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sexta-feira, fevereiro 27, 2004

Ruy Belo aos 71 anos 

Nasceu em 1933 e morreu com 45 anos, em 1978. Como seria Ruy Belo hoje, se fosse vivo, aos 71 anos de idade? A pergunta é retórica, mais do que isso, até um poco tola. Um poeta que morre cedo não tem futuro. Não há "um" Ruy Belo de 46 anos como não há "um" Ruy Belo idoso, vergado pela idade e pela melancolia dos 71 anos.
Em Rio Maior, onde nasceu e viveu até aos 10 anos, houve homenagem. Exposição, leituras e recitais, serenatas.
O "meu" Ruy Belo é o de meia idade, comprometido pelo tempo e pela usura do quotidiano, perturbado pela queda do cabelo. O poeta da impossibilidade necessária, do Urogalo. A ave trágica que precisa de cantar para não morrer, mas que ao cantar atrai o caçador que lhe dá a morte.

Uma grande mesa em forma de vírgula 

Sou um devoto do canal Andalucia, do cabo. A cada um as suas bizarrias e pronto. O carnaval já acabou, mas a Páscoa e a Semana Santa estão à vista. E nisto o canal é imbatível, para o meu gosto. Passei uma parte do Entrudo a ver a exibição dos grupos do carnaval de Cádiz. É um espetáculo insuperável de vitalidade, alegria e humor inteligente. Dentro de semanas é o seu inverso, com as longas e penosas procissões das confrarias que se arrastam nas ruas estreitas das cidades andaluzas. Não faz "espiritualmente" o meu género, aquele espetáculo excessivo do martírio, de cuja autenticidade não suspeito, mas que dispenso. Acontece que gosto do ambiente, do excesso de símbolos e das referências, gosto do ambiente involuntariamente circense, gosto das cores e dos fatos...
Mas ontem estive até tarde a ver um inesperado programa sobre livros, de que não retive o nome. Um apresentador culto e com cara de boa pessoa, de quem apetece urgentemente ser amigo, que sabe conversar com os seus convidados sem os obscurecer com citações ou circunlóquios inconvenientes. Um convidado, um livro recém publicado e alguns leitores-espectadores escolhidos entre candidatos ao honroso lugar. Neste caso eram três três jovens: um actor-encenador de teatro de Sanlucar de Barrameda, um estudante universitário apresentado como leitor compulsivo (mas com sentido de humor) e uma licenciada em Filosofia. Três bons leitores que ajudaram com inteligência e sensibilidade à conversa com o escritor convidado.
Antonio Escohotado é um autor heterodoxo, inclassificável. Bom, tentemos: é professor de Direito, Filosofia e Sociologia em Madrid. É um especialista em drogas e substâncias proibidas, com inúmeras obras sobre o tema. É anti-proibicionista, mas as suas posições políticas situam-no ambiguamente no centro-direita, com um discurso algo perturbador sobre a política de emigração da Europa e do Ocidente em geral. Escreveu recentemente um livro bastante atípico, em resultado de uma viagem "sabática" ao Oriente: "Sesenta semanas en el Trópico", da Anagrama, onde desassombradamente, e num registo entre o sociológico de militância e o relato de viagens, reflecte sobre as causas da riqueza e da probreza nalguns países asiáticos que visitou e estudou.
De Escohotado só tenho o ensaio publicado pela Alianza Cien, "Las Drogas - de los orígenes a la prohibición". Um livrinho que li na íntegra, enquanto esperava que uma massa fervente de argila fizesse os seus efeitos terapêuticos sobre as minhas costas de penitente, já há anos. Na altura fiquei assombrado com as posições liberais e anti-probicionistas do autor, que considera que em todas as épocas as classes dominantes demonizam uma prática, uma classe determinada de fenómenos - seja a magia, na idade média, o próprio hábito da leitura, noutras épocas, agora o consumo de substâncias como as drogas. Escohotado é autor de uma monumental História das Drogas.
A conversa sobre o livro, e sobre tema tão fracturante, decorreu com extrema amenidade, com humor, mas sem concessões ao que é fácil e ao que é popular. Um consolo e um lenitivo para tanta televisão de merda.
Apreciei a mesa do programa; reparo sempre nas mesas que servem aos debates e acredito que uma boa mesa, criativa, concebida com talento, já faz parte do debate. Aquela mesa em forma de grande vírgula pareceu-me uma boa contribuição cénica para o bom ambiente do programa. Há anos, o escritor Francisco José Viegas moderava um programa de livros e afins, onde entre copos de vinho tinto, se falava de literatura. Os convidados e ele próprio equilibravam-se a uma divertida mesa ampla, altíssima, de onde pareciam em risco iminente de queda. Anos antes, a apresentadora e animadora de comunidades de leitores, a Paula Moura Pinheiro, moderou um programa de grande debate, com uma meia dúzia de convidados escolhidos a propósito. Cada um sentava-se numa peça inclassificável, algo entre o carrinho de choque e a carteira de escola primária. Alinhadas de frente para as câmeras, pareciam poder deslizar a qualquer momento pelo estúdio, como um fumarento carrinho de vendedor de castanhas. Num ameno talk-show da TVE, um entrevistador insinuante, intimista, dialoga com os seus convidados numa mesa mínima que não dá qualquer margem de recuo. Ali não há dissimulação possível. Mas num programa sobre literatura, da TF1, creio, o animador e os convidados, conversam sem atropelos num pequeno estúdio, sem mesa, sem mediações, cada um sentado confortavelmente no seu sofá. O espaço prolonga-se, por amplas janelas abertas à luz exterior, naquilo que parece ser uma paisagem naval ou portuária. Mais inconvencional ainda é o modo como decorre um programa cultural, sobre livros, sobre autores e o movimento editorial em Itália. Creio que passa ou passava há bem pouco tempo na RAI, Uno o Due... não sei dizer. O crítico consagrado, fluente e peripatético, e uma colaboradora sua, por vezes também um convidado, deambulavam interminavelmente, a passo lento, por uma praça monumental, pelo espaço aberto, entre transeuntes. O espectador acompanhava-os naturalmente também a passo lento, parando quando eles paravam para reforçar dramaticamente a intensidafde de uma ideia, de uma afirmação, retomando quando era preciso retirar daí consequências ou mudar de registo. Segui-os muitas vezes, encantado com a musicalidade do idioma, mas mais pelo gosto e pelo prazer visível que a erudição também pode propiciar. Etc, etc...

quinta-feira, fevereiro 26, 2004

Olá Maracanã 

Já tenho em casa o livro de Edilberto Coutinho, publicado em Portugal pela Caminho, com data de Agosto de 1984. Estava à minha espera no balcão de atendimento da Biblioteca do Fórum do Seixal, onde a Drª Vera Silva o deixou alguns dias antes. Já andei a dar "uns toques" e parece-me prosa substanciosa, experimental, que reclama uma leitura qualificada, enfim aquilo a que se chama uma boa leitura de jogo. São onze contos de estrutura muito distinta, que exigem do leitor uma boa condição física. E num português que tem pouco que ver com a nossa escrita corrente, numa prosa acrobática. Brasileiro mesmo. Pode ser um bom exercício para os leitores das nossas Leituras Imprevistas V... Depois de algumas coisas penduradas (o Kant, o Apocalipse... e agora a Inês Pedrosa) vou entrar em campo e driblar como puder cada um dos contos de Edilberto Coutinho.
Uma nota curiosa: este livro esteve adormecido na estante da Biblioteca mais de 4 anos. No final deste exemplar há uma ficha de registo de entregas, um lembrete para o leitor distraído. A última vez que a obra foi devolvida terá sido a 5 de Novembro de 1999. Eu sou o seu segundo leitor. Glória nenhuma.

terça-feira, fevereiro 24, 2004

Sevilla en los Labios... e na memória 

O livro é belíssimo enquanto objecto. O editor trabalhou bem quando escolheu os detalhes. Refiro-me a uma curiosidade bibliográfica (sem grande valor comercial) que comprei em outubro de 1994 no meu alfarrabista da Rua do Alecrim, ao Chiado. Costumava passar por lá regularmente e trazia sempre alguma coisa, um avio pequeno que raramente ultrapassava os dois mil escudos, e frequentemente muito menos. Este livro custou-me 580$00, ou seja cerca de 2,90 €.
Sevilla en los Labios, de Joaquím Romero Murube tem o carimbo do Editor LUIS MIRACLE de Barcelona. É um livro particularmente bem cuidado, com capa de tecido castanho, muito fino e letras gravadas em dourado. Uma imagem simplificada da Giralda, o título e o nome do autor são tudo o que podemos encontrar aí. Impresso em papel amarelado de boa gramagem, o corpo de texto vem a negro, com os títulos, legendas e efígies em castanho vivo. No interior encontramos doze gravuras em papel de grande qualidade, a preto e branco. Todo o livro revela um cuidado primoroso na composição, na escolha dos caracteres e na impressão. Terá sido publicado em 1938, o que o situa nos anos mais duros da Guerra Civil que terminou no ano seguinte. Curiosamente os textos passam completamente ao lado desse acontecimento. Mas esse silêncio ruidoso é rompido uma vez, não sem alguma falta de pudor para um livro de culto a uma cidade, quando o autor dá vivas a Franco e à nova Espanha que se anunciava. O leitor olha à volta, surpreendido por aquele desvario no meio da prosa tão contida e conceptual, troca olhares com outros leitores e não percebe. Mas isso não é relevante. Mesmo uma virtuosa e casta declaração de amor a uma cidade, como é o caso do livro de Romero Murube, admite este tipo de desvarios.
É preciso dizer que a prosa é relativamente datada, portanto dispensável. Mas o conjunto acaba por revelar algum encanto. Romero Murube conhece bem a sua cidade e sabe ultrapassar os óbvios lugares comuns que se escrevem e dizem sobre Sevilha. Escreve sobre os lugares e os ambientes, começando com um texto sobre la Puerta de la Carne. Passa pelo testemunho de alguns autores que escreveram sobre a cidade; Lord Byron, Teófilo Gautier, Paul Morand. Teoriza sobre o baile andaluz, num longo capítulo; recorda ardentemente a vida breve e a poesia de Bécquer; perde-se nos labirintos dos jardins e dos hortos de Sevilha; Ignacio Sánchez Mejías é apenas uma das personagens de que trata o perfil, com amizade e sem pormenores irrelevantes. Demora-se com visível entusiasmo na descrição da Semana Santa. Nestes textos atinge o seu estilo mais depurado e costumbrista, de propensão abstractizante e espiritualizada. Aqui o leitor laico, que ama Sevilha mas que não acredita na sua origem divina, que prescinde dos sinais exteriores da paixão com que alguns falam dela, manifesta algum incómodo. Felizmente o livro termina antes dos primeiros sinais de enfado.
Mas este exemplar revelou-me um segredo que a minha compra e algumas visitas desinteressadas à obra não revelaram. No capítulo 5, Los Jardines, onde o autor escreve sobre os jardins do Alcazar encontrei uma nota manuscrita com letra enigmática. Ao alto da página e descendo pela margem direita até quase ao fundo, a tinta castanha (a mesma cor da capa e de alguns caracteres do interior) podemos ler:

"Para que Constantino re-/
cuerde una mañana/
del/
Alcazar y/
a un/ buen/
amigo/

Joaquim/
Romero/
Murube"


Qualquer leitor que ame Sevilla e a recorde como uma experiência íntima, irrepetível, pode imaginar que a dedicatória lhe é dirigida. Mesmo que não tenha ainda picado o ponto de turista obediente no interior dos belíssimos Jardins do Alcazar. É o meu caso.

A Lisboa do Eça 

Durante muitos anos habituei-me a ver a estátua do Eça, no largo do Barão de Quintela, entre o cais do Sodré e o Camões, obstinadamente vandalizada. O escritor sempre sereno e altivo, numa postura majestática, felizmente nada sofria da sanha nocturna dos passantes. Levemente reclinado, mais por deferência que pelo esforço que a cena não exige, o escritor segura delicadamente uma donzela nua (tinha que dizer assim), cujo corpo é coado por um véu. Os seus braços estão abertos, como quem se oferece sem resistir, as mãos abertas não vão agarrar nada. O corpo está levemente inclinado para a esquerda e para trás, por efeito do movimento do pescoço e da cabeça, o seu olhar dirige-se para o escritor que por sua vez a olha com cortesia, talvez até com gravidade.
Quem desce do Bairro Alto ou do Chiado, pela Rua do Alecrim, encontrará a estátua à sua direita. Entre palmeiras e no interior de uma ampla floreira, bem no centro da Lisboa queirosiana, muitos transeuntes apressados se deixam prender por aquela cena magnífica. Acontecia comigo e pelos vistos terá acontecido com muitos outros, que não resistiam a arrancar - literalmente - o braço esquerdo da figura feminina que dá ao conjunto um significado alegórico e uma atmosfera de irrealidade. Nada de excessivamente realista, porque pelos vistos a realidade é pouco verosímil. Aliás o conjunto é interpretado como uma representação escultórica daquele princípio queirosiano, verdadeiro axioma estético da sua obra, de acordo com o qual a literatura deve limitar-se a traduzir ou expressar a "nudez crua da verdade sob o manto diáfano da fantasia". Quantos braços de mão aberta e vazia haverá por aí, a servir de pisa papéis ou de encosto para livros?
Vem isto a propósito de uma fotografia do livro que a Adriana Branquinho me ofereceu há poucas semanas. Chama-se A Lisboa de Eça de Queiroz e é um belo livro/ albúm da escritora e olisipógrafa Marina Tavares Dias, com a chancela da Quimera. Reclama uma leitura panorâmica, porque os textos e as legendas são meras figuras de convite para apreciar um magnífico conjunto de imagens que nos revela a Lisboa dos livros e da vida de Eça de Queiroz. As fotos estão organizadas em capítulos, nomeadamente: a Cidade, o Rossio, o Chiado, do Passeio Público à Avenida da Liberdade, as Ruas, os Cafés, os Hotéis, os Espetáculos, os Jardins, os Arredores. Para além de uma introdução competentíssima, como é habitual na autora que deve ser a única estudiosa de Lisboa que vive disso e exclusivamente consagrada a isso, o livro inclui um texto de Eça, publicado sob a forma de folhetim na Gazeta de Portugal. Chama-se apenas Lisboa e foi escrito quando o escritor contava apenas 22 anos. É uma visão depurada e poetizada da cidade, escrita por quem acabaria por transformar Lisboa numa das mais fortes personagens dos seus romances.

segunda-feira, fevereiro 23, 2004

Golpe de Estádio ou uma novela putrefacta 

Escrever bem, aquilo que se chama " escrever bem", não é uma virtude moral. Escrever mal não é um pecado. Por isso um mau escritor deve ser poupado a juízos de valor que não sejam juízos estritamente estéticos; só a crítica da obra, não do carácter do seu autor, que se entrevê pelas pregas abertas da obra desajeitada e mal cosida, deve merecer a nossa apreciação. Nada mais. É disso que falarei a propósito deste livro que decidi ler, independentemente da minha impressão inicial ou do preconceito prévio com que abordamos sempre os livros com que vamos passar um pouco do nosso tempo.
O Golpe de Estádio, de Marinho Neves, editado pela Terramar, apresenta-se aos leitores como "o romance da corrupção no futebol português". O autor é um jornalista do Porto, filho de um ex-futebolista do Boavista. O jornalismo desportivo acabaria por ser uma opção natural, já se vê. Escreveu no Norte Desportivo, na Gazeta dos Desportos, dando particular atenção à corrupção no desporto e em particular no futebol. Publicou reportagens de choque sobre a arbitragem e teve a sua parte de ameaças e de tentativas de agressão. Também terá tido os seus momentos de glória. Depois, não se sabe porquê, resolveu escrever um romance. A 1ª edição sai em Abril de 1996 e a 2ª no mês seguinte.
O livro procura ser, desde a primeira página, uma história trepidante de ascensão e queda de um personagem chamado João Seminário, auxiliado por Toni Balboa, um homem de mão, razoavelmente inteligente e notoriamente sem escrúpulos. A linguagem é tremendista e traduz o ambiente desvairado do futebol português, tal como ele é imaginado ou publicado, provavelmente tal como ele é na realidade.
Mas a obstinada busca de realismo do autor não ajuda à verosimilhança do enredo. Neste caso, quanto mais realista e crua, mais a história parece uma simples acumulação de situações estereotipadas que não se pode levar a sério. João Seminário é apenas um personagem de novela, mas a alusão é óbvia. Um homem modesto e ambicioso, sem fortuna pessoal, que toma um grande clube do norte de assalto. Já presidente, instala os seus protegidos nos lugares de confiança. Venal, aceita e pede favores, e estabelece uma teia de fidelidades e de interesses. Vive do futebol e do clube que dirige, minando tudo e todos, e espalhando nesse submundo uma poderosa teia de corrupção.
O enredo parece uma simples acumulação mecância de estratagemas, urdida por personagens que se deixam seduzir por mulheres da vida no bar de alterne, multiplicam e dilapidam dinheiro fácil, planeiam e executam negócios escuros, minam o carácter dos arbitros e dirigentes dos clubes, dominam os adeptos e aterrorizam os jornalistas. Com uma simplicidade que não necessita de explicação. O autor não constrói um enredo, povoado por personagens psicologicamente densas - apenas nos relata, pronto a ler e pronto a servir, um conjunto de peripécias encenadas por figuras estereotipadas, planas.
No final o "romance da corrupção no futebol português" acaba por representar uma certa forma de fazer literatura, nem sequer alimentícia, porque lhe falta a mais leve expressão do bom gosto. Frequentemente a escrita do autor não toca o mau gosto, ultrapassa-o largamente. A ideia é: se a realidade é como é, então o meu livro tem que expressar com fidelidade as vicissitudes de um mundo - o do futebol - onde não há moral nenhuma. Basicamente um mundo em decomposição. O autor termina o seu romance, relatando o triste fim de João Seminário. Escapa à justiça, mas não escapa ao capricho do autor que o mata assim, em grande estilo:
"Ao volante do seu BMW, Seminário recordava os bons velhos tempos quando, em simultâneo com o gritar de um golo de rádio, rebentou o pneu dianteiro do lado direito. O carro deu quatro piruetas e passou para o outro lado da via, onde foi trucidado por um TIR de uma companhia de circo. João Seminário não morreu logo. Esmagado entre o volante e o assento, ainda conseguiu dizer umas últimas palavras:
- Viva...
Mas não viveu. Morreu mesmo. E de vez.
Quando a ambulância chegou, incompreensivelmente, o corpo de João Seminário já estava num estado de decomposição bastante adiantado."

Para mim, que sou leitor e leitor com tempo, este livro parece, desde a primeira página, um romance putrefacto. E não é "incompreensivelmente". Percebe-se logo porquê.

Eusébio, o leitor exímio 

Vem na Visão da passada quinta-feira, 19 de Fevereiro. É uma entrevista com Inês Sim-Sim, uma investigadora licenciada em Psicologia e doutorada pela Universidade de Boston, EUA, que desenvolve desde há 20 anos os seus estudos na área do ensino da leitura. Escreveu diversas obras onde enuncia o problema e ensaia propostas e soluções. Nomeadamente: "Desenvolvimento da Linguagem", "Como lêem as nossas crianças". Em breve sairá outro estudo, "Para a Compreensão das Dificuldades de Leitura da População Escolar Portuguesa". Dá aulas na Escola Superior de Educação de Lisboa e na Universidade Católica.
A autora é crítica das fórmulas adoptadas actualmente para o ensino da leitura. Considera que os "alunos não lêem porque não os ensinam", como declara à Visão. A aprendizagem da leitura não se pode limitar a uma técnica de acumulação de letras e sons, porque é sobretudo compreensão de um significado. Inês Si-Sim afirma que a escola acaba por defraudar as expectativas da criança que quer aprender a ler e investe nos primeiros meses de escolaridade muito do seu entusiasmo e desejo de descoberta. Sobretudo considera que as deficiências ao nível da competência de leitura das crianças e jovens em Portugal, já detectadas desde há quase duas décadas, não tiveram a resposta que mereciam. Nada se fez, em termos da política educativa, ao contrário de países como a Finlândia ou até os Estados Unidos, onde a identificação do problema determinou a tomada de medidas a longo prazo, no sentido de desenvolver as competências de leitura. A leitura é, o que aliás não constitui novidade, um instrumento para o sucesso em qualquer das outras áreas do saber. Um aluno que não "sabe ler", não interpreta devidamente a informação na disciplina de História, não compreende os enunciados dos problemas nas disciplinas científicas, e por aí adiante.
A entrevista que vale a pena ler, apesar de me parecer que identifica melhor o problema do que avança soluções fortes, está no último número da Visão. Preocupante, previsível e incontornável é o dado avançado na entrevista acerca das consequências da massificação do ensino, do ponto de vista dos docentes. O ensino da leitura também é determinado pelas aprendizagens dos professores, cuja função é essa mesma de ensinar a ler. De acordo com inquéritos realizados pela autora, cerca de 15% dos professores do 1º ciclo raramente lêem e apenas 35% o fazem com frequência. Para não falar das famílias, onde o panorama deverá ser semelhante ou pior.
Lembro-me de quando aprendi a ler. Da dificuldade de juntar as letras em sons inteligíveis, ainda antes de lhes extrair o sentido. A professora juntava os alunos por grupos, alinhados em frente ao quadro onde tinha escrito um pequeno texto. Creio que era à sexta-feira que realizava esse ritual de leitura, sempre penosa para mim. Essa primeira experiência de "leitura pública", em que confrontava as minhas dificuldades com outros leitores principiantes, de viva voz, provoca-me uma espécie de sofrimento físico. Ler exigia um esforço mental que quase me deixava febril. Parar de ler era um alívio que passei a identificar com o fim de semana e com o tempo livre para brincar. Por isso eu e os meus colegas, tal como a professora, ouvíamos com admiração a leitura rápida e fácil do Eusébio. Um rapaz modesto, mas com um talento especial para ler aquelas palavras manuscritas no quadro. Eusébio, de que só me lembro por essa admiração de sexta-feira à tarde, era um leitor exímio.

A Brincar, a brincar... 

Finalmente o programa do Marco António, o nosso ex-aluno mais mediático, já passa em canal aberto. Quem tiver o canal África já pode ver todos os sábados, em directo do estúdio velhinho da Alameda das Linhas de Torres, entre as 11.00 e as 13.00, o programa "infantil-juvenil-e-para-adultos" que ele apreesenta sem rede. Eu que já assisti em directo e ao vivo posso garantir que são duas horas de vertigem, no fio da navalha, com meios modestos e num estúdio de pequenas dimensões. Cada sábado trata-se um tema, oferecem-se livros, fala-se em directo com crianças e adultos que vivem emigrados (da França à Austrália, passando por qualquer outro país que possamos imaginar), recebem-se convidados e brinca-se do princípio ao fim. Há sempre animais, uma parte de ciência e outra de magia, a cargo dos MadCientistas. E depois também há o Zezé, um boneco de palavra fácil que se enamora de todas as convidadas que aparecem em estúdio e adora chocolates. O boneco e a actriz que criou esse personagem, a Susana João, já passaram pela Feira do Livro InterEscolar na João de Barros, em Novembro passado. E as crianças que assistem e participam no programa percebem perfeitamente a mensagem. Brincam do princípio ao fim, como se estivessem num sotão secreto cheio de brinquedos e de aviões de papel pelo ar.
O Marco falou hoje para dizer que a segunda série já começou e em breve vão mudar para um estúdio maior. Boas notícias. O tema do próximo sábado será o centenário do Benfica, com convidados ilustres. Sábado, das 11.00 às 13.00 no canal África.

sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Caminhos e descaminhos para Santiago 

"UMA DAS POUCAS COISAS CONSTANTES NA MINHA VIDA é o meu amor, não é caso para dizer menos, pela Espanha. Mulheres e amigos desapareceram da minha vida, mas um país não se põe a andar tão facilmente. Quando, em 1953, com vinte anos, visitei a Itália pela primeira vez, pensava ter encontrado tudo o que de uma maneira inconsciente procurava. O brilho mediterrâneo teve o impacto de uma bomba, a vida toda um genial teatro público por entre as indiferentes peças de cenário de milhares de anos de grande arte. Cores, comidas, feiras, roupas, gestos, a língua, tudo parecia mais refinado, mais intenso e mais vivo do que no baixo delta nórdico de onde eu vinha, e deixei-me conquistar. Mais tarde, Espanha foi uma desilusão. Debaixo do mesmo sol mediterrâneo, a língua parecia áspera, a paisagem árida, a vida tosca. Não fluia, não era agradável, era velha e intocável de um modo obstinado, tinha de ser conquistada. Agora já não consigo pensar assim. A Itália continua a ser um encanto, mas tenho a sensação - é quase impossível falar destas coisas sem recorrer a uma terminologia esquisita, mística - que o carácter espanhol e a paisagem espanhola correspondem a uma essência minha, a coisas conscientes e inconscientes do meu ser, a quem eu sou. A Espanha é rude, anárquica, egocêntrica, cruel; a Espanha está disposta a pôr a corda ao pescoço por um absurdo, é caótica, sonhadora, irracional. Conquistou o mundo mas não soube o que fazer dele, agarra-se ao seu passado medieval, árabe, judeu e cristão, e jaz aí com as suas cidades teimosas aninhadas naquelas infinitas paisagens vazias, como um continente preso à Europa sem ser europeu. Quem só tiver dado as voltas obrigatórias, não conhece Espanha. Quem não tentou perder-se na complexidade labiríntica da sua história, não sabe por onde passa a viagem. É um amor para toda a vida, é um assombro sem fim."

Cees Nooteboom... quem acredita que este nome não é um pseudónimo ou uma charada alfabética? É um nome de um escritor neerlandês, consagrado no seu país e fora dele. "Noote" valeria por si, tratando-se de um escritor errante, de um escritor voador, holandês (já disse?), que regista com escrúpulo todas as incidências das suas viagens. "Boom" é uma palavra que vale pela semântica cósmica, pela ideia de começo, de explosão de energia, vale pelo som e pelo grafismo rotundo. Neste caso o carácter errático do escritor, que encara o grande mapa da península como uma página a escrever, linha a linha, rua a rua, substantivo a substantivo, monumento a monumento... é um programa de vida, um projecto literário, uma expressão idiossincrática. A longa citação inicial, com que abro a resenção ao livro, é uma página comovente, em que Cees Noteboom nos declara o seu compromisso. O amor a Espanha é uma questão do escritor consigo mesmo; a Itália "continua a ser um encanto", mas o "afaire" com "a paisagem espanhola corresponde a uma essência minha", escreve o autor nessa declaração. A "paisagem" mas também o resto que não se explica, porque seria preciso recorrer a uma "terminologia esquisita", à "mística".
Escolhi esta citação embaraçada porque... já se vê... me revejo nela com a ingenuidade de um leitor virginal. É isto mesmo, palavra por palavra, aquilo que sinto quando me debruço sobre o mapa da península a imaginar viagens, de nome para nome. Por um nome faria um desvio de muitos quilómetros. Tal como o autor escreve a dada altura da sua viagem caótica. Alosno... um dia passarei pela sua "calle real" (só eu sei porquê, mas não sei dizer); Esclavitud... é uma palavra terrível, mas gostaria de sentir o peso da canícula numa cidade com esse nome; Talavera de la Reina, onde apenas paro a caminho de Madrid, para refrigério (que esconderá a cidade, sob esse arabesco?); Puebla de Sanabria, Torrejón de Ardoz, Alcalá de Henares, ou o nome 'sisnistro' de Huércal-Overa.
O livro de Cees foi uma das leituras mais remuneradoras que fiz nos últimos meses. Devo-a a duas amigas - a Arminda Rodrigues e a Rosa Marques - que me deixaram esta vertigem de lugares.XXXXXXX

Maracanâ à vista 

Finalmente já dei com um exemplar do livro de Edilberto Coutinho, o Maracanâ Adeus. Enviei uma mensagem electrónica à Drª Vera Silva a expôr o meu transe e poucos minutos depois de reforçar por telefone o apelo desesperado, recebi a confirmação. "Habemos liber", não sei se o latim está correcto. Há um exemplar na Biblioteca do Fórum do Seixal, já está reservado e na próxima semana passarei por lá para o requisitar. Depois veremos se o livro serve para as Leituras Imprevistas. Entretanto continuo mergulhado em leituras desportivas enquanto o Apocalipse espera.

O pequeno prazer de ler maus livros 

Acabei de ler um péssimo livro e gostei. Não queria exagerar mas a leitura dos Contos Desportivos de Henrique Mota, que é um livro muito bem intencionado e por aí fica, não foi tempo perdido. Dá-me que pensar. Porque persistimos numa leitura que não nos entusiasma, que não nos preenche, à qual não reconhecemos qualidade? Por obrigação; por orgulho (ler é sempre vencer páginas); porque alimentamos a expectativa de que afinal a impressão geral seja positiva, quando virarmos a última página; porque não procuramos apenas grandes experiências (basta-nos saber que estamos a ler); porque temos curiosidade em conhecer e isso suplanta qualquer outro critério. Porque gostamos de ler um mau livro? Porque somos amigos do seu autor e a amizade perturba o nosso sentido crítico e suspende o nosso gosto; porque é tão mau que descobrimos com divertimento todos os mecanismos da escrita, porque prevemos o seu enredo logo aos primeiros indícios; por afinidade ideológica com o seu autor (é um autor autodidacta, merece que o seu livro seja lido, pelo menos por respeito ao homem, porque o autor foi perseguido, o livro proibido, o exemplo foi esquecido - não temos alibi...)
Algo disso se passou com esta leitura dos modestíssimos Contos Desportivos. Henrique Mota é um escritor autodidacta que aos nove anos veio morar para Almada. Tornou-se uma figura do concelho, pela actividade desportiva em que se envolveu, como atleta, como árbitro, como dirigente e como organizador de campeonatos, torneios e certames de todo o tipo. Para este homem simples, que escreveu no Jornal de Almada durante mais de três décadas, e publicou livros sobre os "Desportistas Almadenses", o desporto foi um veículo de emancipação cívica e moral, escola de virtudes. A figura do desportista, mesmo daquele que fracassa (e muitas das histórias são ingenuamente trágicas) deve revelar os valores humanistas no horizonte de uma sociedade mais justa. As suas histórias, de enredo mais que previsível, dividem-se entre as funestas, por maldade dos protagonistas ou por fatalismo, e as edificantes, com finais felizes e profusamente adjectivados. Em ambos os casos temos uma moralidade implícita. A das virtudes humanas que se revelam no esforço de superação e de emancipação, no obstáculo que se vence, na superação de si próprio que por vezes termina na própria morte do atleta.
Os textos são breves e lineares, a escrita ligeiramente afectada por um desvio que dá frequentemente construções despropositadamente solenes. Histórias de desportistas, ou supostamente inventadas ou acabando no registo mal disfarçado de uma ocorrência histórica. Mas como evitar alguma ternura pelo escritor proletário, ou proletário do desporto, que faz da escrita um acto de testemunho cívico, quase uma ética do esforço, da amizade e do merecimento, num mundo que visivelmente já não é o nosso?

quinta-feira, fevereiro 19, 2004

Cruzamentos 

Ás vezes é difícil optar entre continuar a ler, caoticamente e sem freio, ou escrever sobre o dejá lido neste blogue de leituras que me exige cuidados diários. Agora vou escrever.
Recebi há poucas semanas, por correio, um pequeno livrinho das Edições Fluviais. É um livro de poesia: cruzamentos, de José Manuel Travado, um poeta e sociólogo natural do Cartaxo. A editora afectuosa da Sociedade Guilherme Cossul (Departamento Literário da Sociedade Guilherme Cossul, escreve-se assim por extenso) é dirigida pelo Alberto Augusto Miranda, com aquela mistura irresistível de generosidade, constância e loucura que ele sabe pôr naquilo que faz. Sou um leitor venal, por isso aprecio qualquer oferta de poesia ou prosa, de ensaio ou de qualquer outro género. Receber inesperadamente pelo correio, pura oferta de uma pequena editora perdulária, um livrinho como este, com uma qualidade gráfica que enternece, é um prazer superior. Quando o recebi, folheei-o como quem procura, cheirei-o, senti-lhe as texturas e depois li-o. Já recebi outros, porque as Edições Fluviais são como um rio lento que nunca se detém. Há muito tempo que não vejo o Alberto Augusto Miranda, mas esta oferta lembra-me que lhe devo muitas gentilezas, a ele que é um poeta, pianista, animador, prefaciador e cultor de amizades pouco frequentes como a minha.
cruzamentos: é um livro com poemas "quase" minimalistas, em ruptura com todo o discurso linear. Fala de caminhos e de cruzamentos, de viagens, fala do sul e do longe mas nunca sai para lá dos limites do viajante, quer dizer, do poeta, de si mesmo. Em epígrafe, José Manuel Torrado cita Ruy Belo: "e passam por nós dentro todos os caminhos". O livro está dividido em três cruzamentos e em cada um deles os poemas breves chocam como se procurassem passagem. O primeiro poema, fora de qualquer cruzamento, alude à "antiga voz primeira", "à palavra primordial", para nos deixar apenas com a voz actual do poeta, livre e "querendo versos dar".
Um poema:

DESEJO

das mãos tão dadas
dos fundos abraços
do adeus mavioso ao entardecer
apenas o clitoral acto

antes o excesso
o traço perfurante

a lâmina

"Nunca mais eu chego ao Porto... 

... se lá fôr por este andar/ em meu peito escreve torto,/ na minh'alma a dar a dar./ Tinta verde dos teus olhos..." E assim por diante. Vem o desvario lírico a propósito de ter recebido ontem da colega Fernanda Lourenço um postal do Porto. Enviado de cá, é certo, mas com sotaque do Porto e trocando devidamente os "vv" pelos "bb". Adoro esse sotaque em que as sílabas finais das palavras são meio cantadas. A Fernanda e a Arminda (e quem mais?) foram em visita de estudo ao Porto com os seus alunos, ler a cidade com os olhos de quem conhece bem a escrita do tempo. Espero notícias mais detalhadas dessa visita à Invicta.
Nunca visitei o Porto com a demora que a cidade merece. Passei por lá uma meia dúzia de vezes, fui ao Bolhão, andei pela zona comercial, passeei por um jardim indefinido numa pausa do Caminho de Santiago, bebi um cimbalinho, fui lá receber dois prémios do Correio de JB e pouco mais. Se calhar por má consciência, por não ter dedicado ainda à cidade o tempo que as grandes cidades reclamam, comprei ontem na FNAC de Almada o Porto.Ficção, da ASA e da sociedade Porto 2001. É um livro de contos de autores tão diferentes como Agustina, Lídia Jorge, Luísa Costa Gomes, Mia Couto, Nelida Piñon, Pepetela... Mas não é leitura para já.

terça-feira, fevereiro 17, 2004

Mais futebol 

Passei esta tarde pela Biblioteca do Fórum Romeu Correia, fiz o cartão de utilizador (quase sem burocracia e sem papéis) e subi penosamente pela rampa até à sala de leitura. Já lá tinha estado de manhã em busca de livros sobre futebol. Recolhi as sugestões que meia dúzia (ou mais) de bibliotecas escolares me enviaram para o endereço da BME e lá fui à procura. Encontraram-me quatro livros, requisitei três. O livro de Camilo José Cela ficou. Selvagens e Sentimentais - Histórias do Futebol, de Javier Marías, que consiste numa colecção de crónicas sobre o tema, na perspectiva do adepto do Real Madrid. A leitura promete, o escritor é excelente e alia a paixão do adepto à urbanidade do homem de letras. Depois, dois livros "locais", para usar uma palavra simpática. Contos Desportivos, de Henrique Mota, publicado em 1986 pela cidade de Almada. Consiste num conjunto de histórias sobre o desporto, onde pontuam diversos personagens divididos entre a realidade e a ficção. O terceiro livro intitula-se Golpe de Estádio e é da autoria do jornalista Marinho Neves, com a chancela da Terramar. Trata-se de uma ficção acerca da "corrupção no futebol português", que parece fundar as suas raízes nas investigações do autor enquanto jornalista de investigação.
Não veio desta vez mas tenciono requisitar depois: A Tribo do Futebol, de Desmond Morris, livro-albúm famoso pela análise antropológica a que submete as práticas grupais dos adeptos de futebol e dos seus executantes.
Em todo o caso ainda continuo atrás do livro de Edilberto Coutinho. Encontrar um exemplar deste livro, ao fim de uma busca pertinaz, será como meter um golo depois de um drible.

Escrever na relva... 

Há muitos anos, talvez quando publicou o Triunfo da Morte, Augusto Abelaira inventou uma crónica no Jornal a que deu o nome sugestivo de Escrever na Relva. Era uma variante da crónica regular, que manteve durante imenso tempo, Escrever na Água. O gosto pelo futebol e o entusiasmo com o campeonato do Mundo que se jogava na altura (não me recordo onde), deu o pretexto para alguns textos de recorte fino e irónico, como era timbre do autor. Abelaira morreu recentemente e já não poderá entusiasmar-se com o "nosso" Europeu nem escreverá crónicas cheias de humor e humanidade, como costumava fazer.
A história é outra. Lembrei-me do Abelaira que vi pelo menos duas ou três vezes (uma delas num café do Campo Grande, junto ao Caleidoscópio, folheando um enorme dossier de arquivo com documentos) e também me recordo agora de uma fotografia de Mário Vargas Llosa, no tal mundial, sentado no seu posto de jornalista, onde fez de correspondente desportivo de não sei que jornal.
A história é outra. Desde o Verão passado que ando em busca de livros de ficção cujo enredo explore o tema do futebol, admitindo que se trata de um tema. Já li três livros, qualquer deles de grande qualidade, em géneros diferentes. O estranho livro de Peter Handke, A Angústia do Guarda-redes antes do penalty, da Relógio de Água, que nos faz mergulhar na vida sem sentido de um ex-guarda-redes. Tudo é uma espera sem transcendência e sem significado, cada acto e cada gesto são apenas isso e o homem mergulha a cada novo incidente num relativismo sem grandeza. Também li, com surpresa Morte no Estádio, de Francisco José Viegas, da Asa. Um romance policial carregado de melancolia, onde cada personagem se procura desvendar num cenário típico de mistério e intriga. O mistério maior, o grande enigma não está no assassinato de um jogador do Futebol Clube do Porto, que constitui apenas um grande pretexto, mas na encruzilhada em que cada um dos personagens se encontra. Finalmente li o mais bizarro de todos, um livrinho de Camilo José Cela, Onze Histórias de Futebol, que nos transporta violentamente para um mundo onde tudo é possível. O mito e a fábula concedendo à diatribe literária e à provocação. Um livro bizarro que representa toda a liberdade de que a literatura é capaz. Isto faz sentido?
Mas o que é que eu procuro? Um livro de Edilberto Coutinho, chamado Maracanâ Adeus - Onze histórias de futebol. Um clássico do género, composto por histórias sobre o mundo do futebol, tal como ele é vivido no Brasil. Publicado há anos pela Caminho, se não estou enganado, agora não se encontra em lado nenhum. Continuo à procura. Depois das Bibliotecas óbvias (Almada e Seixal), depois de uma tentativa junto da Caminho... talvez tente o colégio Bandeirantes. Quem sabe se isso não seria um bom pontapé de saída para uma ligação entre as nossas duas escolas? A ver...

sexta-feira, fevereiro 13, 2004

Uma rosa, muitas rosas, todas as rosas 

A palavra "rosa" é um tópico poético relativamente óbvio. Mas alguns poetas maiores sabem fazer-nos sentir o odor de todas as flores que nomeiam... "Púrpura do jardim, pompa do prado/ gema da primavera, olho de abril..."
Num belíssimo texto de O Fazedor (El Hacedor), Jorge Luís Borges inventa a morte de um velho poeta, proclamado no seu tempo como o novo Homero e o novo Dante. O homem, "cumulado de anos e de glória", morria num "amplo leito espanhol de colunas lavradas". Perto de si, uma mulher tinha colocado num copo uma rosa amarela. Toda a sua obra, vasta e irrepetível, jazia num recanto do quarto onde recriava solenemente "uma penumbra de ouro". Mas só depois de toda a obra composta, já no leito de morte, perdidas todas as ilusões da literatura, o homem viu a rosa "tal como Adão a viu no Paraíso", fora das palavras e da linguagem, longe de todos os signos. As palavras nomeiam e desde esse momento encontram-se irremediavelmente entre nós e as coisas que são nomeadas. Ver uma rosa antes de ela ter sido nomeada pela primeira vez, por exemplo no Paraíso, onde todas as coisas existiram antes de terem um nome que as substituisse na nossa percepção delas, é como uma revelação. Mesmo um grande poeta, como o moribundo Giambattista Marino, pode ter de esperar pelo despojamento que a proximidade da morte nos ensina, para alcançar essa grande revelação. Vivemos como sonâmbulos entre os objectos, entre as coisas, e o que é pior, entre os outros. Vivemos como cegos que apenas tocam a superfície irrelevante do mundo que habitam.
Mas uma oferta trasporta sempre mais do que o valor material e substancial do que é oferecido. Quando se oferece uma rosa, oferece-se sempre mais do que a rosa. Aliás, a rosa não passa de um pretexto, de um signo ocasional. Quando nos oferecem uma rosa deveremos perguntar: "O que é que me estão a oferecer?" Hoje ofereceram-me rosas, muitas rosas, todas as rosas. E de algum modo também as recebi com a mesma surpresa do poeta no seu leito, como se nunca tivesse visto rosas, como se não soubesse nomeá-las e isso fosse definitivo.
Sei porque me deram estas rosas, julgo sabê-lo e isso basta-me. Não preciso de explicar porquê, porque a explicação não interessaria a ninguém. Cheiro uma rosa, e outra e outra ainda, e descubro que não há duas iguais.
Quero agradecer e digo-o por extenso: às colegas do pavilhão A, à Teresa, à Edite, à Apolónia, à Beatriz, à Zé e à Gabriela, que me ofereceram uma rosa que embriaga como o vinho. De todas as colegas funcionárias recebi outra rosa que parece irmã da primeira. Da Judite Cunha e da Hermínia Domingues, que todos os anos repetem na João de Barros este admirável milagre das rosas, recebi três flores que parecem uma vertigem. Agradeço o cuidado e também agradeço as outras rosas com destinatário certo a cada ano que passa. E as rosas que a Margarida Rodrigues e a Lucília Achando me trouxeram, em nome da equipa da Biblioteca... cinco rosas que parece que me olham quando as olho, ainda com incredulidade.
Imagino que os sentimentos confusos, as ideias de uma impossível plenitude, e um certo despojamento voluntário de que nos vamos dando conta em certos momentos, são algumas das formas por que somos felizes. O cheiro das rosas e o silêncio que se segue ao fim da leitura de um poema devem ser partes de que se faz a felicidade. Pelo menos aquela por que esperamos, que merecemos.

Nota de rodapé (1): o que é a leitura caótica? 

É um processo de leitura particularmente voraz em que o leitor se deixa conduzir nas suas escolhas sobretudo por impulsos e por uma urgência de ler, que se não fôr devidamente controlada poderá constituir paradoxalmente um obstáculo objectivo à leitura. A leitura caótica resulta primariamente de qualquer leitura, de cuja experiência se destacam referências temáticas, nomes de autores ou de outras obras concretas. O processo traduz-se numa multiplicação de leituras simultâneas, onde qualquer livro pode virtualmente levar à leitura de qualquer outro. O leitor que empreende este processo pode ser um leitor feliz, se souber controlar devidamente este carrossel de referências. A leitura única e sequencial das obras representa a opção contrária a este processo. Mas há muitos leitores sequenciais, dedicados exclusivamente a este processo de um só livro de cada vez e jurando-lhe fidelidade por toda uma vida de leitura regrada e contida, que mais tarde se tornam leitores caóticos entusiásticos.
Eu próprio já fui um estrito leitor sequencial, incapaz de partilhar a minha cama com mais de um livro de cada vez. Estranha monogamia de leitor escrupuloso, penso agora que me rendi a uma imoderada febre de ler. De certo modo o leitor caótico é empurrado pela sua má consciência de leitor irregular do passado. Quantas vezes a leitura renitente de um livro, às vezes penosa, que só o brio de leitor estritamente sequencial impede de abandonar, não constitui um obstáculo objectivo e duradouro ao prosseguimento de outras leituras?! Aconteceu frequentemente comigo, nos tempos em que não imaginava que seria um dia um leitor caótico. Ainda no mês passado, ou talvez em Dezembro, perdi por alguns dias o gosto pela leitura, ao mesmo tempo que tentava inventar fórmulas para reconquistar o apetite. Tinha começado a ler a Saga/ Fuga de J.B. de Gonzalo Torrente Ballester. Mas o livro, que o Manuel Pacífico me fez chegar numa edição portuguesa, da Publicações D. Quixote, com prefácio de José Saramago, é um labirinto. Como qualquer leitor mortal que sou, tenho de me preparar para entrar num labirinto com uma expectativa razoável de que posso sair dele com vida, metaforicamente falando. Neste caso percebi que não estava preparado para me perder incondicionalmente no livro e recuei para a entrada do labirinto. É daí que o contemplo agora, que optei por outras leituras mais seguras.

Começo pelo fim... quer dizer pelo Apocalipse de S. João 

Nunca li a Bíblia em qualquer das modalidades que podemos conceber para a sua leitura. Ler a Bíblia não é o mesmo que ler um romance ou uma história policial... quem não sabe isso! Mas a verdade é que nunca me aventurei na leitura de um texto que é muitos textos e que coloca desafios tremendos a um leitor sem fé, como é o meu caso. Bom, serve isto para dizer que decidi começar pelo Apocalipse, que merece referências abundantes no livro de Cees Noteboom, cuja leitura terminei recentemente. Animado pelo processo da leitura caótica, que costumo adoptar em alturas de grande frenesim, passei directamente de um livro de viagens para as estranhas alegorias de S. João.
Escolhi duas edições distintas: a Bíblia Sagrada e Concordância, de João Ferreira de Almeida e a Bíblia Sagrada com tradução (segundo a Vulgata Latina) de António Pereira de Figueiredo. Voltarei a escrever sobre estas duas edições...
A história é simples: quando estava a começar a leitura tremenda (com uma banda sonora completamente alternativa, o José Menese num belíssimo tema de embalar), tocou o telemóvel e minutos depois a campainha da porta. Nada de mais se pensar no troar constante das trobetas que os anjos sopram gravemente e num fôlego sem interrupções, durante todo o episódio bíblico. Foi bom saltar do texto e saber que vinham aí colegas, para uma visita inesperada. O Pacífico, a Marina, a Bibiana, o Paulo Brás e a Maria de Jesus Bernardo. Mas também um grupo de alunos da João de Barros, com cara de caso. Depois de um primeiro momento de confusão (sobretudo minha...) encaminharam-se para a sala e começaram o ensaio. Ali estavam os Poetas & Trovadores preparados para cantar. Foi a primeira vez que recebi em casa um pequeno concerto de câmara, digamos, com coro. Aceitei aquela inesperada oferenda musical como um gesto de muita amizade dos colegas e alunos e só tenho pena que tivesse sido tão breve. Como todas as coisas francamente inesperadas, que não precisam em todo o caso de ser inverosímeis, depois de terminar o recital e de terem saído, pareceu-me que poderia muito bem ter imaginado toda a situação.
Eu acho que os Poetas & Trovadores (a princípio não gostava do nome, mas agora não imagino outro que lhes caia tão bem) transportam uma espécie de luz. E escrevo "transportam" porque a imagem que guardo das suas intervenções é a de músicos e trovadores que buscam o seu auditório, onde quer que ele se encontre, repetindo literalmente a errância dos primeiros trovadores da península. Chegam e cantam, agradecem a atenção como quem pede desculpa e continuam para qualquer outro lugar onde haja quem os ouça. É assim na escola, foi assim ao fim da manhã de ontem em minha casa. Presumo que a esta hora estarão na João de Barros a correr de uma pavilhão para outro, de aula para aula, para preencher com música, canto e poesia os silêncios da nossa rotina diária. Nós que apenas falamos no registo torpe das palavras e nos resignamos ao ruído, só podemos agradecer a estes inverosímeis amadores de música e de poesia que nos recordem que a voz pode ser música e a música pode ser poesia. Por isso digo que eles transportam uma espécie de luz (místicas aparte) e que essa luz não pode extinguir-se.
Hoje é "oficialmente" para nós o Dia dos Namorados. A JB apanhou esse pretexto já há anos e é sempre uma vertigem de rosas e de músicas que florescem durante todo o dia. Pela minha parte vou tentar retomar a leitura do Apocalipse de S. João, mas prometo que lerei também alguns dos mais belos poemas de amor de Safo.