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terça-feira, fevereiro 24, 2004

Sevilla en los Labios... e na memória 

O livro é belíssimo enquanto objecto. O editor trabalhou bem quando escolheu os detalhes. Refiro-me a uma curiosidade bibliográfica (sem grande valor comercial) que comprei em outubro de 1994 no meu alfarrabista da Rua do Alecrim, ao Chiado. Costumava passar por lá regularmente e trazia sempre alguma coisa, um avio pequeno que raramente ultrapassava os dois mil escudos, e frequentemente muito menos. Este livro custou-me 580$00, ou seja cerca de 2,90 €.
Sevilla en los Labios, de Joaquím Romero Murube tem o carimbo do Editor LUIS MIRACLE de Barcelona. É um livro particularmente bem cuidado, com capa de tecido castanho, muito fino e letras gravadas em dourado. Uma imagem simplificada da Giralda, o título e o nome do autor são tudo o que podemos encontrar aí. Impresso em papel amarelado de boa gramagem, o corpo de texto vem a negro, com os títulos, legendas e efígies em castanho vivo. No interior encontramos doze gravuras em papel de grande qualidade, a preto e branco. Todo o livro revela um cuidado primoroso na composição, na escolha dos caracteres e na impressão. Terá sido publicado em 1938, o que o situa nos anos mais duros da Guerra Civil que terminou no ano seguinte. Curiosamente os textos passam completamente ao lado desse acontecimento. Mas esse silêncio ruidoso é rompido uma vez, não sem alguma falta de pudor para um livro de culto a uma cidade, quando o autor dá vivas a Franco e à nova Espanha que se anunciava. O leitor olha à volta, surpreendido por aquele desvario no meio da prosa tão contida e conceptual, troca olhares com outros leitores e não percebe. Mas isso não é relevante. Mesmo uma virtuosa e casta declaração de amor a uma cidade, como é o caso do livro de Romero Murube, admite este tipo de desvarios.
É preciso dizer que a prosa é relativamente datada, portanto dispensável. Mas o conjunto acaba por revelar algum encanto. Romero Murube conhece bem a sua cidade e sabe ultrapassar os óbvios lugares comuns que se escrevem e dizem sobre Sevilha. Escreve sobre os lugares e os ambientes, começando com um texto sobre la Puerta de la Carne. Passa pelo testemunho de alguns autores que escreveram sobre a cidade; Lord Byron, Teófilo Gautier, Paul Morand. Teoriza sobre o baile andaluz, num longo capítulo; recorda ardentemente a vida breve e a poesia de Bécquer; perde-se nos labirintos dos jardins e dos hortos de Sevilha; Ignacio Sánchez Mejías é apenas uma das personagens de que trata o perfil, com amizade e sem pormenores irrelevantes. Demora-se com visível entusiasmo na descrição da Semana Santa. Nestes textos atinge o seu estilo mais depurado e costumbrista, de propensão abstractizante e espiritualizada. Aqui o leitor laico, que ama Sevilha mas que não acredita na sua origem divina, que prescinde dos sinais exteriores da paixão com que alguns falam dela, manifesta algum incómodo. Felizmente o livro termina antes dos primeiros sinais de enfado.
Mas este exemplar revelou-me um segredo que a minha compra e algumas visitas desinteressadas à obra não revelaram. No capítulo 5, Los Jardines, onde o autor escreve sobre os jardins do Alcazar encontrei uma nota manuscrita com letra enigmática. Ao alto da página e descendo pela margem direita até quase ao fundo, a tinta castanha (a mesma cor da capa e de alguns caracteres do interior) podemos ler:

"Para que Constantino re-/
cuerde una mañana/
del/
Alcazar y/
a un/ buen/
amigo/

Joaquim/
Romero/
Murube"


Qualquer leitor que ame Sevilla e a recorde como uma experiência íntima, irrepetível, pode imaginar que a dedicatória lhe é dirigida. Mesmo que não tenha ainda picado o ponto de turista obediente no interior dos belíssimos Jardins do Alcazar. É o meu caso.

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