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domingo, abril 25, 2004

Do cabaret para o hospital... por tempo indeterminado 

Volto à reclusão esta manhã, pelas 8.00 horas. Não sei por quantos dias, seguramente por mais de uma semana e menos de um mês. Ou o que é seguro?
Levo três munições: A Bíblia Sagrada, na versão de João Ferreira de Almeida, porque estou a ler os evangelhistas; Os Dragões do Éden (Especulações sobre a evolução da inteligência humana e das outras), porque empreendi a terefa de ler o Carl Sagan; A Montanha Mágica de Thomas Mann, porque apesar de representar um ambiente de decadência social e política, é uma história de convalescença. E porque já tinha feito uma tentativa anterior de o ler, que me deixou a páginas 100.

sábado, abril 24, 2004

Dia Mundial do Livro 

Ontem foi o Dia Mundial do Livro. É uma comemoração recente (desde 1995, creio) e para mim, associada à Primavera e à música, resulta numa das associações mais generosas. Em Barcelona os livreiros ofereciam uma flor com um livro vendido e o gesto floriu num dia evocativo do prazer da leitura. Há dois anos fizémos na JB a 3ª edição das Leituras Imprevistas, nesse dia. À noite fui ao Forum Romeu Correia assistir a um encontro com Alberto Manguel, o autor de Uma História da Leitura.Desta vez passei o dia em baixa, praticamente sem leituras. A minha rotina diária está tão desestruturada que por vezes nem tenho sítio para ler.
Acompanhei de longe, e pelo canto do olho, algumas iniciativas. A libertação de livros pelas raparigas do bookcrossing (100, segundo anunciaram), as leituras em movimento, nos autocarros, no metro, no combóio, e mais alguma de que não me lembro. Não tenho notícia de que algo tenha ocorrido na JB, mas...
Agora ouço os foguetes que assinalam a chegada ao dia 25 de Abril.

quinta-feira, abril 22, 2004

Casino... uma tentativa mais que falhada de escrever um conto 

"Imaginem que estão a contar/descrever algo nessa época [2084]; podem ser páginas de uma antecipação política, páginas de um diário, uma entrevista, uma reportagem, um poema... Mas imaginem-se em 2084..." A proposta veio de um elemento do bookcrossing. E eu comecei a imaginar como seria viver num mundo assim. Ficou tudo por dizer. Fica aqui o nada que escrevi.

Casino
Joao caminhava junto à beira do passadiço exterior, com passo lento. O tempo ia mudar, tal como anunciara os serviços de inteligência. Mas desta vez, à Primavera continental, seguir-se-ia, sem transição, um Outono indiano. A população apreciava estas mudanças e decidira desde há muito, naquela cidade original, surpreender-se constantemente a si mesma. Sempre que saía do centro da cidade e se permitia um passeio pessoal, procurava não deixar demasiados pormenores ao acaso. Os amigos apreciavam o seu gosto pelas regularidades e admiravam-no como um excêntrico ousado. Joao cultivava essa descoberta serena dos padrões e das invariâncias, tão desprezadas pelo gosto comum que um preconceito aristocrático acabara por as relegar para as tarefas científicas e para a profundidade ignota do trabalho mecânico e repetitivo, a que o homem já não se submetia. Joao era um coleccionista, termo em desuso para designar principalmente aquelas pessoas que alimentavam com método e persistência assinalável o gosto pela contiguidade espacial dos objectos físicos. Mas em vez do gosto por objectos, a que cedia só ocasionalmente e por inércia, ele preferia coleccionar regularidades, padrões, repetições, episódios de previsibilidade, algoritmos sofisticados aplicados às circunstâncias da vida comum. Era um coleccionador original e de índole conservadora. Não suportava viver constantemente na expectativa e no jogo, procurava relações de causalidade, contiguidades físicas e temáticas e sabia diluir nesses prazeres simples e esquecidos a ansiedade e a histeria comum à maior parte dos seus amigos. Por isso todos o consideravam um pouco soturno, nada imprevisível, um conservador na linguagem e nos hábitos. Afinal um bom amigo. Nunca sabiam o que esperar dele. E isso era o melhor que poderiam desejar.
Enquanto caminhava procurava pressionar com o peso do seu corpo a estrutura do passadiço de tal modo que a cada passo ouvisse o ranger enigmático das placas de madeira. Gostava daquele ruído que sugeria apenas aquilo de que resultava efectivamente. O ruído de passos, soando lentamente no caminho, com a beleza e o mistério estilizado da sombra de uma cana que balouça ao vento.



Para lá do passadiço tudo parecia igual. Da última vez que passara por ali, cinco dias antes, as árvores balouçavam ao vento na mesma cadência irregular mas monótona. Hoje também balouçavam ao vento, e diria que tudo se repetia como então.
"- Provavelmente estou a imaginar." - disse em voz alta, enquanto caminhava. Olhou em volta para verificar se alguém o acompanhava mas estava só no amplo arco que definia o caminho.
Não era comum, numa cidade sobrelotada como aquela e em festa permanente, conseguir estar só e dizer uma frase completa sem ser interrompido. A agitação era permanente e a busca do delírio a que acabara por se acomodar com mais facilidade do que imaginara quando chegara à cidade alguns anos antes, nem sempre o satisfaziam. Agora que o unia aos seus amigos uma amizade firme e verdadeiramente fraterna, não temia ser apontado como excepção. Não vivia um minuto sem estar em ligação com eles, ainda que por vezes não reagisse às suas intervenções.

quarta-feira, abril 21, 2004

"... é parecido com a verdade." 

Os escritores, sobretudo aqueles que não estabeleceram qualquer protocolo prévio com a verdade antes de iniciarem o vulnerável exercício da escrita, dizem coisas extraordinárias. Os leitores que lêm obsequiosamente à letra também lêm coisas extraordinárias. Lembrei-me de uma nota que devo ao blogue, sobre o livro e Inês Pedrosa. Não interessa verdadeiramente qual ("Fazes-me falta"), nem sequer o seu contexto. A pretexto dos recentes acontecimentos deploráveis em torno do futebol nacional fui buscar uma frase do livro que tanto resisti a ler. Na volta de um dos múltiplos monólogos desse livro que nos mata devagar, à medida que a leitura progride, diz o personagem masculino: "Gostavas de futebol porque era parecido com a verdade."
Podemos sempre imaginar um mundo alternativo onde o jogo deixa de ser simples representação simbólica e invade já todos os espaços de produção. O jogo deixa de ser uma modalidade lúdica e irrepetível de ficção casual, passa a ocupar o espaço central da condição humana. Deixamos de inscrever o jogo na nossa vida porque o jogo já é a nossa vida toda. Para descansar da contínua vertigem, poderemos então reservar para certos momentos especiais, um confronto pontual e decisivo com os factos na sua positividade refrescante. As coisas e os objectos, definidos numa linha clara, obedecendo a leis em que podemos confiar.


sexta-feira, abril 16, 2004

incomunidade, uma publicação do alberto augusto miranda 

Recebi com surpresa e (como sempre) com imenso agrado uma mensagem do Alberto Augusto Miranda. A notícia (que para mim é novidade absoluta) da publicação de uma revista on line, concebida a partir do porta-aviões da Guilherme Cossul: incomunidade. Digo porta-aviões como poderia usar uma metáfora de bom gosto, que de facto não me ocorre, para dizer que dali têm saído alguns tiros certeiros, publicações de circulação restrita mas dirigidas a um público atento, happenings variados onde a música, a poesia e a arte em geral são partilhadas com o público. Não posso dizer que tenha frequentado a Guilherme Cossul, mas visitei a sociedade algumas vezes em dia de acontecimento. E sempre passei bons momentos na companhia de gente que gosta de prazeres simples e não distingue necessariamente entre um poema dito pelo autor, uma conversa com amigos fraternos ou um copo de vinho tinto.
É claro que a alma da Guilherme Cossul deve muito ao espírito inquieto do Alberto Augusto Miranda. Naquela sala de amigos ouvi-o falar, cantar, declamar, ouvi-o rir, vi-o beber, ouvi-o tocar piano (ainda agora me soa a melodia de um tema admirável que ele compôs)... mas isso foi há algum tempo. Há tempo demais.


Cuidado com o monóxido de dihidrogénio... 

É uma brincadeira. Mostra até que ponto somos crédulos e fáceis de manipular. Uma vez mais a net é o veículo. É assim: as autoridades de Aliso Viejo, na Califórnia, estiveram quase a proibir na comarca a proibição do uso de uma substância chamada monóxido de dihidrogénio na confecção de produtos alimentares. Aparentemente algum zeloso representante local levou a plenário a notícia recolhida da net de que tal substância poderia causar perigo à saúde pública. A proibição quase... quase... passou. Mas não passou, porque alguém se deu conta de que afinal o "perigoso" monóxido de dihidrogénio, também conhecido como ácido hidroxílico, não é um produto químico altamente perigoso nem um elemento suscepível de entrar na composição do cocktail de uma arma de destruição macissa (ADM)... mas apenas água: H2O. As autoridades quase ludibriadas reconheceram: "é embaraçoso". Pois é.
Podemos encontrar aqui uma página que constitui um divertida paródia sobre o tema. Até tem um abaixo assinado contra a... água!!

quinta-feira, abril 15, 2004

Alguns livros, alguns discos e uma camisa nova em folha 

14 de Abril. Nada a fazer, lá veio o dia 14, entre 7 e 21 do mesmo mês. Almoço reforçado, cerveja cristal, café no Imagem. E isto: O Adeus às Armas de Ernest Hemingway, edição recente da Livros do Brasil. da Telma. La Casa de los Espíritos, de Isabel Allende, assim mesmo em espanhol e da editora DeBolsillo. Da Ana. O melhor de setenta e um - oitenta e seis - Sérgio Godinho. Da minha irmã, da "tia" Paula. 21 temas: "A noite passada" ("um paredão rui..."), entre outros. A Defesa do Poeta, poemas ditos por Natália Correia, alguns da própria poetisa. Poesia Encantada (vol. 2), muitos poemas cantados. Quase todos belíssimos. Da Manuela e do Miguel. Uma camisa fina, mas da camisa não falo porque não sei. Dos meus pais.
Obrigado.

terça-feira, abril 13, 2004

2 meses a postar no deserto... 

Passam hoje precisamente dois meses sobre o início deste blogue. Este é o 50º post, se contei bem. Provavelmente estes comentários não interessam senão a quem os escreve, e isso já não é dizer pouco. A princípio pareceu-me que estes textos poderiam constituir um bom veículo de comunicação com os amigos. Enganei-me, porque agora acredito mais que é preferível deixar os amigos em paz e escrever apenas por escrever. Um diário das leituras próprias interessa tanto a outros leitores como o diário de bordo de um navio negreiro interessa a um velejador solitário. Espero que estes registos, que acompanham irregularmente as minhas leituras sinuosas, possam ao menos constituir um bom depósito de ideias e de impressões de viagem. Para vir ler mais tarde.


Imigrante (morreu Juanito Valderrama) 

Morreu ontem, aos 87 anos, em Sevilha, o cantor Juanito Valderrama, uma glória da canção espanhola, símbolo sobrevivo de "uma certa espanha" que habitualmente encaramos com sobranceria ou complacência. Que fazer? Há gente assim, que parece prolongar no tempo, para além do que se esperava, uma sensibilidade à margem do gosto dominante. Ouvi muitas vezes algumas das coplas de valderrama, nos meus momentos de expatriado compulsivo, nomeadamente o célebre tema Imigrante. Cheguei a comover-me para além das conveniências, com a letra da canção: "Y adiós mi España querida,/ dentro de mi alma/ te llevo metida."



EL EMIGRANTE
Valderrama, Serrapi (Niño Ricardo) y Pitto

Tengo que hacer un rosario
con tus dientes de marfil
para que pueda besarlo
cuando esté lejos de ti,
sobre sus cuentas divinas
hechas de nardo y jazmín
rezaré pá que me ampare
aquella que está en San Gil.

Y adiós mi España querida,
dentro de mi alma
te llevo metida,
y aunque soy un emigrante
jamás en la vida
yo podré olvidarte.

Cuando salí de mi tierra
volví la cara llorando
porque lo que más quería
atrás me lo iba dejando,
llevaba por compañera
a mi Virgen de San Gil,
un recuerdo y una pena
y un rosario de marfil.

Yo soy un pobre emigrante
y traigo a esta tierra extraña
y en mi pecho un estandarte
con los colores de España,
con mi patria y con mi novia
y mi Virgen de San Gil
y mi rosario de cuentas
yo me quisiera morir.

Juan Valderrama Blanca era o seu nome de baptismo. Nasceu em 1916 e começou cantar aos 14 anos. Retirou-se em 1994 mas ainda em Fevereiro passado foi homenageado por grandes nomes do flamenco, naquela que seria a sua última aparição pública: Carmen Linares, Montse Cortés, José El Francés, Miguel Poveda, Arcángel, El Pele, El Potito, Guadiana, Diego "El Cigala", Niño Josele ou Juan Habichuela. Valderrama nunca o vi, mas destes últimos assisti a espetáculos de Carmen Linares e de Miguel Poveda (numa sala praticamente vazia do Teatro da Trindade). Em Portugal o flamenco é simplesmente ignorado. É melhor - para quem goste - ir ouvi-lo para outro lado.


sexta-feira, abril 09, 2004

"O meu nome é Gogol, Nicolau Gogol!" 

"Não conheço... desculpe, disse Google?"
"Na verdade o meu nome completo é Nikolai Malevitch Gogol. Google é o outro..."

Este podia ser o enredo simples de um qui pro quo, com base numa confusão de nomes envolvendo o famoso motor de busca e o escritor russo. Mas agora Gogol também é outra coisa. Numa busca errática que fiz dei com isto: Gogol é uma paródia admirativa ao Google, a partir das óbvias semelhanças do nome. O resultado é demasiado espirituoso para o deixar passar em claro neste blogue de leituras.



A ideia é muito simples: um motor de busca caótico que nos permite encontrar aquilo que não buscávamos. Na página de apresentação podemos ler: "Ce site est une parodie du meilleur moteur de recherche actuel, Google. Sa vocation première est de vous amuser, mais il semblerait que cet outil soit aussi un fantastique outil de découverte du monde!" Nem mais. Encontrar aquilo que procuramos pode ser de grande utilidade e frequentemente é apenas isso que ardentemente desejamos. Mas a maior parte das vezes as nossas descobertas mais significativas e estimulantes têm lugar num imprevisto, por um equívoco inesperado. Um atraso de minutos pode abrir-nos o horizonte para uma realidade nova, mudar-nos a vida. Um erro num percurso que não se conhece bem pode ter consequências inestimáveis, quando analisado com frieza e espírito livre. Este buscador de conceito original é mais uma modalidade do acaso, a que tanto devemos, mas a que não devotamos qualquer gratidão. O Gogol não faz qualquer ideia de como encontrar aquilo que buscamos, mas esse é precisamente o seu encanto: "En effet, Gogol ne tient absolument AUCUN compte de ce que vous souhaitez chercher, mais vous renvoie vers un document choisi plus ou moins aléatoirement. Si jamais Gogol vous renvoyait vers une page ayant un quelconque rapport avec ce que vous cherchez réellement, ce ne serait que pure coïncidence."
Eu fiz a experiência com o Gogol. Escrevi no campo a palavra "sexo" (peço desculpa mas é a palavra mais citada na net) e não apareceu o que seria de prever. Depois escrevi "livros" e mais uma vez saiu outra coisa... nada a ver. Para testar a consistência do Gogol escrevi de novo "sexo" e... entrei no sítio da universidade de Nantes. Com a palavra "futebol" fui dar a um sítio não sei de quê de móveis e equipamento para o lar. Não resisti e para confrontar o resultado desta busca com os resultados recentes do Google escrevi respeitosamente "estúpido"... para ver se ia parar ao sítio do nosso governo. Não. Apareceu outra coisa. Só para terminar e para verificar a absoluta congruência da busca caótica que o Gogol tem para nos oferecer digitei "Nicolai Gogol". O resultado foi uma vez mais inesperado; uma agência de cuidados de saúde, assistência na velhice, se li bem - construir no futuro.
A busca é "mais ou menos aleatória" e por isso não há qualquer nexo entre a busca e o achado. Pode ser um bom divertimento ou uma forma de, - como dizia o inimitável Argileu Palmeira, o Baicharéis (sic), poeta do parnaso brasileiro que assoma para uma glória duvidosa num romance de Jorge Amado - uma forma de "dar uma oportunidade ao acaso".
Enfim, "ce site n'a pas pour but de se moquer des handicapés mentaux. C'est plutôt un vibrant hommage conjoint à Google, Gogol 1er, et Nikolai Malevitch Gogol, auteur du "Journal d'un Fou", d'où l'entonnoir!"


Nikolai Gogol é uma das glórias da literatura russa do século XIX. Escritor que explora o registo do humor e do absurdo, ao mais elevado grau, escreveu um conto famoso chamado "O Nariz" . Nunca o li, mas tenciono fazê-lo em breve. Deixo aqui uma ligação para uma versão em espanhol desse conto, naturalmente versão integral. Para chegar ao conto de Gogol (mas neste caso funciona sem sobressaltos) basta ir um pouco atrás neste post e clicar no dito apêndice. Boa leitura.

quinta-feira, abril 08, 2004

Science Fiction, leituras para um próximo futuro... 

Estou a terminar a leitura de "O Cérebro de Broca", de Carl Sagan. É um livro exemplar, escrito por um espírito lúcido, tolerante e céptico. Da substância da obra falarei noutro post. Sobre o cepticismo e o valor da dúvida (costumo dizer aos meus alunos que a dúvida foi uma das maiores invenções do homem) deixo um link para um artigo didáctico deste divulgador apaixonado do espírito científico. Onde? Aqui mesmo.



Vim aqui por outro motivo. Num dos capítulos finais do livro ("Para Marte , via Cerejeira", p. 201), Carl Sagan empreende uma entusiástica defesa da ficção científica e da importância desse género literário para o despertar da curiosidade científica. Numa passagem desse capítulo escreve: "He Who Shrank, de Harry Hasse, apresenta uma especulação cosmológica arrebatadora que hoje tem vindo a ser seriamente revivida, a ideia de uma infinita regressão de universos - na qual cada uma das nossas partículas elementares é um universo a um nível inferior e nós somos uma partícula elementar do próximo universo superior."(p. 191) Pareceu-me curiosa esta nota quase marginal, e lembrei-me de que também eu e alguns amigos de escola, chegámos a teorizar sobre esta possibilidade. Imaginámos um universo (eu cheguei a registar a teoria em papel, escrevendo um pequeno relatório solene com um desenho tosco) em que o infinitamente pequeno inclui ainda universos infinitamente complexos, e essa complexidade infinitesimal constitui a base elementar de outros universos que nos transcendem e de que somos apenas uma parte ínfima. Existiriamos entre dois infinitos, entre abismos, num equilíbrio sobre a lâmina.
Foi por essa altura que li um dos primeiros livros de ficção científica a sério, "O Planeta dos Macacos". Era um livrinho de capa azul, do Círculo de Leitores e veio parar às minhas mãos de leitor inexperiente que o leu sem qualquer ideia preconcebida sobre o género. Rapidamente percebi que aquele prazer da leitura, quando é muito intenso e incomunicado - nem sempre podemos confidenciar com outros leitores - parece pecado. Mas a volúpia sobrepassa facilmente o sentimento de culpa, para mais num leitor sem escrúpulos de consciência como eu, desde cedo. Tal como as personagens do início do livro de Pleu Boulle, um casal de símios que viaja em núpcias numa nave espacial privada e que encontra um manuscrito, onde se conta então a história inverosímil que já sabemos, eu, leitor debutante, senti que navegava num espaço sem limite, aberto a todos os mundos, onde seriam possíveis todos os prazeres imagináveis. Mais do que uma navegação, era uma deriva, ainda sem referências, em todo o caso uma viagem.
Um dos episódios mais perturbadores (era da idade): quando os humanos são mantidos em cativeiro e a personagem principal é reunido com Nova. Os símios, tão curiosos e inventivos como os humanos, queriam observar com olho antropológico - a palavra é mesmo esta, caramba - o acasalamento de dois seres humanos. Descobri nessa leitura que o pudor é um escrúpulo que declina em determinadas condições bem controladas, como era o caso.



Depois encontrei outro clássico, "A Guerra dos Mundos" de H. G. Wells. Li-o e depois reli inúmeras vezes o capítulo XVI, "O êxodo de Londres". Descobri mais tarde que aquelas páginas que descrevem o tumulto da fuga da população da cidade de Londres me proporcionaram uma e outra vez, repetidas vezes, a minha primeira experiência literária. Percebi que aquilo era "literatura" (não me perguntem agora o que é isso) e que aquelas páginas transcendiam a literalidade do que estava escrito, empurrando o leitor para uma verdadeira experiência de medo e de caos. Foi essa experiência de arrebatamento que procurei das inúmeras vezes que voltei àquele capítulo que antecede o domínio dos marcianos. O livrinho de cor azul escura (também do Círculo), com uma gravura estilizada na capa onde surgem, por entre a vegetação que lhe serve de alimento, um grupo de figuras sem rosto (a la Margrite), tem-me acompanhado sempre. Agora tenho-o sobre a secretária.



E depois (ou antes) devo incluir o Júlio Verne e os seus livros de uma fantasia calculista, sempre tão previdentes, meticulosos, geométricos. "Vinte Mil Léguas Submarinas" , "Da Terra à Lua", "À volta da Lua", "Viagem ao Centro da Terra", entre outros. E um misterioso livro que li mais tarde, "A Nebulosa de Andrómeda" de Ivan Efremov, um escritor russo que inventa um planeta unificado sob uma organização política socialista, capaz de empreender as mais ousadas viagens pelo espaço. Nunca me esqueci de uma das suas personagens do livro, um cidadão desse mundo ameno e sem conflitos, Mven Mas.



Regresso a Carl Sagan, a um dos parágrafos daquele capítulo sobre a função pedagógica da ficção científica: "O grande interesse dos mais novos pela ficção científica está reflectido nos filmes, nos programas de televisão, nos livros de BD e na exigência de cursos sobre ficção científica nos liceus e nas universidades. A minha experiência é de que esses cursos podem ser excelentes experiências ou desastres, dependendo da forma como são ministrados. Cursos em que as leituras são selecionadas pelos estudantes não lhes fornecem qualquer oportunidade de ler o que ainda não leram. (...) Mas os cursos de ficção científica devidamente preparados, nos quais a ciência ou a política são parte integrante, parecer-me-iam ter uma longa e útil vida nos currículos escolares. É como experiências sobre o futuro, como exploradores de destinos alternativos e tentativas de minimizar o choque do futuro que a ficção científica pode alcançar o maior significado humano. (...) É minha opinião firme que nenhuma sociedade da terra está hoje bem adaptada ao que será a terra daqui a uma ou duas centenas de anos. Precisamos desesperadamente de uma exploração de futuros alternativos, experimental e conceptual. Os romances e os contos de Eric Frank Russell correspondiam exactamente a isto. Neles podemos ver sistemas económicos alternativos concebíveis ou a grande eficácia de uma resistência passiva unificada a um poder instalado. Na ficção científica moderna podem também encontrar-se sugestões úteis para fazer uma revolução numa sociedade tecnológica computadorizada, como em The Moon Is a Harsh Mistress, de Heinlein." (p. 196 - 197)
A escrita e o pensamento do autor do "Cérebro de Broca" são, definitivamente, uma grande inspiração que nos ajuda a pensar. O optimismo de um homem que afirma a grandeza do cepticismo, sem o qual não haveria de todo um saber científico, é um humanismo marcado pela instrumentalidade tecnológica, pela cultura e pelo respeito por todas as diferenças. Nas suas mais claras formulações este humanismo abre um espaço para o homem no imenso cosmos, onde a aventura do conhecimento constitui a grande odisseia da humanidade.
A terminar, uma última citação de Sagan: "A acomodação à mudança, a procura ponderada de futuros alternativos, são as chaves para a sobrevivência da civilização e talvez da espécie humana. A nossa é a primeira geração que cresceu com as ideias da ficção científica." (p. 197)


7 de Abril, Dia da Mulher Moçambicana 

Dia de festa, casa cheia como não se via há muito, música africana, risos estridentes em voz alta e muita comida, muita bebida. A Manuela fez anos e em Moçambique é feriado nacional porque o 7 de Abril ficou como o Dia da Mulher Moçabicana, para assinalar a data da morte de Josina Machel que ocorreu em 1970.



Desta vez registo: a Odisseia de Homero, na recente e celebrada tradução de Frederico Lourenço, para a Cotovia; O Fio das Missangas de Mia Couto, obra recentíssima do autor moçambicano que regressa as contos breves e precisos, com chancela da Caminho; um livro da Assírio & Alvim, poemas do poeta grego Odysséas Elytis - Louvada Seja (Áxion Estí); um CD de Amancio Prada, Trovadores, Místicos Y Románticos; um CD duplo, "The very best of Africa", com Youssou N'Dour, Khaled, Salif Keita, Rachid Taha, entre muitos outros.

terça-feira, abril 06, 2004

Não fui, votei em branco... 

Saí de casa para assistir a mais um lançamento do "Ensaio sobre a Lucidez". Fui perder tempo para a paragem do autocarro. Ao fim de mais uma hora voltei para casa sem comprar o livro e sem ouvir o que o autor teria ainda para dizer. Tenho lido e ouvido as razões de Saramago, percebi que envelheceu e que agora já não esconde a sua amargura por um mundo que não se molda às suas representações.
Vi-o há muitos anos também em Almada, antes de escrever "A Jangada de Pedra"; confidenciou-nos então que tencionava escrever um livro de 'ficção científica', que veio a ser, afinal, aquele em que a península descola da Europa para uma longa deriva no atlântico. Vi-o depois, fazendo de pajem, como ele próprio admitiu, num encontro com Gonzalo Torrente Ballester, no Forum Picoas. Foi o ano em que o cometa da literatura espanhola passou por Lisboa, trazendo na sua cola muitos dos seus melhores escritores: Eduardo Mendoza, Rafael Alberti, Angel Crespo... e outros de que já não me lembro. Foi de um comentário de Saramago a um livro difícil e obscuro de Ballester - A Saga/ Fuga de JB - que acabaria por nascer o interesse da D. Quixote pelo livro. Anos depois aparecia traduzido finalmente em português.
Quanto ao lançamento do Ensaio eu hoje... não fui, votei em branco.


segunda-feira, abril 05, 2004

"Ela parecia um uivo", escreveu a Clarice Linspector no seu livrinho porno 

Encontrei-o inesperadamente e em poucos minutos estava tudo terminado. Vi-o sobre a mesa com uma etiqueta estranha. O título soou como um sarcasmo dissimulado, uma frase sussurrada ao ouvido que depois explode numa metáfora incontrolável. Refiro-me ao pequeno livro de Clarice Linspector, "A Via Crucis do Corpo". Li-o durante a manhã (e princípio da tarde) de um destes dias. A edição é quase desprezível. Parece papel de embrulho com uma fotografia casual na capa. É da editora brasileira artenova, e tem data de 1974. Faz 30 anos.
O livrinho da autora consagrada e celebrada começa com uma explicação: "O poeta Álvaro Pacheco, meu Editor na Artenova, me encomendou três histórias que, disse ele, realmente aconteceram. Os fatos eu tinha, realmente faltava a imaginação. E era assunto perigoso. Respondi-lhe que não sabia fazer história de encomenda. Mas - enquanto ele me falava ao telefone - eu já sentia nascer em mim a inspiração. A conversa telefónica foi na sexta-feira. Comecei no sábado. No domingo de manhã as três histórias estavam prontas." (explicação) O livro é composto por pequenas histórias cruentas - "contundentes", segundo a autora - que a deixam chocada. "Chocada com a realidade", escreve.
Os pequenos relatos, que por vezes se aproximam na sua informalidade e ligeireza narrativa, pelo menos aparente, da crónica cruzada com ficção, são 13 (número funesto): "Miss Algrave", "O corpo", "Via crucis", "O homem que apareceu", "Ele me abateu", "Por enquanto", "Dia após dia", "Ruído de passos", "Antes da ponte Rio-Niterói", "Praça Mauá", "A língua dos "p", "Melhor do que arder", "Mas vai chover". E quem nunca leu antes Clarice Linspector (como era o meu caso), poderá sentir uma primeira desilusão. A Literatura e a Vida estão cheias de histórias improváveis, contadas por escritoras talentosas.
Miss Algrave, solteira e virgem, dactilógrafa, morava em Londres e foi amada por um visitante de Saturno; depois enquanto esperava a sua segunda visita tornou-se libertina, amante insaciável de andar na rua.
Xavier, Carmen e Beatriz vivem um triângulo amoroso e uma paixão intensa mas irregular. Xavier apaixona-se por outra mulher, Carmen e Beatriz planeiam o assassinato e sepultam-no no jardim. O cadáver jaz sob um roseiral e a polícia admite que o melhor "é finjir que nada aconteceu".
Maria das Dores estava grávida e seu marido nunca lhe tocara. Era virgem como a mãe de Cristo. O marido, que aceitou fazer de S. José, colaborou na deriva para a história divina. O menino nasceu no estábulo da quinta da tia Mininha.
Era sábado e tinha ido comprar coca-cola e cigarros. Na loja encontrou Cláudio, um amigo remoto, que parecia perdido. Em casa conversaram e beberam café. Cláudio sofria muito e fazia poemas. Também falaram de literatura. "Fui me deitar. Eu tinha morrido", é como acaba a história.
Serjoca e Aurélia eram amigos; Serjoca maquilhava Aurélia com arte. Uma noite conheceram um homem atraente que preferiu a amizade (talvez o amor) de Serjoca. Aurélia era apagada lentamente (e com arte) pelo amigo que a maquilhava agora com malícia. Uma noite esbofeteia-se a si própria e recupera o rosto que parecia perdido, anulado, pela maquilhagem: "Acabara de nascer. Nas-ci-men-to."
A escritora trabalhou todo o dia e espera pelas 20.00 horas. Enquanto espera pensa. Ninguém lhe telefona, pensou mesmo telefonar a si própria para confirmar que estaria impedido. "A gente morre às vezes." É 13 de Maio, é um dia quase como os outros. A escritora está decidida a escrever um livro pornográfico, até já pediu autorização ao filho. Do outro lado do telefone não concordam com ela, pode ser devastador. Uma e outra coisa, mais ou menos duas histórias, o medo de falar em público. "Viva eu! que ainda estou viva. E agora acabei." E com estas palavras acabou e também acabo eu.
Dona Cândida Raposo tinha oitenta e um anos. "Essa senhora tinha a vertigem de viver." Cheirar profundamente uma rosa, ouvir Liszt, ver o verde das árvores e a altitude deixavam-na arrepiada. O desejo não passava. Foi ao ginecologista que lhe disse que o desejo não passa nunca. "Mas isso é o inferno!", exclamou Dona Cândida. "É a vida, senhora Raposo", explicou o médico. Nessa noite, por conselho do ginecologista, Dona Cândida raposo satisfez-se sózinha. Depois chorou.
É uma história enrolada. Jandira era linda e ficou sem a perna que gangrenou. O noivo fugiu dela. Ao fim de três meses a rapariga linda morreu. Bastos, o noivo, vivia já com outra mulher, com Leontina. Um dia, por ciúme, esta despejou uma chaleira a ferver no ouvido do rapaz que dormia. Leontina passou um ano na prisão. Quando saiu voltou para Bastos, surdo e mirrado. Amavam-se de verdade. O pai da rapariga morta continuou amante da mulher do médico. A história é um pouco escabrosa e a prova está em que o homem, pai de Jandira, tinha um dente de ouro, na frente, apenas por luxo. Cheirava a alho. A escritora esboçou esta história para se livrar dela: "E é só."
Luísa era Carla e Carla era Luísa. Carla trabalhava num clube erótico, Luísa não. Dormia com clientes, era natural. Celsinho, "homem que não era homem", era o seu amigo dos momentos difíceis. Celsinho tinha adoptado uma criança a quem dedicava todo o seu tempo. Numa noite Carla dançou com um homem que espicaçou o desejo de Celsinho. Discutiram. Ele disse:
"- Mas você não é mulher de verdade!
- Eu,? como é que não sou? espantou-se a moça que nesta noite estava vestida de preto. (...)
- Você, vociferou Celsinho, não é mulher coisa alguma! Nem ao menos sabe estalar um ovo! Eu sei! Eu sei! Eu sei!
Carla virou Luísa."

O destino é implacável, epé copomopo terpermipinapa opo repelapatopo "a língua do "p". Maria Aparecida, proprofepessopssorapa depe Inpinglêsplês, moporapavapa empem Minas Gerais. Umpum diapia topomoupou opo compomboiopóio paparapa opo Rio, iapia paparapa Nova Iorque. Nopo vapagaopão doispois hopomenspens suspuspeipeitospos ipinipiciampiam umapuma conponverpersapaçãopção enpentreptre sipsi napa linplinguapuagempgem cipcifrapradapa dospos "pp". Apa prinprincipípiopio nãopão, maspas depepois compompreenpreendepe quepue compombipinampam viopiolapá-la quanpuandopo apa compompoposipiçãopão enpentrarprar numpum túpúnelpel. Paparapa ospos depesarparmarpar finpingiupiu-sepe prosprodtipituputapa, compom gespestospos epe expexprepressõespssões depe proprovopocapaçaopão. Opo bipilhepheteipeiropo viupiu-apa epe chaphamoupou apa aupautoporipidapadepe, enpenquanpuantopo ospos dospos hophomenspens ripiampam aspàs garpargapalhaphadaspas. Japá napa gaparepe, conpondupuzipidapa pepelapa popolípíciapia, Cidinha crupruzapa-sepe compom umapuma rapapapariprigapa quepue apa opolhaplha compom desprepreprezopzo, anpantespes depe supsubirpbir paparapa opo compomboiopói. Eé lipiberpertapa epe enpenquanpuantopo papasseiapsseia porpor Copacabana vepê nopo jorpornalpal quepue napa noipoitepe anpanteperiorpior umapuma mopoçapa tipinhapha sipidopo viopiolapadapa epe apassapssassipssinapadapa nopo compomboiopóio. O Destino é mesmo implacável.
Madre Clara era uma mulher entre mulheres. Fartou-se e decidiu abandonar o convento. Lutou primeiro contra a tentação mas desistiu. Depois é que decidiu sair. O padre a quem se confessava disse: "É melhor não casar. Mas é melhor casar que arder." Saiu e foi viver como uma mulher solteira, esperando que algo acontecesse. Rezou e o senhor António do mercearia convidou-a para ir ao cinema. Sairam já namorados. Casaram, e quem os casou foi o padre confessor. Vieram a Lisboa de lua de mel e quando chegou ao Brasil já vinha grávida. Teve quatro rapazes cabeludos, mas isto só faz sentido porque ela rapava as pernas, secretamente, no convento. Antes de sair de lá para casar.
Maria Angélica tinha sessenta anos e arranjou um amante de 19 anos. O rapaz aproveitava-se da riqueza da senhora, vivia num hotel e tomava o pequeno-almoço na cama. Vivia à grande. Um dia decidiu ir para fora e Maria Angélica pagou. Quando voltou exigiu mais dinheiro, tanto dinheiro que o apartamento e o carro de luxo não davam para cobrir a despesa. Furioso, ante a recusa da senhora ("meu amor, tenha piedade de mim!") saiu e bateu com a porta. Ela ficou sentada na sala, ferida. Disse:
"- Parece - pensou - parece que vai chover."

Sou um "ouvir-dizer", voyeur dos livros, se é que existe 

Gosto de ver, porque há um prazer na representação que não se consuma no acto concreto de fazer. É um prazer mais abstracto, sem o obstáculo da contingência. Ver é não correr o risco de falhar. Vendo bem, é um pouco triste. Mas no caso da leitura, no "ouvir-dizer", falamos de outra coisa. Ouvir ler liberta-nos do esforço da operação mental que associa signos e lhes dá um revestimento sonoro, mas vincula-nos ao exercício severo da atenção. Quando ouvimos ler não podemos deter a leitura, devemos deixar que nos arrastem na vertigem da história que uma voz estranha nos conta. A história da leitura está cheia de "ouvir-dizeres", de leitores indolentes ou lascivos que apreciam essa vertigem. Uma história decantada pela voz de um outro leitor é uma leitura nova que se empreende, mesmo se o texto já é conhecido. Uma leitura de segundo grau, porque também lemos a leitura do leitor, à qual não podemos ficar indiferentes.
Numa Feira do Livro recente - creio que na última -, em Lisboa, assisti a uma leitura. Ouvi O Poço e o Pêndulo, de Edgar Allen Poe, lido por um elemento dos Artistas Unidos.



Um texto que eu não conhecia, dito com contenção e rigor. Quase três quartos de hora a 'ouvir dizer' e no final o forte impacto da chegada do general Lassalle a Toledo. Gostei de ouvir ler e estava disposto a submeter-me de novo a essa experiência.
Fiquei a saber que a Festa do Livro de Almada também nos reserva leituras ao fim de tarde, pelos Artistas Unidos. Sempre na Sala Polivalente do Forum Romeu Correia, às 18,30, com entrada livre, porque ninguém pagaria para ouvir ler. É assim: a 13 de Abril Isabel Muñoz de Carvalho lê História de Rosa Brava de José Régio; a 27 Miguel Borges lê Primeiro Amor de Samuel Beckett; a 11 de Maio Lia Gama lerá A Senhora do cãozinho de Anton Tchekov; a 25 será Américo Silva a ler José Matias de Eça de Queirós; a 8 de Junho Carla Galvão lerá Super Flamina Babylonis de Jorge de Sena e finalmente a 22 desse mês Jorge Silva Melo lê O Nariz de Gogol.

domingo, abril 04, 2004

Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Bordéus 

Fez ontem, 3 de Abril, 50 anos que morreu o cônsul Aristides Sousa Mendes. Salvou milhares de refugiados, quando os alemães ocupavam a França e já não havia saída. Arruinou a sua vida e dos seus 14 filhos. Só foi recuperado recentemente como uma das grandes figuras morais de resistência ao antigo regime. Porque o seu acto foi de heroísmo silencioso. Proscrito, acabado, falido, viveu o seu acto grandioso mergulhado nas vicissitudes do fracasso. É um dos meus heróis, porque não acredito em santos. Mas também não me lembro de outro que se lhe possa equivaler.
Fala-se em recuperar a casa do diplomata, conhecida como a Casa do Passal, em Cabanas de Viriato. Mas falta o dinheiro e isso não é pouco. A Fundação Aristides Sousa Mendes, criada em 2000, quer criar ali um Museu do Holocausto.
O meu "arquivo" sobre o cônsul de Bordéus resume-se a um folheto pedagógico, a um livro de natureza biográfica e ao documentário de Diana Andringa, "Aristides de Sousa Mendes - o cônsul injustiçado".


"Li 'Os Maias' nesses três dias"  

O Público está a publicar diversos depoimentos sobre o regime anterior, a propósito do próximo aniversário redondo do 25 de Abril. São 30 anos e as histórias não acabam. Como esta de Teresa Dias Coelho, detida por duas vezes em Caxias, pela PIDE. Numa das vezes, em que permaneceu seis meses na prisão, fez greve de fome por solidariedade com uma companheira de cela: "Senti-me na obrigação, por solidariedade. Li 'Os Maias' nesses três dias."
Se isto não é um acto de heroísmo... então só pode ser o gosto pela leitura levado ao inverosímil.

a alma n e pkena - 100 poemas pt p sms 



Todos os dias se faz história. Saiu já, com a chancela do Centro Atlântico, a primeira Antologia de poesia portuguesa para SMS. Os poemas foram escolhidos para caber no pequeno formato do SMS. Portanto ficam de fora poemas como a Tabacaria de Álvaro de Campos
(e para mais numa época anti-tabagista), Vem Serenidade de Raul de Carvalho... provavelmente nem sequer Um Adeus Português de Alexandre O'Neil pode passar na malha da mensagem curta. Almeida Garrett, Camilo Pessanha, Pessoa ( "Minha Lisboa, meu lar"até dava), entre outros, estarão neste preciso momento a circular através do SMS. A novidade vem num belíssimo folheto da FNAC dedicado à poesia. Lê-se na recensão: "Transforme o seu telemóvel no veículo destas palavras, encha os seus contactos de poesia". A alma não é pequena. Tudo vale a pena... por 9,90 €, preço FNAC.

sábado, abril 03, 2004

O Lâmpaco, entre macaco e lâmpada... bizarroco das distantes florestas de África 

Isto está mau. O tempo não parece de Primavera. Chove, faz sol, sopra uma ventania desgraçada. Quem diria que o equinócio da Primavera começou no dia 20 de Março, precisamente pelas 06.49 da madrugada?! Pelo menos a acreditar nos serviços do Observatório Astronómico de Lisboa (OAL), que são de confiança. Antes que me esqueça - não tem nada a ver - sabiam que fomos esta manhã ao Fórum Romeu Correia, à Biblioteca, secção infantil, para uma iniciativa da Festa do Livro organizada pela Câmara Municipal de Almada? A verdade é que não sabia bem ao que ia, o Miguel muito menos. Afinal ele não quer que se saiba a história. E é isto. O tempo parece de Inverno. Não sabemos como devemos sair à rua. De guarda-chuva? Com camisola de lã? Botas de inverno, para a chuva, ou sapatos leves? Quando chegámos lá, já tarde, como é costume, percebemos que afinal o atelier ainda não tinha começado e que nós eramos os únicos participantes. Parece o princípio de uma história de terror mas não é. Ainda ontem, quando saímos do autocarro na Praça de Espanha, apanhámos com chuva. E ainda por cima daquela chuva molha-tolos. Cumprimentámos o animador da actividade que nos conduziu para uma sala interior. Sobre a mesa estava um portátil a que o Miguel se atirou logo. Entretanto chegaram mais duas meninas para ouvir a história (a Ana e a Catarina) e deixámos de ser os únicos. Sentei-me numa cadeira, um pouco à margem, e o rapaz, depois de breves apresentações e de explicar que o atelier se inscreve num projecto cultural, patrocinado por uma universidade, e que tudo irá desaguar num site que ainda não está pronto, começou a ler a história: Estranhões e Bizarrocos, de José Eduardo Agualusa. A sala estava aquecida e recebia em pleno a luz do sol, mas lá fora o tempo continuava incerto. Vento e muita humidade atmosférica.



Esqueci-me de dizer que antes de começar a ler a história de um inventor de inutensílios, o rapaz levou os miúdos para a Biblioteca para que eles encontrassem o livro. E o Miguel lá o viu, na estante da Literatura-não-sei-quê, também não é importante. Depois sim a história. Jácome, um inventor de objectos estranhos que assustavam os adultos: Máquinas de espirros, formigas mecânicas, pássaros a vapor, sapatos voadores... etc. A chuva foi um pouco inesperada. Quando saimos de casa não imaginava que tivéssemos de correr debaixo da chuva miudinha, entre semáforos e um trânsito ameaçador. Chegámos à Fundação Gulbenkian a tempo, mas com uma molha desnecessária. Depois da história vem o trabalho de inventar palavras novas, seguindo a sugestão do Agualusa. O nome de um animal - o Miguel disse "macaco" - e o nome de um objecto - "lâmpada". E juntando os dois nomes ficou o "lâmpaco". Deve ler-se "lâmpáco", para preservar o artifício fonético. Estão a ver? Depois desta invenção toca a imaginar em barro o estranhão ou o bizarroco e ver o que é que dá. Costuma dizer-se "Abril águas mil". Se calhar o mês vai todo com chuva, dia sim dia não. E logo nas férias da Páscoa, quando apetece ir passear e andar de bicicleta. E o que vem a ser o "lâmpaco"? O Miguel, que quer segredo, explicou tudo: é uma mistura de macaco com lâmpada; é amarelo e um bocadinho branco, come bananas e dá luz por todo o corpo; quando estamos fartos da luz do lâmpaco é simples: tapa-se com um lenço; vive nas florestas de África e os filhos ainda dão mais luz do que os pais; as pernas e os braços são muito parecidos, tal como nos macacos a sério; dois mil "lâmpacos" chegam para iluminar um campo de futebol. Mas tudo isto que vos disse é segredo. O Miguel não quer que se saiba. Amanhã se calhar vai chover e lá se vai o cicloturismo. CHIU... OK?