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segunda-feira, fevereiro 23, 2004

Eusébio, o leitor exímio 

Vem na Visão da passada quinta-feira, 19 de Fevereiro. É uma entrevista com Inês Sim-Sim, uma investigadora licenciada em Psicologia e doutorada pela Universidade de Boston, EUA, que desenvolve desde há 20 anos os seus estudos na área do ensino da leitura. Escreveu diversas obras onde enuncia o problema e ensaia propostas e soluções. Nomeadamente: "Desenvolvimento da Linguagem", "Como lêem as nossas crianças". Em breve sairá outro estudo, "Para a Compreensão das Dificuldades de Leitura da População Escolar Portuguesa". Dá aulas na Escola Superior de Educação de Lisboa e na Universidade Católica.
A autora é crítica das fórmulas adoptadas actualmente para o ensino da leitura. Considera que os "alunos não lêem porque não os ensinam", como declara à Visão. A aprendizagem da leitura não se pode limitar a uma técnica de acumulação de letras e sons, porque é sobretudo compreensão de um significado. Inês Si-Sim afirma que a escola acaba por defraudar as expectativas da criança que quer aprender a ler e investe nos primeiros meses de escolaridade muito do seu entusiasmo e desejo de descoberta. Sobretudo considera que as deficiências ao nível da competência de leitura das crianças e jovens em Portugal, já detectadas desde há quase duas décadas, não tiveram a resposta que mereciam. Nada se fez, em termos da política educativa, ao contrário de países como a Finlândia ou até os Estados Unidos, onde a identificação do problema determinou a tomada de medidas a longo prazo, no sentido de desenvolver as competências de leitura. A leitura é, o que aliás não constitui novidade, um instrumento para o sucesso em qualquer das outras áreas do saber. Um aluno que não "sabe ler", não interpreta devidamente a informação na disciplina de História, não compreende os enunciados dos problemas nas disciplinas científicas, e por aí adiante.
A entrevista que vale a pena ler, apesar de me parecer que identifica melhor o problema do que avança soluções fortes, está no último número da Visão. Preocupante, previsível e incontornável é o dado avançado na entrevista acerca das consequências da massificação do ensino, do ponto de vista dos docentes. O ensino da leitura também é determinado pelas aprendizagens dos professores, cuja função é essa mesma de ensinar a ler. De acordo com inquéritos realizados pela autora, cerca de 15% dos professores do 1º ciclo raramente lêem e apenas 35% o fazem com frequência. Para não falar das famílias, onde o panorama deverá ser semelhante ou pior.
Lembro-me de quando aprendi a ler. Da dificuldade de juntar as letras em sons inteligíveis, ainda antes de lhes extrair o sentido. A professora juntava os alunos por grupos, alinhados em frente ao quadro onde tinha escrito um pequeno texto. Creio que era à sexta-feira que realizava esse ritual de leitura, sempre penosa para mim. Essa primeira experiência de "leitura pública", em que confrontava as minhas dificuldades com outros leitores principiantes, de viva voz, provoca-me uma espécie de sofrimento físico. Ler exigia um esforço mental que quase me deixava febril. Parar de ler era um alívio que passei a identificar com o fim de semana e com o tempo livre para brincar. Por isso eu e os meus colegas, tal como a professora, ouvíamos com admiração a leitura rápida e fácil do Eusébio. Um rapaz modesto, mas com um talento especial para ler aquelas palavras manuscritas no quadro. Eusébio, de que só me lembro por essa admiração de sexta-feira à tarde, era um leitor exímio.

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