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terça-feira, março 23, 2004

Der Theatermacher ou seja O Fazedor de Teatro 

O Departamento de Filosofia da JB (ou seja o Manuel Pacífico & Cª) leva todos os anos até à sala do teatro de Almada algumas dezenas de alunos. Desta vez calhou uma peça singular de um autor não menos exótico; O Fazedor de Teatro de Thomas Bernhard.
No dia 10 deste mês o Pacífico passou aqui por casa pelas 21.00. Meia hora depois estávamos com os alunos, uma vintena, e com a Bibiana e a Isabel Vidreiro junto ao teatro. A entrada, como sempre, foi atribulada e demorou mais do que o esperado. Na sala de entrada, onde as exposições circundam algumas mesas de café, por entre uma multidão entusiástica (o que dá sair á noite), comprei um opúsculo da Companhia: Textos d'Almada/ nº 20 - Janeiro de 2004, referido como "a propósito da estreia de O Fazedor de Teatro de Thomas Bernhard".
Nos dois dias seguintes li com imenso agrado os textos do caderno, que me permitiram situar a peça e a obra provocadora do autor austríaco. Exemplos: "A denúncia do absurdo", de José A. Palma Caetano, "Thomas Bernhard: retrato do autor como artista do exagero", de Wendelin Schmidt-Dengler, "O Presumível cadáver, o presumível enterro (entrevista)", de André Muller e "Nazis na sopa de Bernhard: o Bernhard político revisitado", de Jeanette Malkin, para além de outros e de uma utilíssima cronologia sobre o autor.
O trabalho do grupo de Teatro de Almada e do seu encenador, Joaquim Benite, é um exemplo de excelência com poucos meios. Não vamos já falar desse milagre que é o Festival de Teatro... mas se olharmos para a temporada de 2004 encontramos um bom conjunto de produções, apoiadas e complementadas por um trabalho de promoção do teatro junto das escolas e do público mais jovem. O meu entusiasmo com a peça de Thomas Bernhard não se esgotou nas quase três horas de teatro, continuou nos dias seguintes com a leitura dos artigos e dos ensaios do caderno. Ao prazer imenso da representação, juntei nos dias seguintes o prazer da leitura: descobrir um autor também a partir do que dizem ou disseram dele, das incidências da sua vida, dos sobressaltos da obra, do mau humor e do ódio à sua Áústria, que é para todos nós um exemplo de como se pode detestar como forma de arte.
A peça de Thomas Bernhard - O Fazedor de Teatro - repousa inteiramente sobre a interpretação de um artista fracassado, que faz uma penosa itinerância pela província onde a sua arte parece sistematicamente hostilizada pelas circunstâncias adversas. Um homem que se crê um génio incompreendido, arrastando a família de lugar em lugar, representando a sua peça para audiências ignorantes, ensaiando os pormenores até à exaustão na busca de uma perfeição impossível, e recordando sempre a actuação anterior. E a luz de emergência, e a massa frita, os porcos e as pocilgas, o dia da morcela, o retrato de Hitler, o ensaio do pano. O artista, que não dá espaço aos que contracenam com ele, ocupa todo o tempo e toda a cena com o seu monólogo. Sempre amargurado ou cáustico, quando fala com o dono da hospedaria, cruel ou vagamente terno quando fala com os filhos ou quando se refere à mulher, sempre à espera de um milagre que faça despertar nos outros o gosto da arte, mas não acreditando já sinceramente nisso. Bruscon, o grande autor, numa passagem que parece retomar o tema do fingimento de Pessoa, diz para si mesmo e para os outros:

"O escritor é fingido
os intérpretes são fingidos
e os espetactadores também são fingidos
e tudo junto é um único absurdo
já para não dizer
que se trata de uma perversidade
que tem já milhares de anos
o teatro é uma perversidade com milhares de anos
pela qual a humanidade é doida
e é tão doida por ela
porque é doida pelo seu fingimento
e em parte nenhuma desta humanidade
o fingimento é maior e mais fascinante
que no teatro."


Fala de Bruscon em O Fazedor de Teatro, Thomas Bernhard (trad. José António Palma Caetano)

A interpretação ofegante, ritmada, quase sem silêncios, de Morais e Castro dá dignidade, consistência e credibilidade ao complexo personagem de Bruscon. O monólogo de permanente ressentimento, que caustica afinal a própria realidade por ser como é, e por não dar um lugar à arte, à sua arte definitiva, concede apenas por vezes à divagação lírica e à ternura. Mas quando isso acontece, falando para os filhos (dois anti-talentos...) e para a mulher, que não diz uma palavra em toda a peça, é verdadeiramente comovente.
A peça decorre inteiramente na sala da estalagem onde, à noite, terá lugar a representação teatral. Mas no final, nos derradeiros instantes que precedem o início da actuação, nós somos já o seu único público. Quando olhamos para Bruscon que nos lança um olhar de desalento, rendido ao seu auditório mediocre, esse público inventado já somos nós, um instante antes de sairmos da sala. A tempestade cai sobre o lugar de Utzbach e um raio incendia a igreja. O público inventado corre para a rua e deixa a sala vazia. Bruscon compreende que perdeu e que a arte, a sua arte, provavelmente não é mais que puro fingimento, ou menos que isso.

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