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sexta-feira, fevereiro 27, 2004

Uma grande mesa em forma de vírgula 

Sou um devoto do canal Andalucia, do cabo. A cada um as suas bizarrias e pronto. O carnaval já acabou, mas a Páscoa e a Semana Santa estão à vista. E nisto o canal é imbatível, para o meu gosto. Passei uma parte do Entrudo a ver a exibição dos grupos do carnaval de Cádiz. É um espetáculo insuperável de vitalidade, alegria e humor inteligente. Dentro de semanas é o seu inverso, com as longas e penosas procissões das confrarias que se arrastam nas ruas estreitas das cidades andaluzas. Não faz "espiritualmente" o meu género, aquele espetáculo excessivo do martírio, de cuja autenticidade não suspeito, mas que dispenso. Acontece que gosto do ambiente, do excesso de símbolos e das referências, gosto do ambiente involuntariamente circense, gosto das cores e dos fatos...
Mas ontem estive até tarde a ver um inesperado programa sobre livros, de que não retive o nome. Um apresentador culto e com cara de boa pessoa, de quem apetece urgentemente ser amigo, que sabe conversar com os seus convidados sem os obscurecer com citações ou circunlóquios inconvenientes. Um convidado, um livro recém publicado e alguns leitores-espectadores escolhidos entre candidatos ao honroso lugar. Neste caso eram três três jovens: um actor-encenador de teatro de Sanlucar de Barrameda, um estudante universitário apresentado como leitor compulsivo (mas com sentido de humor) e uma licenciada em Filosofia. Três bons leitores que ajudaram com inteligência e sensibilidade à conversa com o escritor convidado.
Antonio Escohotado é um autor heterodoxo, inclassificável. Bom, tentemos: é professor de Direito, Filosofia e Sociologia em Madrid. É um especialista em drogas e substâncias proibidas, com inúmeras obras sobre o tema. É anti-proibicionista, mas as suas posições políticas situam-no ambiguamente no centro-direita, com um discurso algo perturbador sobre a política de emigração da Europa e do Ocidente em geral. Escreveu recentemente um livro bastante atípico, em resultado de uma viagem "sabática" ao Oriente: "Sesenta semanas en el Trópico", da Anagrama, onde desassombradamente, e num registo entre o sociológico de militância e o relato de viagens, reflecte sobre as causas da riqueza e da probreza nalguns países asiáticos que visitou e estudou.
De Escohotado só tenho o ensaio publicado pela Alianza Cien, "Las Drogas - de los orígenes a la prohibición". Um livrinho que li na íntegra, enquanto esperava que uma massa fervente de argila fizesse os seus efeitos terapêuticos sobre as minhas costas de penitente, já há anos. Na altura fiquei assombrado com as posições liberais e anti-probicionistas do autor, que considera que em todas as épocas as classes dominantes demonizam uma prática, uma classe determinada de fenómenos - seja a magia, na idade média, o próprio hábito da leitura, noutras épocas, agora o consumo de substâncias como as drogas. Escohotado é autor de uma monumental História das Drogas.
A conversa sobre o livro, e sobre tema tão fracturante, decorreu com extrema amenidade, com humor, mas sem concessões ao que é fácil e ao que é popular. Um consolo e um lenitivo para tanta televisão de merda.
Apreciei a mesa do programa; reparo sempre nas mesas que servem aos debates e acredito que uma boa mesa, criativa, concebida com talento, já faz parte do debate. Aquela mesa em forma de grande vírgula pareceu-me uma boa contribuição cénica para o bom ambiente do programa. Há anos, o escritor Francisco José Viegas moderava um programa de livros e afins, onde entre copos de vinho tinto, se falava de literatura. Os convidados e ele próprio equilibravam-se a uma divertida mesa ampla, altíssima, de onde pareciam em risco iminente de queda. Anos antes, a apresentadora e animadora de comunidades de leitores, a Paula Moura Pinheiro, moderou um programa de grande debate, com uma meia dúzia de convidados escolhidos a propósito. Cada um sentava-se numa peça inclassificável, algo entre o carrinho de choque e a carteira de escola primária. Alinhadas de frente para as câmeras, pareciam poder deslizar a qualquer momento pelo estúdio, como um fumarento carrinho de vendedor de castanhas. Num ameno talk-show da TVE, um entrevistador insinuante, intimista, dialoga com os seus convidados numa mesa mínima que não dá qualquer margem de recuo. Ali não há dissimulação possível. Mas num programa sobre literatura, da TF1, creio, o animador e os convidados, conversam sem atropelos num pequeno estúdio, sem mesa, sem mediações, cada um sentado confortavelmente no seu sofá. O espaço prolonga-se, por amplas janelas abertas à luz exterior, naquilo que parece ser uma paisagem naval ou portuária. Mais inconvencional ainda é o modo como decorre um programa cultural, sobre livros, sobre autores e o movimento editorial em Itália. Creio que passa ou passava há bem pouco tempo na RAI, Uno o Due... não sei dizer. O crítico consagrado, fluente e peripatético, e uma colaboradora sua, por vezes também um convidado, deambulavam interminavelmente, a passo lento, por uma praça monumental, pelo espaço aberto, entre transeuntes. O espectador acompanhava-os naturalmente também a passo lento, parando quando eles paravam para reforçar dramaticamente a intensidafde de uma ideia, de uma afirmação, retomando quando era preciso retirar daí consequências ou mudar de registo. Segui-os muitas vezes, encantado com a musicalidade do idioma, mas mais pelo gosto e pelo prazer visível que a erudição também pode propiciar. Etc, etc...

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