<$BlogRSDURL$>

quarta-feira, março 24, 2004

Clique aqui, se faz favor! 

Ou aqui, que dá no mesmo. O dispositivo é uma criação da Microsoft para aplicar em programas interactivos. Depois da geração do clip, do puzzle, do cão ou do gatinho que ronrona, inventa-se uma figura colaborante e disponível que assiste ao utilizador durante as horas forçadas de trabalho. Os especialistas afirmam que dispositivos interactivos facilitam o cumprimento de tarefas específicas e aumentam a capacidade de trabalho. Por isso, aqui fica a Gabriela, que terá certamente uma palavra simpática nos momentos mais penosos, a meio da noite... a qualquer hora. De facto este link só permite aceder a um demo de funções limitadas.
Proceda do seguinte modo: (1) clique aqui ou em qualquer parte deste post que apresente este sinal de ligação a um sítio; (2) espere e deixe carregar o mini-programa; (3) quando entrar na demo pode xingar a Gabriela, a nossa assistente brasileira, passeando o cursor sobre o quadro (veja o que sucede); (4) escolha o dioma que mais lhe convém, no caso, presumo que deve ser o idioma 'portuguese', sob risco de não se perceber nada; (5) escreva uma frase no campo da direita ("Olá, tudo bem?" ou "Só agora? Tava aqui te esperando...") - repare que, de acordo com a pontuação que utilizar a Gabriela fala com entoação - e faça enter; (6) para uma utilização mais erudita deste brinquedo pode selecionar/ copiar/ colar e enter(ar) as frases que lhe vou disponibilizar de seguida; (7) Enfim, utilizando a Gabriela com a devida ponderação pode brincar com as crianças (elas adoram estes jogos ingénuos, mas nesse caso evite linguagem obscena), surpreender um amigo que chega a sua casa dando-lhe as boas vindas ou ouvir um poema breve com sotaque.

Aqui vão algumas sugestões:
basta selecionar uma das frases seguintes com o cursor, clicar com a tecla da direita em copiar, ir ao link e colocar de novo o cursor no campo, clicar com a tecla da direita em colar e finalmente enter... a Gabriela precisa de alguns segundos para assimilar o texto, depois sorri delicadamente (mas eu já lhe surpreendi um esgar malicioso) e após alguns instantes de sedução ela fala.. e como fala a Gabriela!

"As armas e os barões assinalados que, da Ocidental praia lusitana, por mares nunca dantes navegados passaram ainda além da Taprobana, e em perigos e guerras esforçados mais do que prometia a força humana, e entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram." - do nosso épico, o mestre zarolho, o Luís Vaz.
"Minha cabeça estremece com todo o esquecimento. Eu procuro dizer como tudo é outra coisa. Falo, penso. Sonho sobre os tremendos ossos dos pés. É sempre outra coisa, uma só coisa coberta de nomes. E a morte passa de boca em boca com a leve saliva. com o terror que há sempre no fundo informulado de uma vida."- do grande poeta órfico Herberto Helder, que faz os possíveis para ser um grande poeta obscuro.
"Gosto que pulse e cante em minhas veias sangue de rudes gerações plebeias... Nenhum senhor de elmo emplumado e lança, nenhum herói de guerra e de matança, entre os que foram meus Avós, deslumbra com brasões e troféus, minha humilde penumbra... Apenas vontades claras e obscuras penas." - do nosso João de Barros (não esse em que está a pensar, o outro, o nosso).
"No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra." - do grande Carlos Drummond de Andrade, poeta de metro seco e directo.
"Eu vi a luz em um país perdido. A minha alma é lânguida e inerme. Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído! No chão sumir-se, como faz um verme..." - do Camilo Pessanha, poeta da Clepsidra e que tem aqui um dos mais belos versos da poesia portuguesa dos últimos 10.000 anos... "Eu vi a luz em um país perdido."
"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, e a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer."- de Alberto Caeiro, o grande mestre de Fernando Pessoa, ou estarei a confundir as influências... tantas são as personagens que se acotovelam no universo pessoano?!
"No meu país não acontece nada, à terra vai-se pela estrada em frente, Novembro é quanta cor o céu consente às casas com que o frio abre a praça. Dezembro vibra vidros, brande as folhas, a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal que o mais zeloso varredor municipal. Mas que fazer de toda esta cor azul que cobre os campos neste meu país do sul?" - do melancólico Ruy Belo, que foi em tempos o meu poeta em exclusividade.
"Ó Portugal, se fosses só três sílabas, linda vista para o mar, Minho verde, Algarve de cal, jerico rapando o espinhaço da terra, surdo e miudinho, moinho a braços com um vento testarudo, mas embolado e, afinal, amigo, se fosses só o sal, o sol, o sul, o ladino pardal, o manso boi coloquial, a rechinante sardinha, a desancada varina, o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos, a muda queixa amendoada duns olhos pestanítidos, se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos, o ferugento cão asmático das praias, o grilo engaiolado, a grila no lábio, o calendário na parede, o emblema na lapela, ó Portugal, se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato!"- do enorme e excessivamente humano Alexandre O'Neil, um poeta que não mereceu o país em que viveu.

Para acabar, depois de selecionar e copiar/ colar o que segue, escolha Spanish e no enter:
"En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor. Una olla de algo más de vaca que carnero, salpicón las mas noches, duelos e quebrantos los sábados, lentejas los viernes, y algún palomino de añadidura los domingos, consumían las tres partes de su hacienda." - do Miguel de Cervantes Saavedra, que em 2005 vai comemorar os 400 anos da publicação do D. Quixote.

Que me perdoem os poetas que não figuram nesta lista exclusiva. A Gabriela pediu-me para parar, que já chega de literatura. "Já chega de papo furado!", disse-me ela.