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sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Caminhos e descaminhos para Santiago 

"UMA DAS POUCAS COISAS CONSTANTES NA MINHA VIDA é o meu amor, não é caso para dizer menos, pela Espanha. Mulheres e amigos desapareceram da minha vida, mas um país não se põe a andar tão facilmente. Quando, em 1953, com vinte anos, visitei a Itália pela primeira vez, pensava ter encontrado tudo o que de uma maneira inconsciente procurava. O brilho mediterrâneo teve o impacto de uma bomba, a vida toda um genial teatro público por entre as indiferentes peças de cenário de milhares de anos de grande arte. Cores, comidas, feiras, roupas, gestos, a língua, tudo parecia mais refinado, mais intenso e mais vivo do que no baixo delta nórdico de onde eu vinha, e deixei-me conquistar. Mais tarde, Espanha foi uma desilusão. Debaixo do mesmo sol mediterrâneo, a língua parecia áspera, a paisagem árida, a vida tosca. Não fluia, não era agradável, era velha e intocável de um modo obstinado, tinha de ser conquistada. Agora já não consigo pensar assim. A Itália continua a ser um encanto, mas tenho a sensação - é quase impossível falar destas coisas sem recorrer a uma terminologia esquisita, mística - que o carácter espanhol e a paisagem espanhola correspondem a uma essência minha, a coisas conscientes e inconscientes do meu ser, a quem eu sou. A Espanha é rude, anárquica, egocêntrica, cruel; a Espanha está disposta a pôr a corda ao pescoço por um absurdo, é caótica, sonhadora, irracional. Conquistou o mundo mas não soube o que fazer dele, agarra-se ao seu passado medieval, árabe, judeu e cristão, e jaz aí com as suas cidades teimosas aninhadas naquelas infinitas paisagens vazias, como um continente preso à Europa sem ser europeu. Quem só tiver dado as voltas obrigatórias, não conhece Espanha. Quem não tentou perder-se na complexidade labiríntica da sua história, não sabe por onde passa a viagem. É um amor para toda a vida, é um assombro sem fim."

Cees Nooteboom... quem acredita que este nome não é um pseudónimo ou uma charada alfabética? É um nome de um escritor neerlandês, consagrado no seu país e fora dele. "Noote" valeria por si, tratando-se de um escritor errante, de um escritor voador, holandês (já disse?), que regista com escrúpulo todas as incidências das suas viagens. "Boom" é uma palavra que vale pela semântica cósmica, pela ideia de começo, de explosão de energia, vale pelo som e pelo grafismo rotundo. Neste caso o carácter errático do escritor, que encara o grande mapa da península como uma página a escrever, linha a linha, rua a rua, substantivo a substantivo, monumento a monumento... é um programa de vida, um projecto literário, uma expressão idiossincrática. A longa citação inicial, com que abro a resenção ao livro, é uma página comovente, em que Cees Noteboom nos declara o seu compromisso. O amor a Espanha é uma questão do escritor consigo mesmo; a Itália "continua a ser um encanto", mas o "afaire" com "a paisagem espanhola corresponde a uma essência minha", escreve o autor nessa declaração. A "paisagem" mas também o resto que não se explica, porque seria preciso recorrer a uma "terminologia esquisita", à "mística".
Escolhi esta citação embaraçada porque... já se vê... me revejo nela com a ingenuidade de um leitor virginal. É isto mesmo, palavra por palavra, aquilo que sinto quando me debruço sobre o mapa da península a imaginar viagens, de nome para nome. Por um nome faria um desvio de muitos quilómetros. Tal como o autor escreve a dada altura da sua viagem caótica. Alosno... um dia passarei pela sua "calle real" (só eu sei porquê, mas não sei dizer); Esclavitud... é uma palavra terrível, mas gostaria de sentir o peso da canícula numa cidade com esse nome; Talavera de la Reina, onde apenas paro a caminho de Madrid, para refrigério (que esconderá a cidade, sob esse arabesco?); Puebla de Sanabria, Torrejón de Ardoz, Alcalá de Henares, ou o nome 'sisnistro' de Huércal-Overa.
O livro de Cees foi uma das leituras mais remuneradoras que fiz nos últimos meses. Devo-a a duas amigas - a Arminda Rodrigues e a Rosa Marques - que me deixaram esta vertigem de lugares.XXXXXXX

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