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segunda-feira, março 29, 2004

Smoking/ No Smoking... o difícil é não escolher! 

A partir de hoje, na católica Irlanda, como se costuma dizer com um grão de ironia, é proibido fumar em locais públicos fechados. A Noruega é o país que se segue. Em Portugal também se anunciam medidas semelhantes, incluídos os locais de trabalho. Escrevo este post enquanto ouço na TSF um fórum sobre esta onda proibicionista.
Lembro-me de dois filmes de Alain Resnais, de 1993: Smoking/No Smoking, com Sabine Azema e Pierre Arditi. São duas variações com o mesmo elenco e derivadas de duas situações contrárias: em Smoking o personagem fuma e esse facto determina o seu futuro e, naturalmente, o enredo do filme; em No Smoking o personagem não fuma e as consequências são divergentes do enredo anterior. Nunca vi nenhum deles, até porque teria dificuldade em decidir-me sobre qual ver primeiro... mas não creio que Resnais se preocupasse excessivamente com as batalhas antitabagistas e suas vicissitudes.



Um pouco por acaso, folheando a Única do Expresso, tropecei numa crónica de Clara Ferreira Alves. Um texto suculento da Pluma Caprichosa, no seu registo habitual de uma poderosa ironia eléctrica. "O Pecado do fumador" é o título e a dado passo Clara Ferreira Alves escreve esta naco de prosa admirável: "Eu sempre achei a Califórnia um lugar chato e asséptico onde o sol brilha demais e a pele e os músculos também. É do óleo. Demasiado loiros, "liftings", loiras e larica. Na Califórnia ninguém come e ninguém fuma, todos correm, levantam pesos, têm nutricionistas e dieticistas, "personal trainers", "personal assistants" e um grande futuro ou um grande passado pela frente."
Eu não sei se sou fumador/ não fumador, porque penso que é difícil aplicar categorias empíricas a situações da vida que escapam pertinazmente a classificações simplistas. Também não sei a partir de quem ponto alguém é fumador ou não fumador. Mas também sei que algumas pessoas estão visivelmente viciadas no fumo, a ponto de não conseguirem estar muitas horas sem fumar numa situação social. Não há dúvida de que o consumo compulsivo de tabaco pode ser muito prejudicial, quer para o próprio quer para quem convive com 'fumadores'. Também não tenho dúvidas sobre a prioridade absoluta a dar à saúde e à promoção de hábitos saudáveis, mesmo à custa da perda de alguma liberdade individual.
O que me cansa, o que me enerva é o espírito de cruzada que sustenta frequentemente as posições crispadas dos proibicionistas. A pulsão autoritária que se revela na propensão para diabolizar os outros - seja a antinomia 'fumador'/ 'não fumador' ou outra que esteja de moda no momento - já é outra questão e pelo menos tão grave como as questões de saúde levantadas pelo consumo compulsivo de tabaco.
Vivemos um tempo de refluxo das liberdades individuais e não deixa de ser um sinal do tempo medíocre que nos é dado viver o facto deste alarme vir de um debate desta natureza. O estado, que capitalizou em impostos com a promoção do consumo do tabaco, em épocas mais liberais e permissivas, legisla agora contra os consumidores individuais. Não tenhamos ilusões; a onda proibicionista acabará por prevalecer e estender-se para lá dos recintos fechados. E depois de terminado este embate, qual é a causa que se segue? O abuso da cafeína? O consumo de álcool na presença de crianças? A literatura libertina? A pornografia?
Acredito que o determinismo cultural das campanhas antitabagistas, o espírito de cruzada de moda que anima o debate, acaba sempre por esconder o essencial: que o consumo de tabaco quase sempre é causa de problemas de saúde, que a longo prazo provoca problemas graves e envelhecimento precoce e que é necessário tomar medidas para diminuir o consumo. Mas encarniçar o debate e hostilizar os fumadores, como se 'eles' pertencessem a uma subespécie, a uma degeneração genética da espécie humana, não leva a lado nenhum.
Interessa-me mais reflectir acerca da prática social do consumo de tabaco entre os alunos da JB, e das medidas que nós dizemos que vamos tomar e despois deixamos cair. Aqui não transijo e sou definitivamente proibicionista, desde que a questão seja tratada com inteligência e não exclusivamente com regras abstractas.
Sei que a questão do tabagismo regressou recentemente à ordem do dia na João de Barros. Tanto quanto sei a discussão e o escândalo não resultam directamente da constatação do consumo de tabaco pelos alunos, que é diária, para quem circula entre pavilhões, mas de um impreciso abuso do consumo, em locais menos próprios, por parte dos professores. O debate frequentemente é desencadeado entre o pessoal docente, deixando de lado o problema principal que é o consumo impune de tabaco na escola por parte de alunos. Mas quem se interessa, de forma consistente e esclarecida, com esse problema? Não basta perorar sobre o assunto e pedir piedosamente a todos que se envolvam. Isso não resulta. É preciso começar por pensar um pouco, - o que não tem sido feito -, equacionar estrategicamente as soluções viáveis para o problema. E agir, com determinação mas sem simplismos. É isto que me preocupa. Não o folclore das causas de moda, cujos militantes quase sempre me deixam com uma suspeita não resolvida acerca da autenticidade das suas motivações.

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