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quinta-feira, abril 22, 2004

Casino... uma tentativa mais que falhada de escrever um conto 

"Imaginem que estão a contar/descrever algo nessa época [2084]; podem ser páginas de uma antecipação política, páginas de um diário, uma entrevista, uma reportagem, um poema... Mas imaginem-se em 2084..." A proposta veio de um elemento do bookcrossing. E eu comecei a imaginar como seria viver num mundo assim. Ficou tudo por dizer. Fica aqui o nada que escrevi.

Casino
Joao caminhava junto à beira do passadiço exterior, com passo lento. O tempo ia mudar, tal como anunciara os serviços de inteligência. Mas desta vez, à Primavera continental, seguir-se-ia, sem transição, um Outono indiano. A população apreciava estas mudanças e decidira desde há muito, naquela cidade original, surpreender-se constantemente a si mesma. Sempre que saía do centro da cidade e se permitia um passeio pessoal, procurava não deixar demasiados pormenores ao acaso. Os amigos apreciavam o seu gosto pelas regularidades e admiravam-no como um excêntrico ousado. Joao cultivava essa descoberta serena dos padrões e das invariâncias, tão desprezadas pelo gosto comum que um preconceito aristocrático acabara por as relegar para as tarefas científicas e para a profundidade ignota do trabalho mecânico e repetitivo, a que o homem já não se submetia. Joao era um coleccionista, termo em desuso para designar principalmente aquelas pessoas que alimentavam com método e persistência assinalável o gosto pela contiguidade espacial dos objectos físicos. Mas em vez do gosto por objectos, a que cedia só ocasionalmente e por inércia, ele preferia coleccionar regularidades, padrões, repetições, episódios de previsibilidade, algoritmos sofisticados aplicados às circunstâncias da vida comum. Era um coleccionador original e de índole conservadora. Não suportava viver constantemente na expectativa e no jogo, procurava relações de causalidade, contiguidades físicas e temáticas e sabia diluir nesses prazeres simples e esquecidos a ansiedade e a histeria comum à maior parte dos seus amigos. Por isso todos o consideravam um pouco soturno, nada imprevisível, um conservador na linguagem e nos hábitos. Afinal um bom amigo. Nunca sabiam o que esperar dele. E isso era o melhor que poderiam desejar.
Enquanto caminhava procurava pressionar com o peso do seu corpo a estrutura do passadiço de tal modo que a cada passo ouvisse o ranger enigmático das placas de madeira. Gostava daquele ruído que sugeria apenas aquilo de que resultava efectivamente. O ruído de passos, soando lentamente no caminho, com a beleza e o mistério estilizado da sombra de uma cana que balouça ao vento.



Para lá do passadiço tudo parecia igual. Da última vez que passara por ali, cinco dias antes, as árvores balouçavam ao vento na mesma cadência irregular mas monótona. Hoje também balouçavam ao vento, e diria que tudo se repetia como então.
"- Provavelmente estou a imaginar." - disse em voz alta, enquanto caminhava. Olhou em volta para verificar se alguém o acompanhava mas estava só no amplo arco que definia o caminho.
Não era comum, numa cidade sobrelotada como aquela e em festa permanente, conseguir estar só e dizer uma frase completa sem ser interrompido. A agitação era permanente e a busca do delírio a que acabara por se acomodar com mais facilidade do que imaginara quando chegara à cidade alguns anos antes, nem sempre o satisfaziam. Agora que o unia aos seus amigos uma amizade firme e verdadeiramente fraterna, não temia ser apontado como excepção. Não vivia um minuto sem estar em ligação com eles, ainda que por vezes não reagisse às suas intervenções.

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