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sexta-feira, março 26, 2004

Mentira, medo e alarmismo na rede (2) 

Uma categoria particularmente obscena das mensagens alarmistas que circulam na rede são as que exercem sobre o seu destinatário uma chantagem emocional demasiado óbvia. Tão óbvia e tão ingénua nos seus termos e na sua retórica baixa que a mensagem não merece senão ser ignorada. Recebi uma recentemente, mas o padrão é tão previsível e repetitivo que seguramente todos conhecem algumas dezenas de outras mensagens semelhantes. Só mudam os pormenores, tudo o resto é igual. Creio que é a atenção aos aspectos formais, ao padrão de repetição, que permite detectar os traços de um apelo onde não há espontaneidade nem autenticidade, apenas burla.
Vamos por pontos:
1. O tom, desde o início da mensagem, é de urgência. O seu 'autor' é delicado - pede por favor - mas na mesma frase (que frequentemente deve muito à gramática) podemos encontrar já o insulto e a grosseria. Basta ver este exemplo: "POR FAVOR MANDÁ ESTO, ME LO MANDARON DE CARITAS SI ANULA ESTO SINCERAMENTE NO TIENE UN CORAZON!!!!!!"
Ainda agora comecei a ler uma mensagem - efectivamente enviada por um desconhecido - e já estou em risco de "não ter coração" e passar por impiedoso. A referência à CARITAS daria credibilidade ao tema se não fosse uma mera alusão, soprada de início e já está... sem qualquer contacto que suporte a afirmação.
2. Depois vem a história, contada na terceira pessoa. Primeiro as boas notícias:
"Hola Soy Un padre de 29 de edad. Mi esposa y yo hemos tenido una vida maravillosa juntos. Dios nos bendijo demasiado con una niña. El nombre de nuestra hija es Raquel, y tiene 10 [años]."
Mas até nestas 'belas palavras' já vislumbramos a tragédia. Um pai jovem, uma esposa dedicada, uma familia unida, uma vida maravilhosa... mas no passado. Agora as más notícias.
3. "No hace mucho los doctores descubrieron cancer cerebral en su pequeño cuerpo. Hay solo una manera de preservar su funcionamiento. Nosotros no tenemos suficiente dinero para pagar el precio."
De facto nada podia ser mais brutal... e é este jogo com os sentimentos dos outros que torna estas brincadeiras particularmente abjectas. Mesmo sabendo que a mensagem não tem credibilidade (o que em todo o caso, para sermos completamente rigorosos, é um pouco diferente de afirmarmos que ela é falsa...), ninguém fica completamente indiferente à história. Todos nós conhecemos casos, na família, na vizinhança, no trabalho... sabemos que estes casos acontecem. A adesão emocional ao conteúdo da mensagem corre por conta da nossa capacidade da compaixão, ou da ingenuidade, que é uma fraqueza menos desculpável. O desafio é lançado: "Hay solo una manera..." , o que quer dizer, provavelmente, que depende muito de nós. Depois vem o argumento 'pecuniário', para tratarmos o assunto com luvas e com a possível correcção semãntica: "Nosotros no tenemos suficiente dinero ..." O que é que eu tenho que fazer, aqui agarrado, como já estou, ao teclado do meu computador, desejoso por ser útil numa tragédia destas?
4. "AOL Y ZDNET han estado de acuerdo en ayudarnos y la unica manera en que puede ayudarnos es esta: Nosotros le enviamos este E-Mail y usted se lo envia a sus conocidos y estos a su vez a sus demas conocidos, que AOL rastreara este E-Mail y por cada 3 personas que reciban este mensaje aproximadamente, AOL nos donara 32 centavos, ayundenos por favor!!!"
Portanto nada mais simples, ir à lista de contactos e mandar a mensagem a toda a gente que eu conheça, e esses, por sua vez, devem proceder do mesmo modo, e assim sucessivamente, até... quando? Quando é que esta campanha de bons sentimentos deve ser detida? E quando começou? Nada disto é dito o que significa que, se não for levada na conta do que é efectivamente - uma brincadeira de mau gosto - eu vou receber esta mensagem dos meus amigos e conhecidos durante mais tempo do que a paciência permite. Mas se formos um pouco mais longe, se lermos a mensagem nos seus conteúdos e não apenas no seu padrão formal, ficamos perplexos (eu fico, sinceramente) com estes mecanismos de caridade. De que modo a minha adesão à campanha aproveita a duas grandes empresas do universo da Internet? Seguramente que estas não ganharão em visibilidade na net por se associar a uma iniciativa de resultados tão duvidosos. Grandes empresas não arriscam em políticas avulsas e empíricas de caridadezinha, como é o caso desta paródia dos bons sentimentos. O seu carácter pontual foge à racionalidade de gestão destes gigantes da rede e a ser levado a sério desencadearia uma avalanche de pedidos de ajuda, cada um mais lamentoso e trágico que os anteriores.
5. E sempre este tom de tragédia familiar, à beira da chantagem: "2 minutos de su tiempo le pueden salvar la vida a mi hija." Aqui estamos no âmbito da pura retórica que não dá espaço para qualquer recuo. O meu tempo bem pouco é se comparado com a vida de uma criança. Ora a sua vida parece que depende do meu gesto... etc.
6. "Mandalo a todo el mundo!!!!!!!!"
Nada menos do que isto. Eu já dei para este peditório. Da minha parte vou mandá-lo para o lixo e não se fala mais disso.
7. Falta dizer que esta mensagem chegou com uma dúzia de imagens de um mau gosto antológico. Quem sabe se o verdadeiro móbil não terá sido divulgar a obra gráfica de um artista que encontrou na chantagem barata uma forma de promoção individual? A melancolia do por do sol, amantes desenhados nas nuvens e nos oceanos em abraços e beijos qe parecem variar entre o instante e a eternidade, a natureza amando-se a si mesma... enfim. Por outro lado, que nexo devemos ver entre estas imagens e o apelo angustioso da mensagem? Não vale a pena perder mais tempo.
8. A mensagem termina com um endereço postal da Argentina. Quantos dos colaboradores anónimos desta campanha, de todas as campanhas semelhantes da net, se deram ao trabalho de confirmar a autenticidade da mensagem?

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