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terça-feira, fevereiro 24, 2004

A Lisboa do Eça 

Durante muitos anos habituei-me a ver a estátua do Eça, no largo do Barão de Quintela, entre o cais do Sodré e o Camões, obstinadamente vandalizada. O escritor sempre sereno e altivo, numa postura majestática, felizmente nada sofria da sanha nocturna dos passantes. Levemente reclinado, mais por deferência que pelo esforço que a cena não exige, o escritor segura delicadamente uma donzela nua (tinha que dizer assim), cujo corpo é coado por um véu. Os seus braços estão abertos, como quem se oferece sem resistir, as mãos abertas não vão agarrar nada. O corpo está levemente inclinado para a esquerda e para trás, por efeito do movimento do pescoço e da cabeça, o seu olhar dirige-se para o escritor que por sua vez a olha com cortesia, talvez até com gravidade.
Quem desce do Bairro Alto ou do Chiado, pela Rua do Alecrim, encontrará a estátua à sua direita. Entre palmeiras e no interior de uma ampla floreira, bem no centro da Lisboa queirosiana, muitos transeuntes apressados se deixam prender por aquela cena magnífica. Acontecia comigo e pelos vistos terá acontecido com muitos outros, que não resistiam a arrancar - literalmente - o braço esquerdo da figura feminina que dá ao conjunto um significado alegórico e uma atmosfera de irrealidade. Nada de excessivamente realista, porque pelos vistos a realidade é pouco verosímil. Aliás o conjunto é interpretado como uma representação escultórica daquele princípio queirosiano, verdadeiro axioma estético da sua obra, de acordo com o qual a literatura deve limitar-se a traduzir ou expressar a "nudez crua da verdade sob o manto diáfano da fantasia". Quantos braços de mão aberta e vazia haverá por aí, a servir de pisa papéis ou de encosto para livros?
Vem isto a propósito de uma fotografia do livro que a Adriana Branquinho me ofereceu há poucas semanas. Chama-se A Lisboa de Eça de Queiroz e é um belo livro/ albúm da escritora e olisipógrafa Marina Tavares Dias, com a chancela da Quimera. Reclama uma leitura panorâmica, porque os textos e as legendas são meras figuras de convite para apreciar um magnífico conjunto de imagens que nos revela a Lisboa dos livros e da vida de Eça de Queiroz. As fotos estão organizadas em capítulos, nomeadamente: a Cidade, o Rossio, o Chiado, do Passeio Público à Avenida da Liberdade, as Ruas, os Cafés, os Hotéis, os Espetáculos, os Jardins, os Arredores. Para além de uma introdução competentíssima, como é habitual na autora que deve ser a única estudiosa de Lisboa que vive disso e exclusivamente consagrada a isso, o livro inclui um texto de Eça, publicado sob a forma de folhetim na Gazeta de Portugal. Chama-se apenas Lisboa e foi escrito quando o escritor contava apenas 22 anos. É uma visão depurada e poetizada da cidade, escrita por quem acabaria por transformar Lisboa numa das mais fortes personagens dos seus romances.

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