<$BlogRSDURL$>

segunda-feira, fevereiro 23, 2004

Golpe de Estádio ou uma novela putrefacta 

Escrever bem, aquilo que se chama " escrever bem", não é uma virtude moral. Escrever mal não é um pecado. Por isso um mau escritor deve ser poupado a juízos de valor que não sejam juízos estritamente estéticos; só a crítica da obra, não do carácter do seu autor, que se entrevê pelas pregas abertas da obra desajeitada e mal cosida, deve merecer a nossa apreciação. Nada mais. É disso que falarei a propósito deste livro que decidi ler, independentemente da minha impressão inicial ou do preconceito prévio com que abordamos sempre os livros com que vamos passar um pouco do nosso tempo.
O Golpe de Estádio, de Marinho Neves, editado pela Terramar, apresenta-se aos leitores como "o romance da corrupção no futebol português". O autor é um jornalista do Porto, filho de um ex-futebolista do Boavista. O jornalismo desportivo acabaria por ser uma opção natural, já se vê. Escreveu no Norte Desportivo, na Gazeta dos Desportos, dando particular atenção à corrupção no desporto e em particular no futebol. Publicou reportagens de choque sobre a arbitragem e teve a sua parte de ameaças e de tentativas de agressão. Também terá tido os seus momentos de glória. Depois, não se sabe porquê, resolveu escrever um romance. A 1ª edição sai em Abril de 1996 e a 2ª no mês seguinte.
O livro procura ser, desde a primeira página, uma história trepidante de ascensão e queda de um personagem chamado João Seminário, auxiliado por Toni Balboa, um homem de mão, razoavelmente inteligente e notoriamente sem escrúpulos. A linguagem é tremendista e traduz o ambiente desvairado do futebol português, tal como ele é imaginado ou publicado, provavelmente tal como ele é na realidade.
Mas a obstinada busca de realismo do autor não ajuda à verosimilhança do enredo. Neste caso, quanto mais realista e crua, mais a história parece uma simples acumulação de situações estereotipadas que não se pode levar a sério. João Seminário é apenas um personagem de novela, mas a alusão é óbvia. Um homem modesto e ambicioso, sem fortuna pessoal, que toma um grande clube do norte de assalto. Já presidente, instala os seus protegidos nos lugares de confiança. Venal, aceita e pede favores, e estabelece uma teia de fidelidades e de interesses. Vive do futebol e do clube que dirige, minando tudo e todos, e espalhando nesse submundo uma poderosa teia de corrupção.
O enredo parece uma simples acumulação mecância de estratagemas, urdida por personagens que se deixam seduzir por mulheres da vida no bar de alterne, multiplicam e dilapidam dinheiro fácil, planeiam e executam negócios escuros, minam o carácter dos arbitros e dirigentes dos clubes, dominam os adeptos e aterrorizam os jornalistas. Com uma simplicidade que não necessita de explicação. O autor não constrói um enredo, povoado por personagens psicologicamente densas - apenas nos relata, pronto a ler e pronto a servir, um conjunto de peripécias encenadas por figuras estereotipadas, planas.
No final o "romance da corrupção no futebol português" acaba por representar uma certa forma de fazer literatura, nem sequer alimentícia, porque lhe falta a mais leve expressão do bom gosto. Frequentemente a escrita do autor não toca o mau gosto, ultrapassa-o largamente. A ideia é: se a realidade é como é, então o meu livro tem que expressar com fidelidade as vicissitudes de um mundo - o do futebol - onde não há moral nenhuma. Basicamente um mundo em decomposição. O autor termina o seu romance, relatando o triste fim de João Seminário. Escapa à justiça, mas não escapa ao capricho do autor que o mata assim, em grande estilo:
"Ao volante do seu BMW, Seminário recordava os bons velhos tempos quando, em simultâneo com o gritar de um golo de rádio, rebentou o pneu dianteiro do lado direito. O carro deu quatro piruetas e passou para o outro lado da via, onde foi trucidado por um TIR de uma companhia de circo. João Seminário não morreu logo. Esmagado entre o volante e o assento, ainda conseguiu dizer umas últimas palavras:
- Viva...
Mas não viveu. Morreu mesmo. E de vez.
Quando a ambulância chegou, incompreensivelmente, o corpo de João Seminário já estava num estado de decomposição bastante adiantado."

Para mim, que sou leitor e leitor com tempo, este livro parece, desde a primeira página, um romance putrefacto. E não é "incompreensivelmente". Percebe-se logo porquê.

Comments: Enviar um comentário