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terça-feira, fevereiro 17, 2004

Escrever na relva... 

Há muitos anos, talvez quando publicou o Triunfo da Morte, Augusto Abelaira inventou uma crónica no Jornal a que deu o nome sugestivo de Escrever na Relva. Era uma variante da crónica regular, que manteve durante imenso tempo, Escrever na Água. O gosto pelo futebol e o entusiasmo com o campeonato do Mundo que se jogava na altura (não me recordo onde), deu o pretexto para alguns textos de recorte fino e irónico, como era timbre do autor. Abelaira morreu recentemente e já não poderá entusiasmar-se com o "nosso" Europeu nem escreverá crónicas cheias de humor e humanidade, como costumava fazer.
A história é outra. Lembrei-me do Abelaira que vi pelo menos duas ou três vezes (uma delas num café do Campo Grande, junto ao Caleidoscópio, folheando um enorme dossier de arquivo com documentos) e também me recordo agora de uma fotografia de Mário Vargas Llosa, no tal mundial, sentado no seu posto de jornalista, onde fez de correspondente desportivo de não sei que jornal.
A história é outra. Desde o Verão passado que ando em busca de livros de ficção cujo enredo explore o tema do futebol, admitindo que se trata de um tema. Já li três livros, qualquer deles de grande qualidade, em géneros diferentes. O estranho livro de Peter Handke, A Angústia do Guarda-redes antes do penalty, da Relógio de Água, que nos faz mergulhar na vida sem sentido de um ex-guarda-redes. Tudo é uma espera sem transcendência e sem significado, cada acto e cada gesto são apenas isso e o homem mergulha a cada novo incidente num relativismo sem grandeza. Também li, com surpresa Morte no Estádio, de Francisco José Viegas, da Asa. Um romance policial carregado de melancolia, onde cada personagem se procura desvendar num cenário típico de mistério e intriga. O mistério maior, o grande enigma não está no assassinato de um jogador do Futebol Clube do Porto, que constitui apenas um grande pretexto, mas na encruzilhada em que cada um dos personagens se encontra. Finalmente li o mais bizarro de todos, um livrinho de Camilo José Cela, Onze Histórias de Futebol, que nos transporta violentamente para um mundo onde tudo é possível. O mito e a fábula concedendo à diatribe literária e à provocação. Um livro bizarro que representa toda a liberdade de que a literatura é capaz. Isto faz sentido?
Mas o que é que eu procuro? Um livro de Edilberto Coutinho, chamado Maracanâ Adeus - Onze histórias de futebol. Um clássico do género, composto por histórias sobre o mundo do futebol, tal como ele é vivido no Brasil. Publicado há anos pela Caminho, se não estou enganado, agora não se encontra em lado nenhum. Continuo à procura. Depois das Bibliotecas óbvias (Almada e Seixal), depois de uma tentativa junto da Caminho... talvez tente o colégio Bandeirantes. Quem sabe se isso não seria um bom pontapé de saída para uma ligação entre as nossas duas escolas? A ver...

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