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quinta-feira, fevereiro 19, 2004

Cruzamentos 

Ás vezes é difícil optar entre continuar a ler, caoticamente e sem freio, ou escrever sobre o dejá lido neste blogue de leituras que me exige cuidados diários. Agora vou escrever.
Recebi há poucas semanas, por correio, um pequeno livrinho das Edições Fluviais. É um livro de poesia: cruzamentos, de José Manuel Travado, um poeta e sociólogo natural do Cartaxo. A editora afectuosa da Sociedade Guilherme Cossul (Departamento Literário da Sociedade Guilherme Cossul, escreve-se assim por extenso) é dirigida pelo Alberto Augusto Miranda, com aquela mistura irresistível de generosidade, constância e loucura que ele sabe pôr naquilo que faz. Sou um leitor venal, por isso aprecio qualquer oferta de poesia ou prosa, de ensaio ou de qualquer outro género. Receber inesperadamente pelo correio, pura oferta de uma pequena editora perdulária, um livrinho como este, com uma qualidade gráfica que enternece, é um prazer superior. Quando o recebi, folheei-o como quem procura, cheirei-o, senti-lhe as texturas e depois li-o. Já recebi outros, porque as Edições Fluviais são como um rio lento que nunca se detém. Há muito tempo que não vejo o Alberto Augusto Miranda, mas esta oferta lembra-me que lhe devo muitas gentilezas, a ele que é um poeta, pianista, animador, prefaciador e cultor de amizades pouco frequentes como a minha.
cruzamentos: é um livro com poemas "quase" minimalistas, em ruptura com todo o discurso linear. Fala de caminhos e de cruzamentos, de viagens, fala do sul e do longe mas nunca sai para lá dos limites do viajante, quer dizer, do poeta, de si mesmo. Em epígrafe, José Manuel Torrado cita Ruy Belo: "e passam por nós dentro todos os caminhos". O livro está dividido em três cruzamentos e em cada um deles os poemas breves chocam como se procurassem passagem. O primeiro poema, fora de qualquer cruzamento, alude à "antiga voz primeira", "à palavra primordial", para nos deixar apenas com a voz actual do poeta, livre e "querendo versos dar".
Um poema:

DESEJO

das mãos tão dadas
dos fundos abraços
do adeus mavioso ao entardecer
apenas o clitoral acto

antes o excesso
o traço perfurante

a lâmina

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