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sexta-feira, fevereiro 13, 2004

Começo pelo fim... quer dizer pelo Apocalipse de S. João 

Nunca li a Bíblia em qualquer das modalidades que podemos conceber para a sua leitura. Ler a Bíblia não é o mesmo que ler um romance ou uma história policial... quem não sabe isso! Mas a verdade é que nunca me aventurei na leitura de um texto que é muitos textos e que coloca desafios tremendos a um leitor sem fé, como é o meu caso. Bom, serve isto para dizer que decidi começar pelo Apocalipse, que merece referências abundantes no livro de Cees Noteboom, cuja leitura terminei recentemente. Animado pelo processo da leitura caótica, que costumo adoptar em alturas de grande frenesim, passei directamente de um livro de viagens para as estranhas alegorias de S. João.
Escolhi duas edições distintas: a Bíblia Sagrada e Concordância, de João Ferreira de Almeida e a Bíblia Sagrada com tradução (segundo a Vulgata Latina) de António Pereira de Figueiredo. Voltarei a escrever sobre estas duas edições...
A história é simples: quando estava a começar a leitura tremenda (com uma banda sonora completamente alternativa, o José Menese num belíssimo tema de embalar), tocou o telemóvel e minutos depois a campainha da porta. Nada de mais se pensar no troar constante das trobetas que os anjos sopram gravemente e num fôlego sem interrupções, durante todo o episódio bíblico. Foi bom saltar do texto e saber que vinham aí colegas, para uma visita inesperada. O Pacífico, a Marina, a Bibiana, o Paulo Brás e a Maria de Jesus Bernardo. Mas também um grupo de alunos da João de Barros, com cara de caso. Depois de um primeiro momento de confusão (sobretudo minha...) encaminharam-se para a sala e começaram o ensaio. Ali estavam os Poetas & Trovadores preparados para cantar. Foi a primeira vez que recebi em casa um pequeno concerto de câmara, digamos, com coro. Aceitei aquela inesperada oferenda musical como um gesto de muita amizade dos colegas e alunos e só tenho pena que tivesse sido tão breve. Como todas as coisas francamente inesperadas, que não precisam em todo o caso de ser inverosímeis, depois de terminar o recital e de terem saído, pareceu-me que poderia muito bem ter imaginado toda a situação.
Eu acho que os Poetas & Trovadores (a princípio não gostava do nome, mas agora não imagino outro que lhes caia tão bem) transportam uma espécie de luz. E escrevo "transportam" porque a imagem que guardo das suas intervenções é a de músicos e trovadores que buscam o seu auditório, onde quer que ele se encontre, repetindo literalmente a errância dos primeiros trovadores da península. Chegam e cantam, agradecem a atenção como quem pede desculpa e continuam para qualquer outro lugar onde haja quem os ouça. É assim na escola, foi assim ao fim da manhã de ontem em minha casa. Presumo que a esta hora estarão na João de Barros a correr de uma pavilhão para outro, de aula para aula, para preencher com música, canto e poesia os silêncios da nossa rotina diária. Nós que apenas falamos no registo torpe das palavras e nos resignamos ao ruído, só podemos agradecer a estes inverosímeis amadores de música e de poesia que nos recordem que a voz pode ser música e a música pode ser poesia. Por isso digo que eles transportam uma espécie de luz (místicas aparte) e que essa luz não pode extinguir-se.
Hoje é "oficialmente" para nós o Dia dos Namorados. A JB apanhou esse pretexto já há anos e é sempre uma vertigem de rosas e de músicas que florescem durante todo o dia. Pela minha parte vou tentar retomar a leitura do Apocalipse de S. João, mas prometo que lerei também alguns dos mais belos poemas de amor de Safo.

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