não sou? espantou-se a moça que nesta noite estava vestida de preto. (...)
- Você, vociferou Celsinho, não é mulher coisa alguma! Nem ao menos sabe estalar um ovo! Eu sei! Eu sei! Eu sei!
Carla virou Luísa."

O destino é implacável, epé copomopo terpermipinapa opo repelapatopo "a língua do "p". Maria Aparecida, proprofepessopssorapa depe Inpinglêsplês, moporapavapa empem Minas Gerais. Umpum diapia topomoupou opo compomboiopóio paparapa opo Rio, iapia paparapa Nova Iorque. Nopo vapagaopão doispois hopomenspens suspuspeipeitospos ipinipiciampiam umapuma conponverpersapaçãopção enpentreptre sipsi napa linplinguapuagempgem cipcifrapradapa dospos "pp". Apa prinprincipípiopio nãopão, maspas depepois compompreenpreendepe quepue compombipinampam viopiolapá-la quanpuandopo apa compompoposipiçãopão enpentrarprar numpum túpúnelpel. Paparapa ospos depesarparmarpar finpingiupiu-sepe prosprodtipituputapa, compom gespestospos epe expexprepressõespssões depe proprovopocapaçaopão. Opo bipilhepheteipeiropo viupiu-apa epe chaphamoupou apa aupautoporipidapadepe, enpenquanpuantopo ospos dospos hophomenspens ripiampam aspàs garpargapalhaphadaspas. Japá napa gaparepe, conpondupuzipidapa pepelapa popolípíciapia, Cidinha crupruzapa-sepe compom umapuma rapapapariprigapa quepue apa opolhaplha compom desprepreprezopzo, anpantespes depe supsubirpbir paparapa opo compomboiopói. Eé lipiberpertapa epe enpenquanpuantopo papasseiapsseia porpor Copacabana vepê nopo jorpornalpal quepue napa noipoitepe anpanteperiorpior umapuma mopoçapa tipinhapha sipidopo viopiolapadapa epe apassapssassipssinapadapa nopo compomboiopóio. O Destino é mesmo implacável.
Madre Clara era uma mulher entre mulheres. Fartou-se e decidiu abandonar o convento. Lutou primeiro contra a tentação mas desistiu. Depois é que decidiu sair. O padre a quem se confessava disse: "É melhor não casar. Mas é melhor casar que arder." Saiu e foi viver como uma mulher solteira, esperando que algo acontecesse. Rezou e o senhor António do mercearia convidou-a para ir ao cinema. Sairam já namorados. Casaram, e quem os casou foi o padre confessor. Vieram a Lisboa de lua de mel e quando chegou ao Brasil já vinha grávida. Teve quatro rapazes cabeludos, mas isto só faz sentido porque ela rapava as pernas, secretamente, no convento. Antes de sair de lá para casar.
Maria Angélica tinha sessenta anos e arranjou um amante de 19 anos. O rapaz aproveitava-se da riqueza da senhora, vivia num hotel e tomava o pequeno-almoço na cama. Vivia à grande. Um dia decidiu ir para fora e Maria Angélica pagou. Quando voltou exigiu mais dinheiro, tanto dinheiro que o apartamento e o carro de luxo não davam para cobrir a despesa. Furioso, ante a recusa da senhora ("meu amor, tenha piedade de mim!") saiu e bateu com a porta. Ela ficou sentada na sala, ferida. Disse:
"- Parece - pensou - parece que vai chover."

Comments: Enviar um comentário