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sexta-feira, fevereiro 13, 2004

Nota de rodapé (1): o que é a leitura caótica? 

É um processo de leitura particularmente voraz em que o leitor se deixa conduzir nas suas escolhas sobretudo por impulsos e por uma urgência de ler, que se não fôr devidamente controlada poderá constituir paradoxalmente um obstáculo objectivo à leitura. A leitura caótica resulta primariamente de qualquer leitura, de cuja experiência se destacam referências temáticas, nomes de autores ou de outras obras concretas. O processo traduz-se numa multiplicação de leituras simultâneas, onde qualquer livro pode virtualmente levar à leitura de qualquer outro. O leitor que empreende este processo pode ser um leitor feliz, se souber controlar devidamente este carrossel de referências. A leitura única e sequencial das obras representa a opção contrária a este processo. Mas há muitos leitores sequenciais, dedicados exclusivamente a este processo de um só livro de cada vez e jurando-lhe fidelidade por toda uma vida de leitura regrada e contida, que mais tarde se tornam leitores caóticos entusiásticos.
Eu próprio já fui um estrito leitor sequencial, incapaz de partilhar a minha cama com mais de um livro de cada vez. Estranha monogamia de leitor escrupuloso, penso agora que me rendi a uma imoderada febre de ler. De certo modo o leitor caótico é empurrado pela sua má consciência de leitor irregular do passado. Quantas vezes a leitura renitente de um livro, às vezes penosa, que só o brio de leitor estritamente sequencial impede de abandonar, não constitui um obstáculo objectivo e duradouro ao prosseguimento de outras leituras?! Aconteceu frequentemente comigo, nos tempos em que não imaginava que seria um dia um leitor caótico. Ainda no mês passado, ou talvez em Dezembro, perdi por alguns dias o gosto pela leitura, ao mesmo tempo que tentava inventar fórmulas para reconquistar o apetite. Tinha começado a ler a Saga/ Fuga de J.B. de Gonzalo Torrente Ballester. Mas o livro, que o Manuel Pacífico me fez chegar numa edição portuguesa, da Publicações D. Quixote, com prefácio de José Saramago, é um labirinto. Como qualquer leitor mortal que sou, tenho de me preparar para entrar num labirinto com uma expectativa razoável de que posso sair dele com vida, metaforicamente falando. Neste caso percebi que não estava preparado para me perder incondicionalmente no livro e recuei para a entrada do labirinto. É daí que o contemplo agora, que optei por outras leituras mais seguras.

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