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quinta-feira, março 18, 2004

"O mundo começou a ser feito por detrás!", disse o louco 

Há anos o escritor Lobo Antunes contou esta história numa entrevista: quando entrava no Hospital Júlio de Matos, onde então ainda exercia psiquiatria, foi abordado por um paciente que lhe segredou ao ouvido: "O mundo começou a ser feito por detrás!" O escritor repetiu depois esta frase em inúmeras entrevistas e crónicas. Considerava que o ofício da escrita e a construção de um romance tem muito dessa pretensão de ver como se faz o mundo, naturalmente olhando por detrás do pano.
Esta anedota ocorre-me a propósito de um mail que o meu amigo Paulo Graça Lobo me enviou hoje. Há quem se empenhe (não é seguramente o caso dele, que é uma pessoa de bom senso e invejável bom gosto) em construir minuciosas arquitecturas de suspeição a propósito dos grandes acontecimentos da actualidade. Histórias que despertam em nós o prazer inconfessado da desconfiança, que reforçam a nossa suspeita de que o mundo é feito por detrás e escapa estrepitosamente ao nosso controlo. Resolvi "ler" a mensagem e acrescentar algumas considerações pessoais, com o objectivo de mostrar a inconsistência dos 'argumentos'. Se gastei um par de horas nesta tarefa e a publico aqui - num blogue com esta denominação - é porque me parece que frequentemente não lemos os textos que recebemos e que nos enviam com a facilidade de um clic. Também me parece verdade que esta mensagem corresponde a um padrão que pode ser tipificado, donde tentando uma interpretação racional e sensata desta, estaria preparado para interpretar a maioria das que me chegam à caixa do correio.
Deixo aqui, devidamente contextualizada e corrigida, a resposta que devolvi ao PGL (é assim que os cronistas designam aqueles com que abrem polémica. O que, aliás, não é o caso. A minha resposta não é mais que uma reação para a qual há muita esperava um bom pretexto. Aconteceu agora e faço planos para reagir mais vezes).


Um dos meus tópicos preferidos são os fenómenos de comunicação gerados pela rede (ainda não encontrei um conceito adequado), sejam de carácter piramidal, alarmista ou, como é o caso desta mensagem, explorem até à caricatura os recursos imaginativos e capciosos das teorias da conspiração. Estou a pensar colecionar esses registos alarmistas e escrever qualquer coisa... um dia.

O Jorge Luís Borges tem um conto - "El Libro de Arena" - onde se conta que um modesto cidadão recebeu em oferta um livro singular. Um livro de areia que nunca abria na mesma página. Aliás esse livro singular - livro de todos os livros imagináveis - continha um número virtualmente ilimitado de páginas. Tal como a rede, hoje em dia... Depois do deslumbramento inicial o homem decidiu livrar-se do livro, que afinal parecia uma maldição. Mas como destruir um livro infinito? Queimá-lo? Não, porque a combustão de um livro infinito acabaria por sufocar todo o planeta. Ora é isto que me parece estar a acontecer com estas mensagens que detectam conspirações em todo o lado, com os alertas de perigo (recebi ontem um mail que me pedia por amor de Deus que não bebesse bebidas em lata sem desinfectar primeiro a lata da urina infecta das ratazanas...), ou, pior ainda, com mensagens comovidas que envolvem falsamente o nome e o rosto de pessoas e por vezes de crianças, que supostamente desapareceram... etc.

Esta mensagem é uma pérola de lugares comuns das teses da conspiração: dá por facto o que é apenas suposição, interpreta factos fazendo passar tais interpretações como dados inquestionáveis e evidências. Passo a comentar as diversas passagens da mensagem, inscrevendo a negrito o texto alheio.

CONTRA EVIDÊNCIAS... NÃO HÁ FACTOS! OU A TEORIA DA CONSPIRAÇÃO NO SEU ESPLENDOR

1. "Será mesmo possível que tudo aquilo tenha sido planejado pelo próprio país?"
A pergunta já nos transporta para um cenário arrepiante; quem não gosta de ser induzido ao medo, desde que de forma controlada e sem risco efectivo? Por isso é que há festivais de filmes de terror. A hipótese transformar-se-á, ao longo da mensagem, numa evidência reforçada... por falsos argumentos.

2. "Evidências sobre as torres de Nova Iorque. Abaixo apresentamos várias evidências sobre o fato de que a derrubada das torres de Nova Iorque NÃO foi feita por terroristas"
Claro que os 'argumentos' são evidências, sobretudo estes. Mas isso 'basta ter olhos na cara'. Contra evidências... não há factos! Todos conhecemos o aforismo, que constitui o grande princípio das teorias da conspiração.

3. A Tese: "o derrube das torres Gémeas não foi um atentado."
Toda a gente percebeu isso, à excepção de todos os grandes jornais de referência, da América e da Europa, dos comentadores e intérpretes dos fenómenos sociais, dos especialistas em terrorismo e estratégia, dos serviços secretos de outros países, dos familiares das vítimas, da opinião pública e de outros elementos vigilantes de uma sociedade tão complexa como a americana. À excepção destes... Aliás, imitando o modelo de inversão metodológica das teorias da conspiração, eu já suspeitava há muito de que a II Guerra Mundial e o Holocausto fizeram parte de uma insidiosa estratégia sionista para criar um estado judeu algures no mundo (é óbvio) - o elemento anti-judeu alimenta muitas destas teorias; não falta neste mail esse detalhe. Dá jeito. Mais: o Elvis não morreu e habita incógnito uma ilha paradisíaca onde continua a desenvolver (da cama dos cuidados intensivos, provavelmente) a sua actividade de agente secreto dos Estados Unidos. O Homem não foi à lua, quanto muito foi a Holliwood... tudo não passa de uma mentira em que estão envolvidos dezenas de milhares de investigadores e cientistas espaciais, toda a imprensa... entre outros. O segredo sobre o embuste da conquista da lua, repetida mais seis vezes de forma pertinaz e continuada durante mais de uma década (que os incompetentes serviços secretos russos engoliram até hoje) tem sido mantido religiosamente por essa legião. E logo nos Estados Unidos. Dentro em breve estaremos a receber mensagens ressentidas tentando explicar que os atentados do 11-M em Madrid foram organizados pelo PSOE, com vista a um lucrativo aproveitamento político. Aliás, afinal quem será o próximo 1º ministro espanhol: Zapataro ou Bin Laden? - foi a pergunta de um dirigente do PP. O ambiente para a conspiração está servido. A lista de teorias conspirativas é imensa e desafia a imaginação, coisa que não falta a esses investigadores do inverosímil.

4. "No dia seguinte à derrubada, o governo dos EUA já tinha nome, endereço e fotos dos "terroristas". Por que não os pegaram antes então?"
Eu não sei se já tinham isso tudo, tal como é dito. Portanto não acredito desde logo que a informação seja credível. O que é, efectivamente, "isso tudo"? E as listas de passageiros servem para quê? Claro que também não havia listas de passageiros porque tudo foi forjado. Na verdade o falso argumento incorre na petição de princípio: se parte da tese/ evidência de que não houve atentado, e como consequência não havia passageiros nos voos, também não havia lista. Se não havia lista de pasageiros nem tão-pouco passageiros, então foi um atentado forjado. É claro que a pista espanhola, por cujo território passaram alguns dos envolvidos, também foi forjada. Na verdade para suportar toda a rede de conivências e cumplicidades das teses conspirativas é preciso envolver quase meio mundo e admitir que essa parte do mundo que mente à outra metade é particularmente fiel ao sigilo ao longo dos anos. Aqui não entra qualquer dúvida conspirativa. Quem pertence ao grande sistema da mentira sistemática não delata nem revela, nunca fala. São sempre estes investigadores esforçados que detectam inconsistências e contradições nas narrativas que nos obrigam a aceitar. Que "anda meio mundo a enganar outro meio" é, de há muito, a força legitimadora de todas as teses conspirativas. O homem comum desconfia, os mais sofisticados traduzem essa desconfiança ancestral numa teoria. Um dia acordaremos dentro dessa teoria, nada é como nos dizem que é e nós próprios não somos aquilo que julgamos ser. Tudo aconteceu, afinal, ao contrário. Isto já é, naturalmente, uma tese conspirativa.

5. "Já havia câmeras de TV profissionais colocadas estrategicamente, dissimuladas e sorrateiramente para transmitirem o evento a todo o mundo desde o seu início, em vários ângulos."
Que coisa estranha mesmo, numa sociedade saturada de instrumentos mediáticos... Claro que este 'argumento' é completamente disparatado. Numa zona como Manhatam (é assim que se escreve?), com milhares de empresas e meios de comunicação escrita, numa sociedade altamente tecnológica, isso nem é uma sombra de 'argumento'.
Uma história: há dois ou três anos caiu um meteoro perto de um parque de estacionamento na Rússia. A imagem do rasto desse objecto foi registada por uma câmera do parque de estacionamento, que apanhou o seu reflexo na chapa de um veículo estacionado. Como se vê, que em Nova Iorque existissem câmeras para registar a tragédia, separadas entre si por cerca de 15 minutos (e a primeira imagem é de uma equipa que acompanhava os bombeiros - naturalmente também envolvidos na conspiração, antes de se envolverem como vítimas na derrocada dos edifícios)... é muito estranho...

6. "Os "atentados" aconteceram antes das 09:00, hora local, quando a maioria dos funcionários nem tinha chegado ainda, já que nos EUA a hora de trabalho começa por volta das 10:00 da manhã."
Este 'argumento' de natureza aritmética é particularmente capcioso. Então os conspiradores preferiam matar uns míseros 3000 cidadãos a matar o dobro ou o triplo, digamos. Não há paciência.

7. "Mais de 80% dos trabalhadores das torres eram de imigrantes e, sabe-se bem, que os EUA não têm simpatia por imigrantes e não os recebem bem."
Nunca li que a percentagem de emigrantes vítimas do atentado fosse tão elevada. A não ser que o conceito (claramente xenófobo) de emigrante envolva os descendentes de europeus, africanos e latino-americanos que vieram para a América há algumas gerações atrás, no século passado e no anterior. Depois este falso argumento é admiravelmente capcioso, apesar de estupidamente inábil, afinal. Repara: 80% das vítimas seriam 'emigrantes', trabalhando num dos símbolos do poder de Nova Iorque, num país que "não tem simpatia por imigrantes". Não faz qualquer sentido porque é uma pura contradição. Para além de ser uma interpretação falsa, xenófoba, em que se revela o parti-pris da própria mensagem. Não é verdade que os Estados Unidos não tenham simpatia pelos emigrantes, pois se o país é, em grande parte, resultado de grandes fluxos migratórios? Se não tem simpatia... como se explica que 80% das vítimas fosse emigrantes? Puro disparate, dislate ideológico, simples manipulação. Mas a teoria da conspiração é sobretudo isso.

5) "Existe uma informação não confirmada de que cerca de 3.000 trabalhadores judeus das torres não foram trabalhar naquele dia."
Claro que uma informação não confirmada é aqui mais um bom 'argumento' para a tese central. É a teoria da conspiração no seu esplendor. Avança-se aqui, de 'argumento' duvidoso para mera interpretação, e de preconceito ideológico indiscutido para informação não confirmada, antes de finalmente cairmos redondamente na conclusão que já está afirmada como evidência no início. Para além de ser revoltante a todos os títulos, o 'argumento' é invulgarmete estúpido, para além de irrealista. Já conhecia esta afirmação de outra mensagem. O que reforça a tese do envolvimento sionista, claro. Como se "evita" que 3000 trabalhadores judeus das Torres Gémeas faltem ao trabalho? Telefona-se para casa e avisa-se que no dia seguinte vai haver um atentado que destruirá o seu local de trabalho, pede-se segredo e pronto? Claro qe os judeus, por todos os 'defeitos que lhes reconhecemos', também se envolvem na conspiração e assistem de casa, em directo, ao ataque e à morte dos seus colegas de trabalho que não tiveram a sorte, por uma vez, de ter nascido judeus. Se não fosse de mau gosto e um insulto à inteligência média seria de rebentar a rir.

6. "Você viu alguma lista de passageiros dos dois aviões ser divulgada? Claro que não, pois ninguém viu."
Pois, ninguém viu. Na avalanche informativa que se seguiu aos atentados alguém poderia inequivocamente contrariar este 'argumento', mesmo que ele seja 'obviamente' falso? Eu não sei, tenho dúvidas razoáveis sobre esta alegação, por isso para mim não colhe. E depois, supondo que não há vítimas nos voos, quem são os familiares que aparecem a chorar... as vítimas? Figurantes contratados? E as dezenas de telefonemas dos passageiros do voo que não chegou ao seu destino e se despenhou numa floresta... não me recordo onde? Telefonemas registados em atendedores de chamadas e ouvidos pelos familiares... foram forjados? Claro que o mail não se refere a este voo.

7. "Sempre que há um acidente aéreo, familiares e amigos vão aos aeroportos buscar notícias sobre os passageiros. Você viu isso acontecer? Claro que não, ninguém viu, pois nada foi divulgado sobre isso, já que não havia o que divulgar. Aqueles aviões voaram por controle remoto. Sabemos que isso já é tecnologicamente possível hoje em dia."
A ideia é luminosa, quero dizer, ironia aparte, uma vez mais capciosa, e não resiste a uma simples reflexão. Vamos ver: para começar o que é "tecnologicamente possível" tem todas as condições para ser "obviamente verdadeiro", e ponto. Não se discute mais isso. Depois este raciocínio envolve uma tortuosa versão das prioridades e uma perspectiva singular acerca dos escrúpulos dos mentores desta conspiração. Quem agiu por controlo remoto, dirigindo os aviões contra as torres, teve o comovente escrúpulo de poupar algumas centenas de passageiros, não obstante terem acabado por morrer mais de 3000 cidadãos... Isto não faz sentido.

8. "O número dos vôos daqueles aviões era 093 e 011. Segundo foi divulgado,o 093 devia ser relacionado ao ano de 1993, quando uma bomba explodiu na garagem de uma daquelas torres e, o número 011, deveria ser relacionado ao próprio dia 11 de setembro. Cá pra nós, acredito que seqüestrar um avião deve ser uma tarefa muito difícil; seqüestrar dois aviões deve ser mais difícil ainda; seqüestrar dois aviões no mesmo dia e horário deve ser bem mais complicado. Será que os terroristas ainda iriam ter exigência para escolher os números de vôos? Qual a vantagem disso pra eles? Seria a de aumentar a complicação? Nenhuma vantagem nem importância, claro! A ligação desses números aos "atentados" só tem serventia àqueles que pretendem montar e forjar provas contra alguém."
Bom contra isto nem vale a pena perder tempo ou procurar contra-argumentos... porque simplesmente não são sequer 'argumentos'. Pura especulação fantasiosa à volta dos números. Jogando com eles podemos criar os efeitos que pretendermos. E depois o erro da petição de princípio, a pura falácia: primeiro decide-se que há uma simbólica premeditada na designação dos voos (093, 011) e depois procura-se mostrar que o sequestro dos aviões com essa designação só traria mais complicações a uma operação já de si difícil. E se partirmos do princípio de que não há nenhum significado especial na designação dos voos que chocaram contra as torres? O 'argumento' ruiria com o mesmo fragor das próprias torres, não é?

9. "Sempre quando um grupo de terrorismo verdadeiro faz algum atentado, imediatamente esse grupo reivindica o atentado para si, pois isto traz prestígio àquele grupo. Você viu algum grupo fazer isso? Claro que não, nenhum grupo reivindicou aqueles "atentados". Mais uma evidência de que não há sentido em relacionar os números 093 e 011 aos "atentados" e atribuir os "atentados" a um grupo de terrorismo não-oficial. E o fato de ter ficado em aberto quem realmente praticou aqueles atos, faz com que EUA ataquem todo mundo indiscriminadamente, isto é, bombardeiem os países cujos governantes eles têm interesse em derrubar. Se um grupo tivesse assumido os "atentados" então os EUA seriam forçados a combater somente tal grupo, o que não é de interesse pra eles, pois era pra deixar tudo em aberto mesmo para "terem" o perverso "direito" de atacar quem quiserem."
Bom, nós vimos imagens que parecem verosimilmente atribuir a autoria dos atentados à Al Kaeda (?). Não vimos? Mas estes supostos 'argumentos' não passam frequentemente de meras construções retóricas - a sua força persuasiva esgota-se na assertividade dos enunciados, na força e na convição com que são apresentados. E é tudo. Se nos dizem "você viu/ claro que não" estamos no âmbito da retórica vazia, não dos 'argumentos' substanciais. Se o leitor é crédulo, o enunciado cumpre a sua função e passa por 'argumento' irrecusável. Como causa e motivo do atentado não ter sido reivindicado teríamos o interesse dos Estados Unidos em manter uma autoria indefinida, com o fim de legitimar intervenções 'onde quer que seja oportuno'. Mas este 'argumento' é anedótico. Acontece que a Al Kaeda, que efectivamente acabou por reivindicar o atentado, tanto quanto se sabe, é mais um conceito que um corpo substantivo de efectivos e operacionais, sediados num campo remoto à espera de ordens para actuar. O próprio grupo é tão difuso que essa sua condição já por si, utilizada sem escrúpulos, pode legitimar intervenções onde quer que seja. Até em Espanha (por absurdo)... onde parece que existem células mais ou menos organizadas. Ó fantasia sem freio...

10. (...) "aqueles "atentados".
Mas não foram atentados? Mesmo que tivessem sido organizados pelos serviços secretos americanos com apoio da secreta israelita e patrocinados pela CNN e pela McDonnalds... não seria um atentado??? Não é só uma questão de aspas aspas, faz parte da idiossincrasia mental de quem concebe estas admiráveis construções da suspeita.

11. "Seqüestrar e manter esses aviões seqüestrados apenas com canivetes ou faquinhas e sem nenhuma arma de fogo em punho parece ser tarefa cinematográfica e difícil de imaginar que nenhuma reação tivesse sido tomada com efeito."
Isto é uma 'argumento'? Mas se os aviões iam vazios de passageiros e de tripulantes os responsáveis poderiam ter inventado qualquer outra versão menos inverosímil. Se não há testemunhas, poderiam ter dito que o sequestro foi levado a cabo com armas de fogo dissimuladas, que ninguém poderia desmentir. De facto parece cinema mas com um mau argumento.

12. "O dia escolhido para os "atentados" foi o 11 de setembro ou 11/9. Porém, os países de fala inglesa invertem a ordem e escrevem 9/11. Este número coincide com o número 911, adotado e conhecido nos EUA como o número de emergências."
E depois? A data do "atentado", para usar as aspas aspas do autor do mail, foi escolhida por critérios mnemónicos? Para que o número das emergências (de que ninguém nos Estados Unidos se lembra, claro) fosse óbvio? Para que efeito? Num tumulto provocado com estes acontecimentos alguém vai brincar com os números e associar milagrosamente a data com o número das emergências?

13. "A área das torres, desde há muitos anos, já era deficitária economicamente."
Este último 'argumento' é apenas tão obsceno como alguns dos outros. Aparece em último lugar por ser definitivo? Por ser o mais consistente? Se quisesse fazer humor diria que actualmente - do mesmo modo que há o controlo remoto para fazer chocar aviões contra edifícios - já existem técnicas inofensivas para fazer derrocar controladamente edifícios com estas características. E sem causar 3000 vítimas. Mas uma vez mais não se percebe qual é o lugar desta afirmação no argumentário geral. É uma prova supletiva ou um 'argumento' estruturante? O móbil é a legitimação de uma política externa abusiva e expansionista ou a gestão imobiliária de uma vasta área no centro de Nova Iorque? Simplesmente não vale a pena gastar saliva com isto.

14. 'Argumentos' como o anterior deixam a nu uma estratégia muito débil, de perfil empírico e cumulativo. Qualquer detalhe de facto, desinserido do contexto, ou qualquer fórmula retórica, são carreados para nos levar a crer no que já é dito de início como evidência irrecusável. Para além de que os 'argumentos' carreados são frequentemente inconsistentes entre si. Dou apenas um exemplo: o 'argumento do horário' do atentado - que teria sido antes da hora de entrada no trabalho (supostamente para minorar as perdas humanas) - não cola bem com o 'argumento dos emigrantes'. O dado duvidoso de 80% de percentagem de emigrantes entre as vítimas também não se articula com a 'argumentação' anterior.

"A NECESSIDADE DE ACREDITAR EM ALGUMA COISA QUE NOS TRANSFORME EM VÍTIMAS."

Se gastei todo este tempo a tentar desmontar a 'argumentação' falaciosa do mail é sobretudo porque me parece que todas estas mensagens se assemelham. Exploram a nossa necessidade de acreditar em alguma coisa que nos transforme em vítimas de um poder ontologicamente injusto e maior que nós. A facilidade de reenviar estas mensagens (basta uma boa lista de contactos e um clic) faz de detonador. E também traduzem um gosto pela manipulaçãoo do outro, seja através da sedução que um cenário romanesco exerce sobre nós, seja pelo alarmismo que provocam (sobretudo mensagens de outra categoria), seja através do medo ou da chantagem. A mentira é um instrumento que serve para manipular os outros. Eu não aceito ser vítima e agente destas paródias de mau gosto que circulam pela net. Do mesmo modo que não ajudo a espalhar boatos.

Post Scriptum: Vivemos numa época de sensação e alarme, ou seja, num tempo pouco propício à avaliação ponderada dos factos. Disseram-me ao almoço que 'tinha rebentado uma bomba' na secção local da Caixa Geral de Depósitos. Havia uma multidão à porta, a GNR e até a TVI, para dar o toque de credibilidade final ao atentado. Dizem que houve uma detonação... PUM! Vou esperar pelo jornal das 20.00 horas. Aposto que, no pior dos casos, a GNR acorreu para fazer detonar (controladamente) uma caixa de preservativos ou uma garrafa de água mineral, esquecidas dentro de uma mochila. Ou então (cenário aterrador) o terrorismo internacional chegou finalmente à minha porta. Uma semana depois dos atentados de Atocha.

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