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quinta-feira, março 04, 2004

"A recuperação semanal da infância", disse ele 

Para começar é um belo livro, este Selvagens e Sentimentais de Javier Marías, da Dom Quixote. A começar pela capa onde parece ainda rolar a bola no fundo da rede, empurrada instantes antes por um jogador do Real Madrid, pois claro. Só tenho reservas em relação ao título que me parece muito feminino. Para um livro sobre futebol isso não será propriamente um problema objectivo, mas eu associo esse desporto à rudeza do pontapé na bola e etc. Pura subjectividade, portanto.
Javier Marías nasceu em Madrid em 1951, licenciou-se em Filosofia e Letras, foi professor de Literatura Espanhola na Universidade de Oxford, no Wellesley College de Massachusetts e na Universidade Complutense de Madrid. É autor consagrado, muito traduzido e muito lido quer em Espanha quer no estrangeiro. Tem pelos galácticos uma paixão que compreende o sentimento e o instinto selvagem de quem busca a vitória sobre todos os adversários. Mas as suas reflexões sempre marcadas pelo humor, que lhe dão a leveza que é preciso, estão também marcadas por um esforço de racionalidade e de ponderação.
O livro resulta de uma seleção de crónicas publicadas no El País ao longo de anos, entre 1992 e 2000. Textos como "Colarinho à Marinheirozito", "Os Hinos", "Oh, ah Cantona", "Carácter e Cromos", "Real Madrid Republicano", "Os Livros Podem Servir Para Alguma Coisa", "Três Golos na Própria Baliza", entre dezenas de outros, constituem pequenas histórias do futebol caldeados com histórias da infância do escritor. O estilo é livre, sempre ágil e a afición do escritor surpreende frequentemente o leitor, tais são os recursos e as subtilezas de que se reveste a sua ligação ao Real Madrid e a sua animosiddae aos blaugrana, ao Barcelona. Nunca é grosseiro, mesmo quando arrasa, nem irremediavelmente sectário, mesmo quando parece que o mundo está prestes a ceder ante uma derrota. O próximo jogo está quase sempre à distância de uma semana e a redenção é sempre possível.
A ideia central, se podemos falar de "centro" num livro de crónicas, é tocante. Na primeira crónica intitulada "A Recuperação Semanal da Infância" o autor escreve: "O que realmente sei é que não há desporto que angustie mais, quando é angustioso. Mais ainda: no meu caso particular, confessarei que é das poucas coisas que fazem com que hoje reaja - exactamente - da maneira como reagia quando tinha dez anos e era um selvagem, a verdadeira recuperação semanal da infância." Todos os textos, ou pelos menos muitos deles entram pela biografia do autor, porque o gosto pelo futebol é inseparável das recordações de infância. Marías não é apenas um adepto do futebol, mas os seus primeiros anos foram vividos ao calor dessa mitologia popular, povoada de heróis musculados e talentosos mas que frequentemente acabavam na solidão. Na actualidade o futebol e as recordações entrelaçadas que ele evoca, a cada semana, são parte do carácter do homem e do escritor. Em cada semana a infância regressa como uma memória remota permanentemente eficaz.
Li o livro em dois ou três dias, com uma história a empurrar-me para outra. Nunca tinha lido nada deste autor, para quem o fulgor do futebol não é apenas um fantasma. Ele ilumina uma parte de nós, porque o futebol é uma grande metáfora da vida.

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