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sexta-feira, fevereiro 20, 2004

O pequeno prazer de ler maus livros 

Acabei de ler um péssimo livro e gostei. Não queria exagerar mas a leitura dos Contos Desportivos de Henrique Mota, que é um livro muito bem intencionado e por aí fica, não foi tempo perdido. Dá-me que pensar. Porque persistimos numa leitura que não nos entusiasma, que não nos preenche, à qual não reconhecemos qualidade? Por obrigação; por orgulho (ler é sempre vencer páginas); porque alimentamos a expectativa de que afinal a impressão geral seja positiva, quando virarmos a última página; porque não procuramos apenas grandes experiências (basta-nos saber que estamos a ler); porque temos curiosidade em conhecer e isso suplanta qualquer outro critério. Porque gostamos de ler um mau livro? Porque somos amigos do seu autor e a amizade perturba o nosso sentido crítico e suspende o nosso gosto; porque é tão mau que descobrimos com divertimento todos os mecanismos da escrita, porque prevemos o seu enredo logo aos primeiros indícios; por afinidade ideológica com o seu autor (é um autor autodidacta, merece que o seu livro seja lido, pelo menos por respeito ao homem, porque o autor foi perseguido, o livro proibido, o exemplo foi esquecido - não temos alibi...)
Algo disso se passou com esta leitura dos modestíssimos Contos Desportivos. Henrique Mota é um escritor autodidacta que aos nove anos veio morar para Almada. Tornou-se uma figura do concelho, pela actividade desportiva em que se envolveu, como atleta, como árbitro, como dirigente e como organizador de campeonatos, torneios e certames de todo o tipo. Para este homem simples, que escreveu no Jornal de Almada durante mais de três décadas, e publicou livros sobre os "Desportistas Almadenses", o desporto foi um veículo de emancipação cívica e moral, escola de virtudes. A figura do desportista, mesmo daquele que fracassa (e muitas das histórias são ingenuamente trágicas) deve revelar os valores humanistas no horizonte de uma sociedade mais justa. As suas histórias, de enredo mais que previsível, dividem-se entre as funestas, por maldade dos protagonistas ou por fatalismo, e as edificantes, com finais felizes e profusamente adjectivados. Em ambos os casos temos uma moralidade implícita. A das virtudes humanas que se revelam no esforço de superação e de emancipação, no obstáculo que se vence, na superação de si próprio que por vezes termina na própria morte do atleta.
Os textos são breves e lineares, a escrita ligeiramente afectada por um desvio que dá frequentemente construções despropositadamente solenes. Histórias de desportistas, ou supostamente inventadas ou acabando no registo mal disfarçado de uma ocorrência histórica. Mas como evitar alguma ternura pelo escritor proletário, ou proletário do desporto, que faz da escrita um acto de testemunho cívico, quase uma ética do esforço, da amizade e do merecimento, num mundo que visivelmente já não é o nosso?

Comments:
Olá a todos.
Vim comentar porque sou neta do irmão de Henrique Leonardo Dias Mota, Raimundo Leonardo Runa Mota.
Henrique Mota era o meu tio avô, infelizmente já não está entre nós...
O meu nome é Liliana Raquel Guerra Mota.
Gostei do que li em relação ao meu tio avô por isso resolvi comentar.

Obrigado.
 
Tenho e li este livro e gostei!
 
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