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sexta-feira, fevereiro 13, 2004

Uma rosa, muitas rosas, todas as rosas 

A palavra "rosa" é um tópico poético relativamente óbvio. Mas alguns poetas maiores sabem fazer-nos sentir o odor de todas as flores que nomeiam... "Púrpura do jardim, pompa do prado/ gema da primavera, olho de abril..."
Num belíssimo texto de O Fazedor (El Hacedor), Jorge Luís Borges inventa a morte de um velho poeta, proclamado no seu tempo como o novo Homero e o novo Dante. O homem, "cumulado de anos e de glória", morria num "amplo leito espanhol de colunas lavradas". Perto de si, uma mulher tinha colocado num copo uma rosa amarela. Toda a sua obra, vasta e irrepetível, jazia num recanto do quarto onde recriava solenemente "uma penumbra de ouro". Mas só depois de toda a obra composta, já no leito de morte, perdidas todas as ilusões da literatura, o homem viu a rosa "tal como Adão a viu no Paraíso", fora das palavras e da linguagem, longe de todos os signos. As palavras nomeiam e desde esse momento encontram-se irremediavelmente entre nós e as coisas que são nomeadas. Ver uma rosa antes de ela ter sido nomeada pela primeira vez, por exemplo no Paraíso, onde todas as coisas existiram antes de terem um nome que as substituisse na nossa percepção delas, é como uma revelação. Mesmo um grande poeta, como o moribundo Giambattista Marino, pode ter de esperar pelo despojamento que a proximidade da morte nos ensina, para alcançar essa grande revelação. Vivemos como sonâmbulos entre os objectos, entre as coisas, e o que é pior, entre os outros. Vivemos como cegos que apenas tocam a superfície irrelevante do mundo que habitam.
Mas uma oferta trasporta sempre mais do que o valor material e substancial do que é oferecido. Quando se oferece uma rosa, oferece-se sempre mais do que a rosa. Aliás, a rosa não passa de um pretexto, de um signo ocasional. Quando nos oferecem uma rosa deveremos perguntar: "O que é que me estão a oferecer?" Hoje ofereceram-me rosas, muitas rosas, todas as rosas. E de algum modo também as recebi com a mesma surpresa do poeta no seu leito, como se nunca tivesse visto rosas, como se não soubesse nomeá-las e isso fosse definitivo.
Sei porque me deram estas rosas, julgo sabê-lo e isso basta-me. Não preciso de explicar porquê, porque a explicação não interessaria a ninguém. Cheiro uma rosa, e outra e outra ainda, e descubro que não há duas iguais.
Quero agradecer e digo-o por extenso: às colegas do pavilhão A, à Teresa, à Edite, à Apolónia, à Beatriz, à Zé e à Gabriela, que me ofereceram uma rosa que embriaga como o vinho. De todas as colegas funcionárias recebi outra rosa que parece irmã da primeira. Da Judite Cunha e da Hermínia Domingues, que todos os anos repetem na João de Barros este admirável milagre das rosas, recebi três flores que parecem uma vertigem. Agradeço o cuidado e também agradeço as outras rosas com destinatário certo a cada ano que passa. E as rosas que a Margarida Rodrigues e a Lucília Achando me trouxeram, em nome da equipa da Biblioteca... cinco rosas que parece que me olham quando as olho, ainda com incredulidade.
Imagino que os sentimentos confusos, as ideias de uma impossível plenitude, e um certo despojamento voluntário de que nos vamos dando conta em certos momentos, são algumas das formas por que somos felizes. O cheiro das rosas e o silêncio que se segue ao fim da leitura de um poema devem ser partes de que se faz a felicidade. Pelo menos aquela por que esperamos, que merecemos.

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