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quinta-feira, março 18, 2004

O País da Adrenalina, digo eu 

Um dia trepidante, de vertigem em vertigem ao esplendor do risco, o glamour do perigo, o cheiro intenso a pólvora, um dia de sobressaltos éticos e de consciência embargada. De manhã, a oração habitual. Uma meia de leite e o Correio da Manhã, que é o jornal nacional dos cafés portugueses. Duas páginas garantidas, desde há uma semana, sobre terrorismo e afins. O escândalo Casa Pia foi remetido para as páginas interiores do jornal. O sexo com menores perde terreno em face da retórica do medo. O alarme agora vende mais do que a perversão do desejo, o cheiro a pólvora mais do que o sémen. Terrorismo a abrir o jornal, na capa e nas páginas 4 e 5. Ou seja, falsos alarmes, partes gagas, árabes e arabescos, a polícia em acção, acordo de Schengen, etc.
Depois cheguei a casa e a minha caixa de correio electrónica fervia com uma mensagem revisionista sobre os atentados de 11 de Setembro em Nova Iorque. Uma teoria da conspiração verdadeiramente revolucionária: os atentados não foram atentados porque tudo não passou de um plano americano para justificar a política externa de intervenção do actual governo e a doutrina da guerra preventiva; americanos mortos no seu país, árabes em bolandas onde quer que vivam. Os aviões que chocaram com as Twin Towers não transportavam passageiros, eram telecomandados. Os judeus faltaram ao trabalho nesse dia e salvaram-se, os códigos de voo envolviam alusões ao número de emergência - 911 - e, argumento decisivo, a 'área das torres há muito que era economicamente deficitária'. E tudo isto 'é óbvio', a acreditar no autor da mensagem. Só falta dizer que, segundo este putativo investigador dos atentados, a América trata mal os emigrantes, o que ajuda a compreender que 80% das vítimas tivessem sido de origem estrangeira, judeus aparte, que estavam avisados e viram os atentados em directo de casa ou do café do bairro. Não resisti e devolvi a mensagem com a minha versão da teoria revisionista. Está no blogue.
Depois vieram dizer-me que tinha rebentado uma bomba na Caixa Geral de Depósitos do Laranjeiro. Com testemunhas, moldura de multidão em estado de pânico e bomba a deflagrar. Fiquei de ver nas notícias.
Ao fim da tarde o Rui Knopfli, que não pediu para entrar nesta história mas é, no fim de contas, o que se aproveita deste dia trepidante.
À noite batiam as 20.00 horas, estou à frente da pantalha, em estado de choque. O Jornal Nacional da TVI, que é o Correio da Manhã em televisão, arranca com o estrépito habitual, muitos decibéis acima do que é humanamente suportável. E o alinhamento das notícias faz o retrato do país a 'ferro e fogo'. Bombas que deflagram, alarme e polícia a intervir em tempo útil com uma grande cópia de meios. Primeiro o caso do saco de roupa abandonado na Estação do Oriente, Parque das Nações. A polícia é chamada e, à cautela, faz deflagrar uma bomba para 'detonar' a eventual carga explosiva do saco suspeito. Transeuntes em pânico e alarme falso. Depois o caso do Laranjeiro. Dois sacos suspeitos abandonados na rua, junto ao banco. A polícia é chamada e coloca no terreno todos os meios. Um homem com aspecto de astronauta remendão, pelo fato anti-minas e armadilhas em que se arrasta pesadamente, manipula cautelosamente a bagagem abandonada. Uma bomba (outra) explode para provocar o rebentamento controlado da eventual carga explosiva abandonada. Junto ao edifício dos correios uma pequena multidão aplaude. O vereador para a Protecção Civil do Concelho tem direito a falar à TVI. Mas não é tudo. Noutra delegação da CGD, mas em Lisboa, um pobre homem que teve a triste ideia de nascer moreno e de se converter mais tarde ao islão, passou um mau momento. Pediu para deixar os sacos que transportava numa sala anexa ao atendimento e foi ao café tomar o pequeno almoço e aliviar-se, sabe Deus. Quando voltou, 15 minutos depois, a esquadra do bairro estava lá em peso à sua espera. Foi detido, identificado e levado para a esquadra onde teve de se explicar.
Na SIC dois jornalistas viveram uma odisseia. Transportaram falsas bombas, ou seja não transportaram nada de realmente perigoso que valesse a pena registar, respectivamente entre Marrocos e Lisboa e entre Sevilha e Lisboa. Se fossem terroristas teriam espalhado o pânico neste país inverosímil. Como são apenas jornalistas, só transportaram caixas que são bombas a fingir, com um telemóvel para detonar nada, obviamente.
A pedofilia só veio depois. Mas o dia ainda não acabou. Quem sabe as emoções que nos aguardam...

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