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terça-feira, março 09, 2004

Mentira, medo e alarmismo na rede 

A mentira é a mais elementar forma de manipulação; mentir aos outros é levá-los a uma situação de fragilidade, exercer sobre eles uma forma ilegítima e injusta de poder. Quando mentimos, empurramos os outros para um nível alheio à realidade, onde nada funciona como é suposto funcionar. A rede está cheia de mensagens que não apenas são mentiras objectivas mas exploram, da pior forma, a ingenuidade e a credulidade natural de qualquer transeunte. O SPAM traduz essa circulação cega e irreflectida de mensagens, não importa de quê, que incessantemente promovem a globalização do ruído e da irrelevância na net. As cadeias de mensagens, quase sempre com conteúdos capciosos ou abaixo de zero, quando não exercendo uma verdadeira chantagem emocional sobre o receptor, as estruturas em pirâmide e outras fórmulas de perder tempo e de manipular os outros, só têm sucesso porque uma legião de ingénuos, crédulos e inspirados, rendidos à doce vertigem de espalhar o bem pela rede, se deixam iludir pela mentira.
Nas inúmeras visitas que faço a um certo serviço do Hospital Garcia de Orta, num corredor sufocante do Piso 1, tenho visto afixado em painéis um cartaz bastante tosco com o rosto de uma criança. Uma mão trémula ou inapta rabiscou dois nomes e dois números de telefone, sob a palavra "pais". O leitor benévolo deixa-se enfeitiçar por aquele rosto infantil e lê obviamente o que não está lá explicitamente. A mensagem subliminar é que uma criança desapareceu e é procurada. Os números de telefone e os nomes dos pais vêm sob a foto, para o caso de haver quem possa ajudar. Eu já vi isto em qualquer sítio... Da última vez que lá estive, incomodado com a permanência daquele olhar resignado nas paredes do Hospital, registei todos os dados da folha. Percebi logo que algo estava mal: os algarismos dos números de telefone mal se podiam ler, de tão mal escritos. Um dos números só contava 8 dígitos, portanto inválido, e o outro começava com o indicativo "99"... que creio ser pura invenção. Bastaria ao benévolo agente que ali deixou os cartazes, lê-los com cuidado. Em casa resolvi averiguar e hoje pela manhã telefonei para o primeiro número: nada. Passei ao seguinte. Substitui o "99" por "91" e o número não estava atribuído. Repeti a operação para o "93" e o resultado foi igual. Depois digitei o mesmo número com o indicativo "96". Atendeu-me uma senhora que não correspondia aos nomes do cartaz. Mas curiosamente confirmou-me que os nomes que lhe referi coincidiam com o dos vizinhos do 2º andar. Um casal de reformados, naturalmente completamente alheio à sugestão capciosa da mensagem que eu tinha lido. Claro que não havia criança nenhuma, nenhum desaparecimento, nenhum apelo urgente. Agradeci e desliguei, para evitar maior alarme.
Há meses, a propósito de uma mensagem de email, que solicitava ajuda para encontrar uma criança desaparecida (alguma coisa causa mais alarme social?) aconteceu-me algo semelhante. A mensagem apontava para um cenário dramático. Criança desaparece em circunstâncias estranhas, os pais pedem ajuda aos cibernautas. Alguns pormenores e a foto da criança (que julgo ser a mesma do cartaz do Hospital... mas não posso garantir), ajudam a dar consistência à mensagem, a acentuar o dramatismo. Também telefonei para os números indicados. Atendeu uma senhora que me garantiu que o conteúdo era falso, apesar da foto ser da sua filha. Ou seja, a mensagem que me chegou e que outros terão recebido e reenviado numa gratuita cadeia de solidariedade um pouco tonta, era falsa. Eu diria que este tipo de atitudes, envolvendo nomes, números de telefone, fotografias de crianças, é particularmente nefasto e absolutamente condenável. Não sei se é crime espalhar o boato, criar alarmismo, manipular os outros na sua boa fé. Sei que constitui um revoltante atentado contra o bom nome e a imagem dos outros. Para evitar ser mais um "idiota útil", que ao mesmo tempo engana e é enganado, numa onda de ruído que aumenta o alarmismo e a frivolidade da comunicação na rede... basta ler e pensar um pouco. É tudo. É pedir muito?

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