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segunda-feira, março 29, 2004

Smoking/ No Smoking... o difícil é não escolher! 

A partir de hoje, na católica Irlanda, como se costuma dizer com um grão de ironia, é proibido fumar em locais públicos fechados. A Noruega é o país que se segue. Em Portugal também se anunciam medidas semelhantes, incluídos os locais de trabalho. Escrevo este post enquanto ouço na TSF um fórum sobre esta onda proibicionista.
Lembro-me de dois filmes de Alain Resnais, de 1993: Smoking/No Smoking, com Sabine Azema e Pierre Arditi. São duas variações com o mesmo elenco e derivadas de duas situações contrárias: em Smoking o personagem fuma e esse facto determina o seu futuro e, naturalmente, o enredo do filme; em No Smoking o personagem não fuma e as consequências são divergentes do enredo anterior. Nunca vi nenhum deles, até porque teria dificuldade em decidir-me sobre qual ver primeiro... mas não creio que Resnais se preocupasse excessivamente com as batalhas antitabagistas e suas vicissitudes.



Um pouco por acaso, folheando a Única do Expresso, tropecei numa crónica de Clara Ferreira Alves. Um texto suculento da Pluma Caprichosa, no seu registo habitual de uma poderosa ironia eléctrica. "O Pecado do fumador" é o título e a dado passo Clara Ferreira Alves escreve esta naco de prosa admirável: "Eu sempre achei a Califórnia um lugar chato e asséptico onde o sol brilha demais e a pele e os músculos também. É do óleo. Demasiado loiros, "liftings", loiras e larica. Na Califórnia ninguém come e ninguém fuma, todos correm, levantam pesos, têm nutricionistas e dieticistas, "personal trainers", "personal assistants" e um grande futuro ou um grande passado pela frente."
Eu não sei se sou fumador/ não fumador, porque penso que é difícil aplicar categorias empíricas a situações da vida que escapam pertinazmente a classificações simplistas. Também não sei a partir de quem ponto alguém é fumador ou não fumador. Mas também sei que algumas pessoas estão visivelmente viciadas no fumo, a ponto de não conseguirem estar muitas horas sem fumar numa situação social. Não há dúvida de que o consumo compulsivo de tabaco pode ser muito prejudicial, quer para o próprio quer para quem convive com 'fumadores'. Também não tenho dúvidas sobre a prioridade absoluta a dar à saúde e à promoção de hábitos saudáveis, mesmo à custa da perda de alguma liberdade individual.
O que me cansa, o que me enerva é o espírito de cruzada que sustenta frequentemente as posições crispadas dos proibicionistas. A pulsão autoritária que se revela na propensão para diabolizar os outros - seja a antinomia 'fumador'/ 'não fumador' ou outra que esteja de moda no momento - já é outra questão e pelo menos tão grave como as questões de saúde levantadas pelo consumo compulsivo de tabaco.
Vivemos um tempo de refluxo das liberdades individuais e não deixa de ser um sinal do tempo medíocre que nos é dado viver o facto deste alarme vir de um debate desta natureza. O estado, que capitalizou em impostos com a promoção do consumo do tabaco, em épocas mais liberais e permissivas, legisla agora contra os consumidores individuais. Não tenhamos ilusões; a onda proibicionista acabará por prevalecer e estender-se para lá dos recintos fechados. E depois de terminado este embate, qual é a causa que se segue? O abuso da cafeína? O consumo de álcool na presença de crianças? A literatura libertina? A pornografia?
Acredito que o determinismo cultural das campanhas antitabagistas, o espírito de cruzada de moda que anima o debate, acaba sempre por esconder o essencial: que o consumo de tabaco quase sempre é causa de problemas de saúde, que a longo prazo provoca problemas graves e envelhecimento precoce e que é necessário tomar medidas para diminuir o consumo. Mas encarniçar o debate e hostilizar os fumadores, como se 'eles' pertencessem a uma subespécie, a uma degeneração genética da espécie humana, não leva a lado nenhum.
Interessa-me mais reflectir acerca da prática social do consumo de tabaco entre os alunos da JB, e das medidas que nós dizemos que vamos tomar e despois deixamos cair. Aqui não transijo e sou definitivamente proibicionista, desde que a questão seja tratada com inteligência e não exclusivamente com regras abstractas.
Sei que a questão do tabagismo regressou recentemente à ordem do dia na João de Barros. Tanto quanto sei a discussão e o escândalo não resultam directamente da constatação do consumo de tabaco pelos alunos, que é diária, para quem circula entre pavilhões, mas de um impreciso abuso do consumo, em locais menos próprios, por parte dos professores. O debate frequentemente é desencadeado entre o pessoal docente, deixando de lado o problema principal que é o consumo impune de tabaco na escola por parte de alunos. Mas quem se interessa, de forma consistente e esclarecida, com esse problema? Não basta perorar sobre o assunto e pedir piedosamente a todos que se envolvam. Isso não resulta. É preciso começar por pensar um pouco, - o que não tem sido feito -, equacionar estrategicamente as soluções viáveis para o problema. E agir, com determinação mas sem simplismos. É isto que me preocupa. Não o folclore das causas de moda, cujos militantes quase sempre me deixam com uma suspeita não resolvida acerca da autenticidade das suas motivações.

sábado, março 27, 2004

Passa a Palavra... em Corroios 

É um projecto do SABE (Serviço de Apoio às Bibliotecas Escolares), apoiado pela Fundação Gulbenkian e começou a rodar esta tarde na Biblioteca de Corroios. Fui lá fazer uns bonecos. Para mais pormenores visitar este sítio, ok?

sexta-feira, março 26, 2004

Mentira, medo e alarmismo na rede (2) 

Uma categoria particularmente obscena das mensagens alarmistas que circulam na rede são as que exercem sobre o seu destinatário uma chantagem emocional demasiado óbvia. Tão óbvia e tão ingénua nos seus termos e na sua retórica baixa que a mensagem não merece senão ser ignorada. Recebi uma recentemente, mas o padrão é tão previsível e repetitivo que seguramente todos conhecem algumas dezenas de outras mensagens semelhantes. Só mudam os pormenores, tudo o resto é igual. Creio que é a atenção aos aspectos formais, ao padrão de repetição, que permite detectar os traços de um apelo onde não há espontaneidade nem autenticidade, apenas burla.
Vamos por pontos:
1. O tom, desde o início da mensagem, é de urgência. O seu 'autor' é delicado - pede por favor - mas na mesma frase (que frequentemente deve muito à gramática) podemos encontrar já o insulto e a grosseria. Basta ver este exemplo: "POR FAVOR MANDÁ ESTO, ME LO MANDARON DE CARITAS SI ANULA ESTO SINCERAMENTE NO TIENE UN CORAZON!!!!!!"
Ainda agora comecei a ler uma mensagem - efectivamente enviada por um desconhecido - e já estou em risco de "não ter coração" e passar por impiedoso. A referência à CARITAS daria credibilidade ao tema se não fosse uma mera alusão, soprada de início e já está... sem qualquer contacto que suporte a afirmação.
2. Depois vem a história, contada na terceira pessoa. Primeiro as boas notícias:
"Hola Soy Un padre de 29 de edad. Mi esposa y yo hemos tenido una vida maravillosa juntos. Dios nos bendijo demasiado con una niña. El nombre de nuestra hija es Raquel, y tiene 10 [años]."
Mas até nestas 'belas palavras' já vislumbramos a tragédia. Um pai jovem, uma esposa dedicada, uma familia unida, uma vida maravilhosa... mas no passado. Agora as más notícias.
3. "No hace mucho los doctores descubrieron cancer cerebral en su pequeño cuerpo. Hay solo una manera de preservar su funcionamiento. Nosotros no tenemos suficiente dinero para pagar el precio."
De facto nada podia ser mais brutal... e é este jogo com os sentimentos dos outros que torna estas brincadeiras particularmente abjectas. Mesmo sabendo que a mensagem não tem credibilidade (o que em todo o caso, para sermos completamente rigorosos, é um pouco diferente de afirmarmos que ela é falsa...), ninguém fica completamente indiferente à história. Todos nós conhecemos casos, na família, na vizinhança, no trabalho... sabemos que estes casos acontecem. A adesão emocional ao conteúdo da mensagem corre por conta da nossa capacidade da compaixão, ou da ingenuidade, que é uma fraqueza menos desculpável. O desafio é lançado: "Hay solo una manera..." , o que quer dizer, provavelmente, que depende muito de nós. Depois vem o argumento 'pecuniário', para tratarmos o assunto com luvas e com a possível correcção semãntica: "Nosotros no tenemos suficiente dinero ..." O que é que eu tenho que fazer, aqui agarrado, como já estou, ao teclado do meu computador, desejoso por ser útil numa tragédia destas?
4. "AOL Y ZDNET han estado de acuerdo en ayudarnos y la unica manera en que puede ayudarnos es esta: Nosotros le enviamos este E-Mail y usted se lo envia a sus conocidos y estos a su vez a sus demas conocidos, que AOL rastreara este E-Mail y por cada 3 personas que reciban este mensaje aproximadamente, AOL nos donara 32 centavos, ayundenos por favor!!!"
Portanto nada mais simples, ir à lista de contactos e mandar a mensagem a toda a gente que eu conheça, e esses, por sua vez, devem proceder do mesmo modo, e assim sucessivamente, até... quando? Quando é que esta campanha de bons sentimentos deve ser detida? E quando começou? Nada disto é dito o que significa que, se não for levada na conta do que é efectivamente - uma brincadeira de mau gosto - eu vou receber esta mensagem dos meus amigos e conhecidos durante mais tempo do que a paciência permite. Mas se formos um pouco mais longe, se lermos a mensagem nos seus conteúdos e não apenas no seu padrão formal, ficamos perplexos (eu fico, sinceramente) com estes mecanismos de caridade. De que modo a minha adesão à campanha aproveita a duas grandes empresas do universo da Internet? Seguramente que estas não ganharão em visibilidade na net por se associar a uma iniciativa de resultados tão duvidosos. Grandes empresas não arriscam em políticas avulsas e empíricas de caridadezinha, como é o caso desta paródia dos bons sentimentos. O seu carácter pontual foge à racionalidade de gestão destes gigantes da rede e a ser levado a sério desencadearia uma avalanche de pedidos de ajuda, cada um mais lamentoso e trágico que os anteriores.
5. E sempre este tom de tragédia familiar, à beira da chantagem: "2 minutos de su tiempo le pueden salvar la vida a mi hija." Aqui estamos no âmbito da pura retórica que não dá espaço para qualquer recuo. O meu tempo bem pouco é se comparado com a vida de uma criança. Ora a sua vida parece que depende do meu gesto... etc.
6. "Mandalo a todo el mundo!!!!!!!!"
Nada menos do que isto. Eu já dei para este peditório. Da minha parte vou mandá-lo para o lixo e não se fala mais disso.
7. Falta dizer que esta mensagem chegou com uma dúzia de imagens de um mau gosto antológico. Quem sabe se o verdadeiro móbil não terá sido divulgar a obra gráfica de um artista que encontrou na chantagem barata uma forma de promoção individual? A melancolia do por do sol, amantes desenhados nas nuvens e nos oceanos em abraços e beijos qe parecem variar entre o instante e a eternidade, a natureza amando-se a si mesma... enfim. Por outro lado, que nexo devemos ver entre estas imagens e o apelo angustioso da mensagem? Não vale a pena perder mais tempo.
8. A mensagem termina com um endereço postal da Argentina. Quantos dos colaboradores anónimos desta campanha, de todas as campanhas semelhantes da net, se deram ao trabalho de confirmar a autenticidade da mensagem?

quarta-feira, março 24, 2004

Clique aqui, se faz favor! 

Ou aqui, que dá no mesmo. O dispositivo é uma criação da Microsoft para aplicar em programas interactivos. Depois da geração do clip, do puzzle, do cão ou do gatinho que ronrona, inventa-se uma figura colaborante e disponível que assiste ao utilizador durante as horas forçadas de trabalho. Os especialistas afirmam que dispositivos interactivos facilitam o cumprimento de tarefas específicas e aumentam a capacidade de trabalho. Por isso, aqui fica a Gabriela, que terá certamente uma palavra simpática nos momentos mais penosos, a meio da noite... a qualquer hora. De facto este link só permite aceder a um demo de funções limitadas.
Proceda do seguinte modo: (1) clique aqui ou em qualquer parte deste post que apresente este sinal de ligação a um sítio; (2) espere e deixe carregar o mini-programa; (3) quando entrar na demo pode xingar a Gabriela, a nossa assistente brasileira, passeando o cursor sobre o quadro (veja o que sucede); (4) escolha o dioma que mais lhe convém, no caso, presumo que deve ser o idioma 'portuguese', sob risco de não se perceber nada; (5) escreva uma frase no campo da direita ("Olá, tudo bem?" ou "Só agora? Tava aqui te esperando...") - repare que, de acordo com a pontuação que utilizar a Gabriela fala com entoação - e faça enter; (6) para uma utilização mais erudita deste brinquedo pode selecionar/ copiar/ colar e enter(ar) as frases que lhe vou disponibilizar de seguida; (7) Enfim, utilizando a Gabriela com a devida ponderação pode brincar com as crianças (elas adoram estes jogos ingénuos, mas nesse caso evite linguagem obscena), surpreender um amigo que chega a sua casa dando-lhe as boas vindas ou ouvir um poema breve com sotaque.

Aqui vão algumas sugestões:
basta selecionar uma das frases seguintes com o cursor, clicar com a tecla da direita em copiar, ir ao link e colocar de novo o cursor no campo, clicar com a tecla da direita em colar e finalmente enter... a Gabriela precisa de alguns segundos para assimilar o texto, depois sorri delicadamente (mas eu já lhe surpreendi um esgar malicioso) e após alguns instantes de sedução ela fala.. e como fala a Gabriela!

"As armas e os barões assinalados que, da Ocidental praia lusitana, por mares nunca dantes navegados passaram ainda além da Taprobana, e em perigos e guerras esforçados mais do que prometia a força humana, e entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram." - do nosso épico, o mestre zarolho, o Luís Vaz.
"Minha cabeça estremece com todo o esquecimento. Eu procuro dizer como tudo é outra coisa. Falo, penso. Sonho sobre os tremendos ossos dos pés. É sempre outra coisa, uma só coisa coberta de nomes. E a morte passa de boca em boca com a leve saliva. com o terror que há sempre no fundo informulado de uma vida."- do grande poeta órfico Herberto Helder, que faz os possíveis para ser um grande poeta obscuro.
"Gosto que pulse e cante em minhas veias sangue de rudes gerações plebeias... Nenhum senhor de elmo emplumado e lança, nenhum herói de guerra e de matança, entre os que foram meus Avós, deslumbra com brasões e troféus, minha humilde penumbra... Apenas vontades claras e obscuras penas." - do nosso João de Barros (não esse em que está a pensar, o outro, o nosso).
"No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra." - do grande Carlos Drummond de Andrade, poeta de metro seco e directo.
"Eu vi a luz em um país perdido. A minha alma é lânguida e inerme. Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído! No chão sumir-se, como faz um verme..." - do Camilo Pessanha, poeta da Clepsidra e que tem aqui um dos mais belos versos da poesia portuguesa dos últimos 10.000 anos... "Eu vi a luz em um país perdido."
"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, e a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer."- de Alberto Caeiro, o grande mestre de Fernando Pessoa, ou estarei a confundir as influências... tantas são as personagens que se acotovelam no universo pessoano?!
"No meu país não acontece nada, à terra vai-se pela estrada em frente, Novembro é quanta cor o céu consente às casas com que o frio abre a praça. Dezembro vibra vidros, brande as folhas, a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal que o mais zeloso varredor municipal. Mas que fazer de toda esta cor azul que cobre os campos neste meu país do sul?" - do melancólico Ruy Belo, que foi em tempos o meu poeta em exclusividade.
"Ó Portugal, se fosses só três sílabas, linda vista para o mar, Minho verde, Algarve de cal, jerico rapando o espinhaço da terra, surdo e miudinho, moinho a braços com um vento testarudo, mas embolado e, afinal, amigo, se fosses só o sal, o sol, o sul, o ladino pardal, o manso boi coloquial, a rechinante sardinha, a desancada varina, o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos, a muda queixa amendoada duns olhos pestanítidos, se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos, o ferugento cão asmático das praias, o grilo engaiolado, a grila no lábio, o calendário na parede, o emblema na lapela, ó Portugal, se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato!"- do enorme e excessivamente humano Alexandre O'Neil, um poeta que não mereceu o país em que viveu.

Para acabar, depois de selecionar e copiar/ colar o que segue, escolha Spanish e no enter:
"En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor. Una olla de algo más de vaca que carnero, salpicón las mas noches, duelos e quebrantos los sábados, lentejas los viernes, y algún palomino de añadidura los domingos, consumían las tres partes de su hacienda." - do Miguel de Cervantes Saavedra, que em 2005 vai comemorar os 400 anos da publicação do D. Quixote.

Que me perdoem os poetas que não figuram nesta lista exclusiva. A Gabriela pediu-me para parar, que já chega de literatura. "Já chega de papo furado!", disse-me ela.

terça-feira, março 23, 2004

F. P. volta a atacar!... 

Falamos de tudo, porque de acordo com o método caótico de que nos servimos, qualquer assunto ou tema está, de algum modo, ligado a todos os outros sob uma perspectiva minimamente estimulante. Hoje falámos do POUM e de Semprum, de Sousa Mendes e da alegria revolucionária, de Casannova e de La Nuit de Varennes de Ettore Scola, de Ceausescu e das inquisições, de Honnecher e das epopeias da paz que ninguém escreve. Falámos do PC e da clandestinidade, da apostasia e de Spengler, da piedade e dos sátrapas, de Gabriel Jackson e da Guerra Civil de Espanha. Falámos da escola (como sempre mal...), dos 30 anos do 25 de Abril e da comunidade judia, de escritores fascistas e de Stefan Zweig. Deixou-me dois livros de Carl Sagan, ambos com a chancela da Gradiva: O Cérebro de Broca e Os Dragões do Éden. Ficámos de voltar a tudo o que ficou por dizer, como sempre, noutra visita.

Der Theatermacher ou seja O Fazedor de Teatro 

O Departamento de Filosofia da JB (ou seja o Manuel Pacífico & Cª) leva todos os anos até à sala do teatro de Almada algumas dezenas de alunos. Desta vez calhou uma peça singular de um autor não menos exótico; O Fazedor de Teatro de Thomas Bernhard.
No dia 10 deste mês o Pacífico passou aqui por casa pelas 21.00. Meia hora depois estávamos com os alunos, uma vintena, e com a Bibiana e a Isabel Vidreiro junto ao teatro. A entrada, como sempre, foi atribulada e demorou mais do que o esperado. Na sala de entrada, onde as exposições circundam algumas mesas de café, por entre uma multidão entusiástica (o que dá sair á noite), comprei um opúsculo da Companhia: Textos d'Almada/ nº 20 - Janeiro de 2004, referido como "a propósito da estreia de O Fazedor de Teatro de Thomas Bernhard".
Nos dois dias seguintes li com imenso agrado os textos do caderno, que me permitiram situar a peça e a obra provocadora do autor austríaco. Exemplos: "A denúncia do absurdo", de José A. Palma Caetano, "Thomas Bernhard: retrato do autor como artista do exagero", de Wendelin Schmidt-Dengler, "O Presumível cadáver, o presumível enterro (entrevista)", de André Muller e "Nazis na sopa de Bernhard: o Bernhard político revisitado", de Jeanette Malkin, para além de outros e de uma utilíssima cronologia sobre o autor.
O trabalho do grupo de Teatro de Almada e do seu encenador, Joaquim Benite, é um exemplo de excelência com poucos meios. Não vamos já falar desse milagre que é o Festival de Teatro... mas se olharmos para a temporada de 2004 encontramos um bom conjunto de produções, apoiadas e complementadas por um trabalho de promoção do teatro junto das escolas e do público mais jovem. O meu entusiasmo com a peça de Thomas Bernhard não se esgotou nas quase três horas de teatro, continuou nos dias seguintes com a leitura dos artigos e dos ensaios do caderno. Ao prazer imenso da representação, juntei nos dias seguintes o prazer da leitura: descobrir um autor também a partir do que dizem ou disseram dele, das incidências da sua vida, dos sobressaltos da obra, do mau humor e do ódio à sua Áústria, que é para todos nós um exemplo de como se pode detestar como forma de arte.
A peça de Thomas Bernhard - O Fazedor de Teatro - repousa inteiramente sobre a interpretação de um artista fracassado, que faz uma penosa itinerância pela província onde a sua arte parece sistematicamente hostilizada pelas circunstâncias adversas. Um homem que se crê um génio incompreendido, arrastando a família de lugar em lugar, representando a sua peça para audiências ignorantes, ensaiando os pormenores até à exaustão na busca de uma perfeição impossível, e recordando sempre a actuação anterior. E a luz de emergência, e a massa frita, os porcos e as pocilgas, o dia da morcela, o retrato de Hitler, o ensaio do pano. O artista, que não dá espaço aos que contracenam com ele, ocupa todo o tempo e toda a cena com o seu monólogo. Sempre amargurado ou cáustico, quando fala com o dono da hospedaria, cruel ou vagamente terno quando fala com os filhos ou quando se refere à mulher, sempre à espera de um milagre que faça despertar nos outros o gosto da arte, mas não acreditando já sinceramente nisso. Bruscon, o grande autor, numa passagem que parece retomar o tema do fingimento de Pessoa, diz para si mesmo e para os outros:

"O escritor é fingido
os intérpretes são fingidos
e os espetactadores também são fingidos
e tudo junto é um único absurdo
já para não dizer
que se trata de uma perversidade
que tem já milhares de anos
o teatro é uma perversidade com milhares de anos
pela qual a humanidade é doida
e é tão doida por ela
porque é doida pelo seu fingimento
e em parte nenhuma desta humanidade
o fingimento é maior e mais fascinante
que no teatro."


Fala de Bruscon em O Fazedor de Teatro, Thomas Bernhard (trad. José António Palma Caetano)

A interpretação ofegante, ritmada, quase sem silêncios, de Morais e Castro dá dignidade, consistência e credibilidade ao complexo personagem de Bruscon. O monólogo de permanente ressentimento, que caustica afinal a própria realidade por ser como é, e por não dar um lugar à arte, à sua arte definitiva, concede apenas por vezes à divagação lírica e à ternura. Mas quando isso acontece, falando para os filhos (dois anti-talentos...) e para a mulher, que não diz uma palavra em toda a peça, é verdadeiramente comovente.
A peça decorre inteiramente na sala da estalagem onde, à noite, terá lugar a representação teatral. Mas no final, nos derradeiros instantes que precedem o início da actuação, nós somos já o seu único público. Quando olhamos para Bruscon que nos lança um olhar de desalento, rendido ao seu auditório mediocre, esse público inventado já somos nós, um instante antes de sairmos da sala. A tempestade cai sobre o lugar de Utzbach e um raio incendia a igreja. O público inventado corre para a rua e deixa a sala vazia. Bruscon compreende que perdeu e que a arte, a sua arte, provavelmente não é mais que puro fingimento, ou menos que isso.

Eu leio a Imprensa Regional! 

Os títulos disponíveis na imprensa de âmbito nacional são poucos e em deriva para a tabloidização. Não é de agora e parece que o panorama editorial não deverá mudar, justamente quando a imprensa escrita tradicional está em crise. A tiragem média dos nossos jornais de referência (na informação geral só me lembro de dois, assim à primeira) é de rebentar a rir. Vendem pouco, são lidos por poucos leitores que mais frequentemente preferem a grande salada televisiva servida à hora do jantar, em grandes travessas cheias de cor e ruído. A informação espetáculo, para quem não quer estar informado, ganha à informação de fundo que reclama tempo, atenção e algum sentido interpretativo. O mercado revisteiro é amplo e variado, mas a informação geral de qualidade quase não tem audiência.



Para variar as minhas fontes... agora leio a imprensa regional. Não é tão solene quanto parece: o meu pai deixa-me em casa regularmente o Diário do Alentejo, de que é assinante, e eu entro na leitura semanal das notícias onde a ovinotecnia e a caprinotecnia vêm antes dos conflitos partidários (que também há). O jornal, que ao contrário do título enganador, só sai uma vez por semana, à 6ª feira, é sóbrio e reflecte razoavelmente bem o equilíbrio político da região. São 20 páginas de informação regional, mais um caderno para um tema de destaque e publicidade local - o cadernodois -, para além de um suplemento chamado Alentejoilustrado, com boas fotos de capa, e de orientação mais cultural e patrimonial.
O número de 19 de Março, da passada 6ª feira, dá destaque ao grande acontecimento em que se transformou a Ovibeja, a 'grande feira do sul do país'. No suplemento ilustrado, com chamada de 1ª página no caderno principal, sai uma extensa entrevista com o actual ministro da educação - Um ministro com raízes no Alentejo. Ainda não li mas parece ser substancial e valerá a pena ler as linhas e as entrelinhas.
Gosto deste jornal regional, que não permanece à margem da política nem revela antipatia pelo contraditório e pelas pequenas e grandes polémicas locais. Uma delas é sintomática de como o alinhamento partidário pode condicionar as escolhas culturais, ou de como a cultura não permanece, por muito que se queira, longe dos diktats políticos. Trata-se do conflito de 'personalidades' entre um actual presidente de Câmara e um ex-presidente, a pretexto do nome a atribuir a uma biblioteca. O 'ex' avançou com o nome de um poeta local, o Raul de Carvalho do belíssimo poema Vem Serenidade ("...vem cobrir a longa fadiga dos homens/ o antigo desejo de nunca ser feliz/ a não ser pela dupla humidade das bocas."). Mas o presidente foi pelo nome do nosso épico, para culminar com uma coroa de versos heróicos uma das obras do seu mandato. Eu, se me perguntassem a opinião, votaria no Raul de Carvalho. Muitas vezes. Mas pronto...

domingo, março 21, 2004

Uma visita à Feira 

A aquisição de livros e o hábito regular da leitura não são completamente independentes do contexto em que ocorrem. Por isso a Feira do Livro, com os stands precários que poderiam ser pavilhões balneares à beira da praia, que tão depressa surgem como são desmantelados, exercem um atractivo especial. Disputar um lugar junto ao escaparate com outros leitores desconhecidos é um poderoso excitante, que invariavelmente precede a compra de um livro, não importa qual. A urgência vital fica suspensa, mas o olhar fixo e obcecado com que todos perseguem um título ou a miragem de um nome faz-nos pensar que o livro e a leitura são uma condição sem a qual o leitor não pode sobreviver. À distância e para um olhar descomprometido, os leitores que buscam livros no espaço da Feira, arrastando os pés, tropeçando e disputando cada centímetro do espaço disponível, parecem fantasmas. Não andam, parece que deslizam pesadamente, não olham, apenas seguem com o olhar, não falam, pensam. O objecto do desejo multiplica-se em inúmeras encarnações, permanece inerte na banca, mas o seu fascínio é poderoso. Dentro de semanas teremos no Parque Eduardo VII a Feira do Livro de Lisboa, e aí confirmarei placidamente estas intuições.
Hoje fui à Feira do Livro de Almada, que ocupa parte do espaço fronteiro ao Largo S. João Baptista, a Praça da Liberdade. Sob um amplo stand de tela branca, ao estilo dos barracos medievais, mas com o glamour da arquitectura precária da Expo, alinham-se dezenas de bancas e milhares de livros. A 'bijuteria' é variada, como seria de esperar. Fixei-me num manual de construção e manutenção de Weblogues, escrito por uma das pioneiras, mas acabei por comprar A Filosofia e o Resto - um colóquio, livrinho editado pela Colibri do Fernando Mão de Ferro. É um opúsculo que reune as intervenções que tiveram lugar num colóquio do Departamento de Filosofia da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em 1996. Diogo Pires Aurélio, Maria José Vaz Pinto, António Marques, Pedro Paixão e Maria Filomena Molder são algumas das estrelas. É leitura para breve. Darei notícias...

{A Feira pode ser visitada até ao próximo dia 10 de Abril, das 10.00 às 22.00.}

sábado, março 20, 2004

MUIPITI, a Ilha de Próspero, a ilha de Knopfli 

Também conhecida como a ilha de Moçambique. Ora bem, neste momento estou rodeado da 'ilha' por todos os lados, como na definição. O trabalho poético de Rui Knopfli também é definir a ilha, o meu trabalho é ler a poesia de Knopfli.
Comecei com um mergulho na "Ilha de Próspero", com data de 1972. É um Roteiro, que nos apresenta 20 poemas-lugares, por entre os quais o leitor é convidado a vaguear. É a ilha que espreita em cada um, e o seu tempo de navio à deriva que nos rodeia. Para compreender melhor o mundo de Knopfli li depois o Prefácio de Luís de Sousa Rebelo, texto breve mas francamente útil com que abre o volume da Obra Poética editada pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda, na colecção Escritores dos Países de Língua Portuguesa.
Os poemas de Knopfli reclamam imagens da ilha e eu, ao contrário da Manuela, nunca a visitei em criança. Percorri demoradamente num álbum fotográfico as ruas degradadas da ilha: Muipiti - Ilha de Moçambique, fotografia de Moira Forjaz e texto de Amélia Muge, colecção presenças da imagem, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983.
A revista Camões do Instituto do mesmo nome, número 6 de Julho/ Setembro de 1999, apresenta um artigo de Ana Mafalda Leite, para ler: "A "Ilha" de Próspero de Rui Knopfli ou a Ilha de "Caliban" na Poesia Moçambicana - notas em torno da actualização de um mito de origem cultural".
Mais dois livros com entrevistas a poetas e escritores moçambicanos, dos quais se destaca o Knopfli: Vozes Moçambicanas - Literatura e Nacionalidade, de Patrick Chabal, Vega, colecção Palavra Africana, Lisboa, 1994; Os Habitantes da Memória - Entrevistas com escritores moçambicanos, Nelson Saúte, Embaixada de Portugal - Centro Cultural Português, colecção "Encontro de Culturas", Praia - Mindelo, 1998.

quinta-feira, março 18, 2004

O País da Adrenalina, digo eu 

Um dia trepidante, de vertigem em vertigem ao esplendor do risco, o glamour do perigo, o cheiro intenso a pólvora, um dia de sobressaltos éticos e de consciência embargada. De manhã, a oração habitual. Uma meia de leite e o Correio da Manhã, que é o jornal nacional dos cafés portugueses. Duas páginas garantidas, desde há uma semana, sobre terrorismo e afins. O escândalo Casa Pia foi remetido para as páginas interiores do jornal. O sexo com menores perde terreno em face da retórica do medo. O alarme agora vende mais do que a perversão do desejo, o cheiro a pólvora mais do que o sémen. Terrorismo a abrir o jornal, na capa e nas páginas 4 e 5. Ou seja, falsos alarmes, partes gagas, árabes e arabescos, a polícia em acção, acordo de Schengen, etc.
Depois cheguei a casa e a minha caixa de correio electrónica fervia com uma mensagem revisionista sobre os atentados de 11 de Setembro em Nova Iorque. Uma teoria da conspiração verdadeiramente revolucionária: os atentados não foram atentados porque tudo não passou de um plano americano para justificar a política externa de intervenção do actual governo e a doutrina da guerra preventiva; americanos mortos no seu país, árabes em bolandas onde quer que vivam. Os aviões que chocaram com as Twin Towers não transportavam passageiros, eram telecomandados. Os judeus faltaram ao trabalho nesse dia e salvaram-se, os códigos de voo envolviam alusões ao número de emergência - 911 - e, argumento decisivo, a 'área das torres há muito que era economicamente deficitária'. E tudo isto 'é óbvio', a acreditar no autor da mensagem. Só falta dizer que, segundo este putativo investigador dos atentados, a América trata mal os emigrantes, o que ajuda a compreender que 80% das vítimas tivessem sido de origem estrangeira, judeus aparte, que estavam avisados e viram os atentados em directo de casa ou do café do bairro. Não resisti e devolvi a mensagem com a minha versão da teoria revisionista. Está no blogue.
Depois vieram dizer-me que tinha rebentado uma bomba na Caixa Geral de Depósitos do Laranjeiro. Com testemunhas, moldura de multidão em estado de pânico e bomba a deflagrar. Fiquei de ver nas notícias.
Ao fim da tarde o Rui Knopfli, que não pediu para entrar nesta história mas é, no fim de contas, o que se aproveita deste dia trepidante.
À noite batiam as 20.00 horas, estou à frente da pantalha, em estado de choque. O Jornal Nacional da TVI, que é o Correio da Manhã em televisão, arranca com o estrépito habitual, muitos decibéis acima do que é humanamente suportável. E o alinhamento das notícias faz o retrato do país a 'ferro e fogo'. Bombas que deflagram, alarme e polícia a intervir em tempo útil com uma grande cópia de meios. Primeiro o caso do saco de roupa abandonado na Estação do Oriente, Parque das Nações. A polícia é chamada e, à cautela, faz deflagrar uma bomba para 'detonar' a eventual carga explosiva do saco suspeito. Transeuntes em pânico e alarme falso. Depois o caso do Laranjeiro. Dois sacos suspeitos abandonados na rua, junto ao banco. A polícia é chamada e coloca no terreno todos os meios. Um homem com aspecto de astronauta remendão, pelo fato anti-minas e armadilhas em que se arrasta pesadamente, manipula cautelosamente a bagagem abandonada. Uma bomba (outra) explode para provocar o rebentamento controlado da eventual carga explosiva abandonada. Junto ao edifício dos correios uma pequena multidão aplaude. O vereador para a Protecção Civil do Concelho tem direito a falar à TVI. Mas não é tudo. Noutra delegação da CGD, mas em Lisboa, um pobre homem que teve a triste ideia de nascer moreno e de se converter mais tarde ao islão, passou um mau momento. Pediu para deixar os sacos que transportava numa sala anexa ao atendimento e foi ao café tomar o pequeno almoço e aliviar-se, sabe Deus. Quando voltou, 15 minutos depois, a esquadra do bairro estava lá em peso à sua espera. Foi detido, identificado e levado para a esquadra onde teve de se explicar.
Na SIC dois jornalistas viveram uma odisseia. Transportaram falsas bombas, ou seja não transportaram nada de realmente perigoso que valesse a pena registar, respectivamente entre Marrocos e Lisboa e entre Sevilha e Lisboa. Se fossem terroristas teriam espalhado o pânico neste país inverosímil. Como são apenas jornalistas, só transportaram caixas que são bombas a fingir, com um telemóvel para detonar nada, obviamente.
A pedofilia só veio depois. Mas o dia ainda não acabou. Quem sabe as emoções que nos aguardam...

"O mundo começou a ser feito por detrás!", disse o louco 

Há anos o escritor Lobo Antunes contou esta história numa entrevista: quando entrava no Hospital Júlio de Matos, onde então ainda exercia psiquiatria, foi abordado por um paciente que lhe segredou ao ouvido: "O mundo começou a ser feito por detrás!" O escritor repetiu depois esta frase em inúmeras entrevistas e crónicas. Considerava que o ofício da escrita e a construção de um romance tem muito dessa pretensão de ver como se faz o mundo, naturalmente olhando por detrás do pano.
Esta anedota ocorre-me a propósito de um mail que o meu amigo Paulo Graça Lobo me enviou hoje. Há quem se empenhe (não é seguramente o caso dele, que é uma pessoa de bom senso e invejável bom gosto) em construir minuciosas arquitecturas de suspeição a propósito dos grandes acontecimentos da actualidade. Histórias que despertam em nós o prazer inconfessado da desconfiança, que reforçam a nossa suspeita de que o mundo é feito por detrás e escapa estrepitosamente ao nosso controlo. Resolvi "ler" a mensagem e acrescentar algumas considerações pessoais, com o objectivo de mostrar a inconsistência dos 'argumentos'. Se gastei um par de horas nesta tarefa e a publico aqui - num blogue com esta denominação - é porque me parece que frequentemente não lemos os textos que recebemos e que nos enviam com a facilidade de um clic. Também me parece verdade que esta mensagem corresponde a um padrão que pode ser tipificado, donde tentando uma interpretação racional e sensata desta, estaria preparado para interpretar a maioria das que me chegam à caixa do correio.
Deixo aqui, devidamente contextualizada e corrigida, a resposta que devolvi ao PGL (é assim que os cronistas designam aqueles com que abrem polémica. O que, aliás, não é o caso. A minha resposta não é mais que uma reação para a qual há muita esperava um bom pretexto. Aconteceu agora e faço planos para reagir mais vezes).


Um dos meus tópicos preferidos são os fenómenos de comunicação gerados pela rede (ainda não encontrei um conceito adequado), sejam de carácter piramidal, alarmista ou, como é o caso desta mensagem, explorem até à caricatura os recursos imaginativos e capciosos das teorias da conspiração. Estou a pensar colecionar esses registos alarmistas e escrever qualquer coisa... um dia.

O Jorge Luís Borges tem um conto - "El Libro de Arena" - onde se conta que um modesto cidadão recebeu em oferta um livro singular. Um livro de areia que nunca abria na mesma página. Aliás esse livro singular - livro de todos os livros imagináveis - continha um número virtualmente ilimitado de páginas. Tal como a rede, hoje em dia... Depois do deslumbramento inicial o homem decidiu livrar-se do livro, que afinal parecia uma maldição. Mas como destruir um livro infinito? Queimá-lo? Não, porque a combustão de um livro infinito acabaria por sufocar todo o planeta. Ora é isto que me parece estar a acontecer com estas mensagens que detectam conspirações em todo o lado, com os alertas de perigo (recebi ontem um mail que me pedia por amor de Deus que não bebesse bebidas em lata sem desinfectar primeiro a lata da urina infecta das ratazanas...), ou, pior ainda, com mensagens comovidas que envolvem falsamente o nome e o rosto de pessoas e por vezes de crianças, que supostamente desapareceram... etc.

Esta mensagem é uma pérola de lugares comuns das teses da conspiração: dá por facto o que é apenas suposição, interpreta factos fazendo passar tais interpretações como dados inquestionáveis e evidências. Passo a comentar as diversas passagens da mensagem, inscrevendo a negrito o texto alheio.

CONTRA EVIDÊNCIAS... NÃO HÁ FACTOS! OU A TEORIA DA CONSPIRAÇÃO NO SEU ESPLENDOR

1. "Será mesmo possível que tudo aquilo tenha sido planejado pelo próprio país?"
A pergunta já nos transporta para um cenário arrepiante; quem não gosta de ser induzido ao medo, desde que de forma controlada e sem risco efectivo? Por isso é que há festivais de filmes de terror. A hipótese transformar-se-á, ao longo da mensagem, numa evidência reforçada... por falsos argumentos.

2. "Evidências sobre as torres de Nova Iorque. Abaixo apresentamos várias evidências sobre o fato de que a derrubada das torres de Nova Iorque NÃO foi feita por terroristas"
Claro que os 'argumentos' são evidências, sobretudo estes. Mas isso 'basta ter olhos na cara'. Contra evidências... não há factos! Todos conhecemos o aforismo, que constitui o grande princípio das teorias da conspiração.

3. A Tese: "o derrube das torres Gémeas não foi um atentado."
Toda a gente percebeu isso, à excepção de todos os grandes jornais de referência, da América e da Europa, dos comentadores e intérpretes dos fenómenos sociais, dos especialistas em terrorismo e estratégia, dos serviços secretos de outros países, dos familiares das vítimas, da opinião pública e de outros elementos vigilantes de uma sociedade tão complexa como a americana. À excepção destes... Aliás, imitando o modelo de inversão metodológica das teorias da conspiração, eu já suspeitava há muito de que a II Guerra Mundial e o Holocausto fizeram parte de uma insidiosa estratégia sionista para criar um estado judeu algures no mundo (é óbvio) - o elemento anti-judeu alimenta muitas destas teorias; não falta neste mail esse detalhe. Dá jeito. Mais: o Elvis não morreu e habita incógnito uma ilha paradisíaca onde continua a desenvolver (da cama dos cuidados intensivos, provavelmente) a sua actividade de agente secreto dos Estados Unidos. O Homem não foi à lua, quanto muito foi a Holliwood... tudo não passa de uma mentira em que estão envolvidos dezenas de milhares de investigadores e cientistas espaciais, toda a imprensa... entre outros. O segredo sobre o embuste da conquista da lua, repetida mais seis vezes de forma pertinaz e continuada durante mais de uma década (que os incompetentes serviços secretos russos engoliram até hoje) tem sido mantido religiosamente por essa legião. E logo nos Estados Unidos. Dentro em breve estaremos a receber mensagens ressentidas tentando explicar que os atentados do 11-M em Madrid foram organizados pelo PSOE, com vista a um lucrativo aproveitamento político. Aliás, afinal quem será o próximo 1º ministro espanhol: Zapataro ou Bin Laden? - foi a pergunta de um dirigente do PP. O ambiente para a conspiração está servido. A lista de teorias conspirativas é imensa e desafia a imaginação, coisa que não falta a esses investigadores do inverosímil.

4. "No dia seguinte à derrubada, o governo dos EUA já tinha nome, endereço e fotos dos "terroristas". Por que não os pegaram antes então?"
Eu não sei se já tinham isso tudo, tal como é dito. Portanto não acredito desde logo que a informação seja credível. O que é, efectivamente, "isso tudo"? E as listas de passageiros servem para quê? Claro que também não havia listas de passageiros porque tudo foi forjado. Na verdade o falso argumento incorre na petição de princípio: se parte da tese/ evidência de que não houve atentado, e como consequência não havia passageiros nos voos, também não havia lista. Se não havia lista de pasageiros nem tão-pouco passageiros, então foi um atentado forjado. É claro que a pista espanhola, por cujo território passaram alguns dos envolvidos, também foi forjada. Na verdade para suportar toda a rede de conivências e cumplicidades das teses conspirativas é preciso envolver quase meio mundo e admitir que essa parte do mundo que mente à outra metade é particularmente fiel ao sigilo ao longo dos anos. Aqui não entra qualquer dúvida conspirativa. Quem pertence ao grande sistema da mentira sistemática não delata nem revela, nunca fala. São sempre estes investigadores esforçados que detectam inconsistências e contradições nas narrativas que nos obrigam a aceitar. Que "anda meio mundo a enganar outro meio" é, de há muito, a força legitimadora de todas as teses conspirativas. O homem comum desconfia, os mais sofisticados traduzem essa desconfiança ancestral numa teoria. Um dia acordaremos dentro dessa teoria, nada é como nos dizem que é e nós próprios não somos aquilo que julgamos ser. Tudo aconteceu, afinal, ao contrário. Isto já é, naturalmente, uma tese conspirativa.

5. "Já havia câmeras de TV profissionais colocadas estrategicamente, dissimuladas e sorrateiramente para transmitirem o evento a todo o mundo desde o seu início, em vários ângulos."
Que coisa estranha mesmo, numa sociedade saturada de instrumentos mediáticos... Claro que este 'argumento' é completamente disparatado. Numa zona como Manhatam (é assim que se escreve?), com milhares de empresas e meios de comunicação escrita, numa sociedade altamente tecnológica, isso nem é uma sombra de 'argumento'.
Uma história: há dois ou três anos caiu um meteoro perto de um parque de estacionamento na Rússia. A imagem do rasto desse objecto foi registada por uma câmera do parque de estacionamento, que apanhou o seu reflexo na chapa de um veículo estacionado. Como se vê, que em Nova Iorque existissem câmeras para registar a tragédia, separadas entre si por cerca de 15 minutos (e a primeira imagem é de uma equipa que acompanhava os bombeiros - naturalmente também envolvidos na conspiração, antes de se envolverem como vítimas na derrocada dos edifícios)... é muito estranho...

6. "Os "atentados" aconteceram antes das 09:00, hora local, quando a maioria dos funcionários nem tinha chegado ainda, já que nos EUA a hora de trabalho começa por volta das 10:00 da manhã."
Este 'argumento' de natureza aritmética é particularmente capcioso. Então os conspiradores preferiam matar uns míseros 3000 cidadãos a matar o dobro ou o triplo, digamos. Não há paciência.

7. "Mais de 80% dos trabalhadores das torres eram de imigrantes e, sabe-se bem, que os EUA não têm simpatia por imigrantes e não os recebem bem."
Nunca li que a percentagem de emigrantes vítimas do atentado fosse tão elevada. A não ser que o conceito (claramente xenófobo) de emigrante envolva os descendentes de europeus, africanos e latino-americanos que vieram para a América há algumas gerações atrás, no século passado e no anterior. Depois este falso argumento é admiravelmente capcioso, apesar de estupidamente inábil, afinal. Repara: 80% das vítimas seriam 'emigrantes', trabalhando num dos símbolos do poder de Nova Iorque, num país que "não tem simpatia por imigrantes". Não faz qualquer sentido porque é uma pura contradição. Para além de ser uma interpretação falsa, xenófoba, em que se revela o parti-pris da própria mensagem. Não é verdade que os Estados Unidos não tenham simpatia pelos emigrantes, pois se o país é, em grande parte, resultado de grandes fluxos migratórios? Se não tem simpatia... como se explica que 80% das vítimas fosse emigrantes? Puro disparate, dislate ideológico, simples manipulação. Mas a teoria da conspiração é sobretudo isso.

5) "Existe uma informação não confirmada de que cerca de 3.000 trabalhadores judeus das torres não foram trabalhar naquele dia."
Claro que uma informação não confirmada é aqui mais um bom 'argumento' para a tese central. É a teoria da conspiração no seu esplendor. Avança-se aqui, de 'argumento' duvidoso para mera interpretação, e de preconceito ideológico indiscutido para informação não confirmada, antes de finalmente cairmos redondamente na conclusão que já está afirmada como evidência no início. Para além de ser revoltante a todos os títulos, o 'argumento' é invulgarmete estúpido, para além de irrealista. Já conhecia esta afirmação de outra mensagem. O que reforça a tese do envolvimento sionista, claro. Como se "evita" que 3000 trabalhadores judeus das Torres Gémeas faltem ao trabalho? Telefona-se para casa e avisa-se que no dia seguinte vai haver um atentado que destruirá o seu local de trabalho, pede-se segredo e pronto? Claro qe os judeus, por todos os 'defeitos que lhes reconhecemos', também se envolvem na conspiração e assistem de casa, em directo, ao ataque e à morte dos seus colegas de trabalho que não tiveram a sorte, por uma vez, de ter nascido judeus. Se não fosse de mau gosto e um insulto à inteligência média seria de rebentar a rir.

6. "Você viu alguma lista de passageiros dos dois aviões ser divulgada? Claro que não, pois ninguém viu."
Pois, ninguém viu. Na avalanche informativa que se seguiu aos atentados alguém poderia inequivocamente contrariar este 'argumento', mesmo que ele seja 'obviamente' falso? Eu não sei, tenho dúvidas razoáveis sobre esta alegação, por isso para mim não colhe. E depois, supondo que não há vítimas nos voos, quem são os familiares que aparecem a chorar... as vítimas? Figurantes contratados? E as dezenas de telefonemas dos passageiros do voo que não chegou ao seu destino e se despenhou numa floresta... não me recordo onde? Telefonemas registados em atendedores de chamadas e ouvidos pelos familiares... foram forjados? Claro que o mail não se refere a este voo.

7. "Sempre que há um acidente aéreo, familiares e amigos vão aos aeroportos buscar notícias sobre os passageiros. Você viu isso acontecer? Claro que não, ninguém viu, pois nada foi divulgado sobre isso, já que não havia o que divulgar. Aqueles aviões voaram por controle remoto. Sabemos que isso já é tecnologicamente possível hoje em dia."
A ideia é luminosa, quero dizer, ironia aparte, uma vez mais capciosa, e não resiste a uma simples reflexão. Vamos ver: para começar o que é "tecnologicamente possível" tem todas as condições para ser "obviamente verdadeiro", e ponto. Não se discute mais isso. Depois este raciocínio envolve uma tortuosa versão das prioridades e uma perspectiva singular acerca dos escrúpulos dos mentores desta conspiração. Quem agiu por controlo remoto, dirigindo os aviões contra as torres, teve o comovente escrúpulo de poupar algumas centenas de passageiros, não obstante terem acabado por morrer mais de 3000 cidadãos... Isto não faz sentido.

8. "O número dos vôos daqueles aviões era 093 e 011. Segundo foi divulgado,o 093 devia ser relacionado ao ano de 1993, quando uma bomba explodiu na garagem de uma daquelas torres e, o número 011, deveria ser relacionado ao próprio dia 11 de setembro. Cá pra nós, acredito que seqüestrar um avião deve ser uma tarefa muito difícil; seqüestrar dois aviões deve ser mais difícil ainda; seqüestrar dois aviões no mesmo dia e horário deve ser bem mais complicado. Será que os terroristas ainda iriam ter exigência para escolher os números de vôos? Qual a vantagem disso pra eles? Seria a de aumentar a complicação? Nenhuma vantagem nem importância, claro! A ligação desses números aos "atentados" só tem serventia àqueles que pretendem montar e forjar provas contra alguém."
Bom contra isto nem vale a pena perder tempo ou procurar contra-argumentos... porque simplesmente não são sequer 'argumentos'. Pura especulação fantasiosa à volta dos números. Jogando com eles podemos criar os efeitos que pretendermos. E depois o erro da petição de princípio, a pura falácia: primeiro decide-se que há uma simbólica premeditada na designação dos voos (093, 011) e depois procura-se mostrar que o sequestro dos aviões com essa designação só traria mais complicações a uma operação já de si difícil. E se partirmos do princípio de que não há nenhum significado especial na designação dos voos que chocaram contra as torres? O 'argumento' ruiria com o mesmo fragor das próprias torres, não é?

9. "Sempre quando um grupo de terrorismo verdadeiro faz algum atentado, imediatamente esse grupo reivindica o atentado para si, pois isto traz prestígio àquele grupo. Você viu algum grupo fazer isso? Claro que não, nenhum grupo reivindicou aqueles "atentados". Mais uma evidência de que não há sentido em relacionar os números 093 e 011 aos "atentados" e atribuir os "atentados" a um grupo de terrorismo não-oficial. E o fato de ter ficado em aberto quem realmente praticou aqueles atos, faz com que EUA ataquem todo mundo indiscriminadamente, isto é, bombardeiem os países cujos governantes eles têm interesse em derrubar. Se um grupo tivesse assumido os "atentados" então os EUA seriam forçados a combater somente tal grupo, o que não é de interesse pra eles, pois era pra deixar tudo em aberto mesmo para "terem" o perverso "direito" de atacar quem quiserem."
Bom, nós vimos imagens que parecem verosimilmente atribuir a autoria dos atentados à Al Kaeda (?). Não vimos? Mas estes supostos 'argumentos' não passam frequentemente de meras construções retóricas - a sua força persuasiva esgota-se na assertividade dos enunciados, na força e na convição com que são apresentados. E é tudo. Se nos dizem "você viu/ claro que não" estamos no âmbito da retórica vazia, não dos 'argumentos' substanciais. Se o leitor é crédulo, o enunciado cumpre a sua função e passa por 'argumento' irrecusável. Como causa e motivo do atentado não ter sido reivindicado teríamos o interesse dos Estados Unidos em manter uma autoria indefinida, com o fim de legitimar intervenções 'onde quer que seja oportuno'. Mas este 'argumento' é anedótico. Acontece que a Al Kaeda, que efectivamente acabou por reivindicar o atentado, tanto quanto se sabe, é mais um conceito que um corpo substantivo de efectivos e operacionais, sediados num campo remoto à espera de ordens para actuar. O próprio grupo é tão difuso que essa sua condição já por si, utilizada sem escrúpulos, pode legitimar intervenções onde quer que seja. Até em Espanha (por absurdo)... onde parece que existem células mais ou menos organizadas. Ó fantasia sem freio...

10. (...) "aqueles "atentados".
Mas não foram atentados? Mesmo que tivessem sido organizados pelos serviços secretos americanos com apoio da secreta israelita e patrocinados pela CNN e pela McDonnalds... não seria um atentado??? Não é só uma questão de aspas aspas, faz parte da idiossincrasia mental de quem concebe estas admiráveis construções da suspeita.

11. "Seqüestrar e manter esses aviões seqüestrados apenas com canivetes ou faquinhas e sem nenhuma arma de fogo em punho parece ser tarefa cinematográfica e difícil de imaginar que nenhuma reação tivesse sido tomada com efeito."
Isto é uma 'argumento'? Mas se os aviões iam vazios de passageiros e de tripulantes os responsáveis poderiam ter inventado qualquer outra versão menos inverosímil. Se não há testemunhas, poderiam ter dito que o sequestro foi levado a cabo com armas de fogo dissimuladas, que ninguém poderia desmentir. De facto parece cinema mas com um mau argumento.

12. "O dia escolhido para os "atentados" foi o 11 de setembro ou 11/9. Porém, os países de fala inglesa invertem a ordem e escrevem 9/11. Este número coincide com o número 911, adotado e conhecido nos EUA como o número de emergências."
E depois? A data do "atentado", para usar as aspas aspas do autor do mail, foi escolhida por critérios mnemónicos? Para que o número das emergências (de que ninguém nos Estados Unidos se lembra, claro) fosse óbvio? Para que efeito? Num tumulto provocado com estes acontecimentos alguém vai brincar com os números e associar milagrosamente a data com o número das emergências?

13. "A área das torres, desde há muitos anos, já era deficitária economicamente."
Este último 'argumento' é apenas tão obsceno como alguns dos outros. Aparece em último lugar por ser definitivo? Por ser o mais consistente? Se quisesse fazer humor diria que actualmente - do mesmo modo que há o controlo remoto para fazer chocar aviões contra edifícios - já existem técnicas inofensivas para fazer derrocar controladamente edifícios com estas características. E sem causar 3000 vítimas. Mas uma vez mais não se percebe qual é o lugar desta afirmação no argumentário geral. É uma prova supletiva ou um 'argumento' estruturante? O móbil é a legitimação de uma política externa abusiva e expansionista ou a gestão imobiliária de uma vasta área no centro de Nova Iorque? Simplesmente não vale a pena gastar saliva com isto.

14. 'Argumentos' como o anterior deixam a nu uma estratégia muito débil, de perfil empírico e cumulativo. Qualquer detalhe de facto, desinserido do contexto, ou qualquer fórmula retórica, são carreados para nos levar a crer no que já é dito de início como evidência irrecusável. Para além de que os 'argumentos' carreados são frequentemente inconsistentes entre si. Dou apenas um exemplo: o 'argumento do horário' do atentado - que teria sido antes da hora de entrada no trabalho (supostamente para minorar as perdas humanas) - não cola bem com o 'argumento dos emigrantes'. O dado duvidoso de 80% de percentagem de emigrantes entre as vítimas também não se articula com a 'argumentação' anterior.

"A NECESSIDADE DE ACREDITAR EM ALGUMA COISA QUE NOS TRANSFORME EM VÍTIMAS."

Se gastei todo este tempo a tentar desmontar a 'argumentação' falaciosa do mail é sobretudo porque me parece que todas estas mensagens se assemelham. Exploram a nossa necessidade de acreditar em alguma coisa que nos transforme em vítimas de um poder ontologicamente injusto e maior que nós. A facilidade de reenviar estas mensagens (basta uma boa lista de contactos e um clic) faz de detonador. E também traduzem um gosto pela manipulaçãoo do outro, seja através da sedução que um cenário romanesco exerce sobre nós, seja pelo alarmismo que provocam (sobretudo mensagens de outra categoria), seja através do medo ou da chantagem. A mentira é um instrumento que serve para manipular os outros. Eu não aceito ser vítima e agente destas paródias de mau gosto que circulam pela net. Do mesmo modo que não ajudo a espalhar boatos.

Post Scriptum: Vivemos numa época de sensação e alarme, ou seja, num tempo pouco propício à avaliação ponderada dos factos. Disseram-me ao almoço que 'tinha rebentado uma bomba' na secção local da Caixa Geral de Depósitos. Havia uma multidão à porta, a GNR e até a TVI, para dar o toque de credibilidade final ao atentado. Dizem que houve uma detonação... PUM! Vou esperar pelo jornal das 20.00 horas. Aposto que, no pior dos casos, a GNR acorreu para fazer detonar (controladamente) uma caixa de preservativos ou uma garrafa de água mineral, esquecidas dentro de uma mochila. Ou então (cenário aterrador) o terrorismo internacional chegou finalmente à minha porta. Uma semana depois dos atentados de Atocha.

sexta-feira, março 12, 2004

11-M... de Madrid 

A notícia e o caudal de imagens que se seguiram acabaram por "emaranhar" o meu dia; saí de manhã pelas nove e dez, atrasado como sempre, para cumprir o protocolo familiar. Entrei no café para a primeira sessão de leitura e pedi a minha poção. A televisão passava uma notícia insistente, com carruagens esventradas e corpos difusos, linhas paralelas, cenário soturno de uma cidade "com quatro milhões de cadáveres". A sedução resultou, após alguns minutos de leitura. Fixei-me na pantalla e percebi que Madrid tinha sido atacada pela cólera. Uma criança de sete meses explodiu durante o sono e foi cair nas urgências de um hospital da cidade. Muitas horas depois ainda não tinha sido reclamada. Os mortos não têm sentimentos.

quarta-feira, março 10, 2004

1, 2, 3, 4, 5 CD's 

Chegaram recentemente de Madrid e do Museu do Prado. Também visitaram outras relíquias da "milha dourada" e mal viram o Manzanares, objecto do "chiste" de outros viajantes ilustres, como um tal embaixador alemão, o conde de Rehebiner, que dizia que aquele rio era o melhor do mundo porque era "navegable a caballo". Pintura e mistério numa cidade em que os habitantes não pesam nos passos erráticos do visitante. Preferiram a companhia de alguns residentes ilustres da capital e de um viajante, de passagem pela cidade. Goya e Velázquez, Zurbarán, Domenico Theotocopulos, Rubens.
O Filipe e a Sofia chegaram de Madrid e trouxeram-nos uns quantos CD's que não são flamenco. Quatro mosaicos cheios de música: A Outra Banda da Terra, de Caetano Veloso; Dancer in the Dark da incomparável Bjork; Hydrogen Jukebox, uma ópera de Philip Glass, com libreto de Allen Ginsberg. E também um estranho disco: In the Mood for Love, de Wong Car-Wai e Indiasong Mainthere (?).
Há semanas atrás a Magarida Amado (que terminou agora um guia turístico sobre Lisboa para sair numa editora de Madrid) trouxe-me um CD: mood indigo, de Nina Simone, ou o esplendor da música negra norte-americana.

terça-feira, março 09, 2004

Mentira, medo e alarmismo na rede 

A mentira é a mais elementar forma de manipulação; mentir aos outros é levá-los a uma situação de fragilidade, exercer sobre eles uma forma ilegítima e injusta de poder. Quando mentimos, empurramos os outros para um nível alheio à realidade, onde nada funciona como é suposto funcionar. A rede está cheia de mensagens que não apenas são mentiras objectivas mas exploram, da pior forma, a ingenuidade e a credulidade natural de qualquer transeunte. O SPAM traduz essa circulação cega e irreflectida de mensagens, não importa de quê, que incessantemente promovem a globalização do ruído e da irrelevância na net. As cadeias de mensagens, quase sempre com conteúdos capciosos ou abaixo de zero, quando não exercendo uma verdadeira chantagem emocional sobre o receptor, as estruturas em pirâmide e outras fórmulas de perder tempo e de manipular os outros, só têm sucesso porque uma legião de ingénuos, crédulos e inspirados, rendidos à doce vertigem de espalhar o bem pela rede, se deixam iludir pela mentira.
Nas inúmeras visitas que faço a um certo serviço do Hospital Garcia de Orta, num corredor sufocante do Piso 1, tenho visto afixado em painéis um cartaz bastante tosco com o rosto de uma criança. Uma mão trémula ou inapta rabiscou dois nomes e dois números de telefone, sob a palavra "pais". O leitor benévolo deixa-se enfeitiçar por aquele rosto infantil e lê obviamente o que não está lá explicitamente. A mensagem subliminar é que uma criança desapareceu e é procurada. Os números de telefone e os nomes dos pais vêm sob a foto, para o caso de haver quem possa ajudar. Eu já vi isto em qualquer sítio... Da última vez que lá estive, incomodado com a permanência daquele olhar resignado nas paredes do Hospital, registei todos os dados da folha. Percebi logo que algo estava mal: os algarismos dos números de telefone mal se podiam ler, de tão mal escritos. Um dos números só contava 8 dígitos, portanto inválido, e o outro começava com o indicativo "99"... que creio ser pura invenção. Bastaria ao benévolo agente que ali deixou os cartazes, lê-los com cuidado. Em casa resolvi averiguar e hoje pela manhã telefonei para o primeiro número: nada. Passei ao seguinte. Substitui o "99" por "91" e o número não estava atribuído. Repeti a operação para o "93" e o resultado foi igual. Depois digitei o mesmo número com o indicativo "96". Atendeu-me uma senhora que não correspondia aos nomes do cartaz. Mas curiosamente confirmou-me que os nomes que lhe referi coincidiam com o dos vizinhos do 2º andar. Um casal de reformados, naturalmente completamente alheio à sugestão capciosa da mensagem que eu tinha lido. Claro que não havia criança nenhuma, nenhum desaparecimento, nenhum apelo urgente. Agradeci e desliguei, para evitar maior alarme.
Há meses, a propósito de uma mensagem de email, que solicitava ajuda para encontrar uma criança desaparecida (alguma coisa causa mais alarme social?) aconteceu-me algo semelhante. A mensagem apontava para um cenário dramático. Criança desaparece em circunstâncias estranhas, os pais pedem ajuda aos cibernautas. Alguns pormenores e a foto da criança (que julgo ser a mesma do cartaz do Hospital... mas não posso garantir), ajudam a dar consistência à mensagem, a acentuar o dramatismo. Também telefonei para os números indicados. Atendeu uma senhora que me garantiu que o conteúdo era falso, apesar da foto ser da sua filha. Ou seja, a mensagem que me chegou e que outros terão recebido e reenviado numa gratuita cadeia de solidariedade um pouco tonta, era falsa. Eu diria que este tipo de atitudes, envolvendo nomes, números de telefone, fotografias de crianças, é particularmente nefasto e absolutamente condenável. Não sei se é crime espalhar o boato, criar alarmismo, manipular os outros na sua boa fé. Sei que constitui um revoltante atentado contra o bom nome e a imagem dos outros. Para evitar ser mais um "idiota útil", que ao mesmo tempo engana e é enganado, numa onda de ruído que aumenta o alarmismo e a frivolidade da comunicação na rede... basta ler e pensar um pouco. É tudo. É pedir muito?

segunda-feira, março 08, 2004

"Se não escrevesse livros matava alguém!"... disse ela 

A declaração foi proferida pela escritora Inês Pedrosa no sábado passado, num encontro reservado, que teve lugar num gabinete discreto do Fórum do Seixal, mergulhado na penumbra do fim de tarde. Estas palavras, ditas inesperadamente, não perturbaram nenhum dos poucos presentes.

quinta-feira, março 04, 2004

Indícios de Ouro, do poeta no seu labirinto 

Há muitos anos vi, como muitos, o filme de João Botelho. Filme de estreia: Conversa Acabada, com Jorge Silva Melo a fazer de pivot de uma conversa diferida no tempo, a passo de bilhetes e telegramas, entre Fernando Pessoa, em Lisboa, e Mário de Sá-Carneiro, em Paris, no seu labirinto. Um filme depurado, uma mesa longa cheia de livros, alguns poemas e uma longa conversa entre amigos distantes que caminha para a sua finalização com um suicídio anunciado. Poucos anos depois, encontrei em Alfama, numa apoteótica noite de Santo António, descendo por uma rua apinhada de gente, anónimo, o próprio Mário de Sá-Carneiro com a sua postura imperial de príncipe do Oriente.
Há dias tive de ler os Indícios de Ouro, a segunda colectânea (já póstuma) de Mário de Sá-Carneiro. Foi uma leitura inesperada, precedida por uma larga introdução e estudo de Maria Ema Tarracha Ferreitra. Demorei-me na belíssima nota biográfica que a autora construiu sobre o poeta. Passei depois aos poemas. O livrinho é da excelente Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses.
Dispersão foi a primeira colectânea, publicada ainda em vida de Mário de Sá-Carmeiro, em 1913. Indícios de Ouro, teria de esperar até 1937 para ver a luz do dia.
Indícios de Ouro é composto por 38 poemas desiguais, datados entre 1913 e 1916. O predomínio da quadra, mas com grande variedade métrica, é óbvio. A colectãnea parece consagrar uma aliança entre a estrofe popular e o verso culto. Escreve a apresentadora dos poemas que Indícios de Ouro são o desenvolvimento programático da primeira colectânea, Dispersão.
Segundo Maria Ema Tarracha Ferreira, nesta colectânea manifesta-se uma "cisão psíquica - o eu ideal ou transcendente em conflito com o eu real ou existencial -, resultante do progressivo envolvimento da realidade exterior, que [provoca] a dispersão do eu em tudo o que o rodeia."
Não conhecia a poesia de Mário de Sá-Carneiro e a sua poesia deu-me vontade de tentar os seus contos, a prosa. Já Fiz esta pergunta a propósito da morte prematura de outro poeta: como seria a poesia de Sá-Carneiro se o poeta não tivesse acertado na dose de veneno?
Deixo aqui um poema datado de 28 de Junho de 1914, Paris:

APOTEOSE

Mastros quebrados, singro num mar de Oiro
Dormindo fogo, incerto, longamente...
Tudo se me igualou, num sonho rente,
E em metade de mim hoje só moro...


São tristezas de bronze as que inda choro -
Pilastras mortas, mármores ao Poente...
Lajearam-se-me as ânsias brancamente
Por claustros falsos onde nunca oro...


Desci de mim. Dobrei o manto de Astro,
Quebrei a taça de cristal e espanto,
Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...


Findei... Horas-Platina... Olor-brocado...
Luar-ânsia... Luz-perdão... Orquídeas-pranto...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
- Ó pântanos de Mim - jardim estagnado!...


E esta pequena quadra admirável (datada de Outubro de 1914, Camarate) , que tal como o título indica, não nos assoma a mais que um breve vislumbre:

VISLUMBRE

A horas flébeis, outonais -
Por magoados fins de dia -
A minha Alma é água fria
Em ânforas de Oiro... entre cristais...


E este poema (Lisboa, 14 de Fevereiro de 1915) que nos lembra o Oriente, muito apreciado por Pessoa, autor do Opiário:

ANTO

Caprichos de lilás, febres esguias,
Enlevos de Ópio - Íris-abandono...
Saudades de luar, timbre de Outono,
Cristal de essências langues, fugidias...


O pajem débil das ternuras de cetim,
O friorento das carícias magoadas;
O princípe das Ilhas transtornadas -
Senhor feudal das Torres de marfins...


100 dias 

Faltam apenas 100 dias para o início do Campeonato da Europa de Futebol. É um número redondo, como a bola transfigurada numa esfera armilar minimalista. Gosto daquele objecto simples quase só feito de ar e que dentro de poucos meses fixará a nossa atenção, para lá do explicável.
O Euro começa a 12 de Junho, no Porto, com o Portugal - Grécia. Espero que a 12 de Maio, precisamente um mês antes, possamos realizar as nossas leituras. Vamos a ver. A bola ainda vai rolar.

"A recuperação semanal da infância", disse ele 

Para começar é um belo livro, este Selvagens e Sentimentais de Javier Marías, da Dom Quixote. A começar pela capa onde parece ainda rolar a bola no fundo da rede, empurrada instantes antes por um jogador do Real Madrid, pois claro. Só tenho reservas em relação ao título que me parece muito feminino. Para um livro sobre futebol isso não será propriamente um problema objectivo, mas eu associo esse desporto à rudeza do pontapé na bola e etc. Pura subjectividade, portanto.
Javier Marías nasceu em Madrid em 1951, licenciou-se em Filosofia e Letras, foi professor de Literatura Espanhola na Universidade de Oxford, no Wellesley College de Massachusetts e na Universidade Complutense de Madrid. É autor consagrado, muito traduzido e muito lido quer em Espanha quer no estrangeiro. Tem pelos galácticos uma paixão que compreende o sentimento e o instinto selvagem de quem busca a vitória sobre todos os adversários. Mas as suas reflexões sempre marcadas pelo humor, que lhe dão a leveza que é preciso, estão também marcadas por um esforço de racionalidade e de ponderação.
O livro resulta de uma seleção de crónicas publicadas no El País ao longo de anos, entre 1992 e 2000. Textos como "Colarinho à Marinheirozito", "Os Hinos", "Oh, ah Cantona", "Carácter e Cromos", "Real Madrid Republicano", "Os Livros Podem Servir Para Alguma Coisa", "Três Golos na Própria Baliza", entre dezenas de outros, constituem pequenas histórias do futebol caldeados com histórias da infância do escritor. O estilo é livre, sempre ágil e a afición do escritor surpreende frequentemente o leitor, tais são os recursos e as subtilezas de que se reveste a sua ligação ao Real Madrid e a sua animosiddae aos blaugrana, ao Barcelona. Nunca é grosseiro, mesmo quando arrasa, nem irremediavelmente sectário, mesmo quando parece que o mundo está prestes a ceder ante uma derrota. O próximo jogo está quase sempre à distância de uma semana e a redenção é sempre possível.
A ideia central, se podemos falar de "centro" num livro de crónicas, é tocante. Na primeira crónica intitulada "A Recuperação Semanal da Infância" o autor escreve: "O que realmente sei é que não há desporto que angustie mais, quando é angustioso. Mais ainda: no meu caso particular, confessarei que é das poucas coisas que fazem com que hoje reaja - exactamente - da maneira como reagia quando tinha dez anos e era um selvagem, a verdadeira recuperação semanal da infância." Todos os textos, ou pelos menos muitos deles entram pela biografia do autor, porque o gosto pelo futebol é inseparável das recordações de infância. Marías não é apenas um adepto do futebol, mas os seus primeiros anos foram vividos ao calor dessa mitologia popular, povoada de heróis musculados e talentosos mas que frequentemente acabavam na solidão. Na actualidade o futebol e as recordações entrelaçadas que ele evoca, a cada semana, são parte do carácter do homem e do escritor. Em cada semana a infância regressa como uma memória remota permanentemente eficaz.
Li o livro em dois ou três dias, com uma história a empurrar-me para outra. Nunca tinha lido nada deste autor, para quem o fulgor do futebol não é apenas um fantasma. Ele ilumina uma parte de nós, porque o futebol é uma grande metáfora da vida.

terça-feira, março 02, 2004

Terror y miseria en el primer franquismo 

O título do livro de José Sanchis Sinisterra, dramaturgo espanhol que (se não me engano) é visita frequente do Festival de Teatro de Almada e já foi figura homenageada... é tremendo. A citação do título é de Brecht e constitui uma contextualização do Terror e Miséria no Terceiro Reich. O livrinho da Cátedra - Letras Hispânicas, com um amplo prefácio de Milagros Sánchez Arnosi, foi trazido pelo Francisco Gonçalves e pela Isabel que estiveram de visita a Madrid durante o carnaval. O Grupo de Amigos do Museu da escola secundária Moinho de Maré promove anualmente uma saída a um museu consagrado. Desta vez escolheram o Prado (e escolheram bem) e por isso lá foram em direcção ao centro geométrico da península nas vésperas de carnaval. A visita ao Museu do Prado foi a experiência que se imagina - puro e simples esmagameto pela arte - e depois foram pela cidade... Não sei se subiram e desceram a Cuesta de Moyano (creio que se escreve assim) onde ao entardecer se cria uma atmosfera propícia à descoberta de livros usados, expostos nas bancas e em pequenos stands. Quando lá vou e desço aquela rua ladeada de livros e objectos inúteis, cartazes taurinos e outras coisas do género, é sempre a correr porque é já hora de fechar. Ao ambiente cálido e sereno de fim de tarde sobrepõe-se então a tensão de descer e revirar todos os livros antes daquele efeito de dominó que parece querer antecipar-se à minha curiosidade e fecha sem apelo o stand da frente.
O livro de Sinisterra fica na lista, para ler depois de dar alguma ordem à minha agenda caótica.

segunda-feira, março 01, 2004

Teoria do Caos Reloaded 

Não se trata propriamente de uma teoria, mas de uma metáfora. As minhas leituras estão um caos. Conto com a próxima semana - esta que agora começa - para induzir alguma ordem na minha gestão das escolhas. Antes de mais estou com um problema de método que também terei de resolver. Alguns dos livros que já li viajam pela casa (literalmente), entre o quarto de dormir e a sala, entre o hall e o escritório, esperando uma recensão pela graça de Deus. O livro de Hemingway, o livro de viagens por Espanha de Cees Noteboom , Selvagens e Sentimentais - Histórias do Futebol, de Javier Marías, aguardam pacientemente que escreva sobre eles. Depois há os livros interrompidos que terei de retomar: o ensaio sobre A Paz Perpétua de Kant, o Apocalipse do Novo Testamento. Harry Potter e a Ordem da Fénix de J. K. Rowling é leitura para antes de dormir, do Miguel. Regressámos ao início depois de meses de paragem. Os Diários de Miguel Torga, na edição em dois grandes tomos da D. Quixote, também andam na minha bolsa de leituras. Estou no Diário IX, cheguei a 1962. Requisitei o Maracanã que terá de esperar pelo menos uma semana. O livro de Inês Pedrosa, Fazes-me falta é leitura para o final desta semana. A escritora virá no sábado ao Fórum do Seixal, para o encerramento da comunidade de leitores que animou durante meses. Não gostaria de comparecer sem ler um dos livros à discussão. Depois apareceram-me mais duas leituras à margem, que tenho de fazer muito rapidamente: o livro de poemas de Mário de Sá-Carneiro, Indícios de Ouro, com uma substancial Introdução de Maria Ema Tarracha Ferreira e o Guarani do escritor brasileiro José de Alencar. É quase a quadratura do círculo, meter o Rossio na Rua da Betesga ou parecido. Dentro de uma semana voltarei a escrever sobre o deve e haver.
Depois há "outras" leituras. A TSF fez ontem, 29 de Fevereiro, 16 anos. Através do DN a rádio da Avenida de Ceuta ofereceu aos ouvintes-leitores um belíssimo CD com os sons destes anos todos. É uma viagem fascinante através de notícias, episódios de rádio, momentos que ainda estão na minha memória, eu que só ouço a TSF. São 59 sequências num total de quase 80 minutos de sons, divididos por categorias: Confrontos na Antena, Sons Singulares e Únicos, O "Estilo TSF" na Reportagem, Timor, Uma Causa da Rádio, "Vox Populi", Memórias do Futebol, Programas da TSF premiados. Faltam ali algumas memórias, as minhas, mas o trabalho é de um requinte a que a TSF habituou desde há muito os seus ouvintes mais fiéis entre os quais me conto.