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quinta-feira, março 04, 2004

Indícios de Ouro, do poeta no seu labirinto 

Há muitos anos vi, como muitos, o filme de João Botelho. Filme de estreia: Conversa Acabada, com Jorge Silva Melo a fazer de pivot de uma conversa diferida no tempo, a passo de bilhetes e telegramas, entre Fernando Pessoa, em Lisboa, e Mário de Sá-Carneiro, em Paris, no seu labirinto. Um filme depurado, uma mesa longa cheia de livros, alguns poemas e uma longa conversa entre amigos distantes que caminha para a sua finalização com um suicídio anunciado. Poucos anos depois, encontrei em Alfama, numa apoteótica noite de Santo António, descendo por uma rua apinhada de gente, anónimo, o próprio Mário de Sá-Carneiro com a sua postura imperial de príncipe do Oriente.
Há dias tive de ler os Indícios de Ouro, a segunda colectânea (já póstuma) de Mário de Sá-Carneiro. Foi uma leitura inesperada, precedida por uma larga introdução e estudo de Maria Ema Tarracha Ferreitra. Demorei-me na belíssima nota biográfica que a autora construiu sobre o poeta. Passei depois aos poemas. O livrinho é da excelente Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses.
Dispersão foi a primeira colectânea, publicada ainda em vida de Mário de Sá-Carmeiro, em 1913. Indícios de Ouro, teria de esperar até 1937 para ver a luz do dia.
Indícios de Ouro é composto por 38 poemas desiguais, datados entre 1913 e 1916. O predomínio da quadra, mas com grande variedade métrica, é óbvio. A colectãnea parece consagrar uma aliança entre a estrofe popular e o verso culto. Escreve a apresentadora dos poemas que Indícios de Ouro são o desenvolvimento programático da primeira colectânea, Dispersão.
Segundo Maria Ema Tarracha Ferreira, nesta colectânea manifesta-se uma "cisão psíquica - o eu ideal ou transcendente em conflito com o eu real ou existencial -, resultante do progressivo envolvimento da realidade exterior, que [provoca] a dispersão do eu em tudo o que o rodeia."
Não conhecia a poesia de Mário de Sá-Carneiro e a sua poesia deu-me vontade de tentar os seus contos, a prosa. Já Fiz esta pergunta a propósito da morte prematura de outro poeta: como seria a poesia de Sá-Carneiro se o poeta não tivesse acertado na dose de veneno?
Deixo aqui um poema datado de 28 de Junho de 1914, Paris:

APOTEOSE

Mastros quebrados, singro num mar de Oiro
Dormindo fogo, incerto, longamente...
Tudo se me igualou, num sonho rente,
E em metade de mim hoje só moro...


São tristezas de bronze as que inda choro -
Pilastras mortas, mármores ao Poente...
Lajearam-se-me as ânsias brancamente
Por claustros falsos onde nunca oro...


Desci de mim. Dobrei o manto de Astro,
Quebrei a taça de cristal e espanto,
Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...


Findei... Horas-Platina... Olor-brocado...
Luar-ânsia... Luz-perdão... Orquídeas-pranto...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
- Ó pântanos de Mim - jardim estagnado!...


E esta pequena quadra admirável (datada de Outubro de 1914, Camarate) , que tal como o título indica, não nos assoma a mais que um breve vislumbre:

VISLUMBRE

A horas flébeis, outonais -
Por magoados fins de dia -
A minha Alma é água fria
Em ânforas de Oiro... entre cristais...


E este poema (Lisboa, 14 de Fevereiro de 1915) que nos lembra o Oriente, muito apreciado por Pessoa, autor do Opiário:

ANTO

Caprichos de lilás, febres esguias,
Enlevos de Ópio - Íris-abandono...
Saudades de luar, timbre de Outono,
Cristal de essências langues, fugidias...


O pajem débil das ternuras de cetim,
O friorento das carícias magoadas;
O princípe das Ilhas transtornadas -
Senhor feudal das Torres de marfins...


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