<$BlogRSDURL$>

sábado, novembro 12, 2005

Amniótico 

Dar banho é bom; recebê-lo, com cuidado e precaução, é ainda melhor. O primeiro banho, da primeira vez aqui, foi uma experiência inesperada. Uma fantasia enérgica, dada com água morna, bem cheirosa, de que me não esqueço. Uma espiral de energia, de água derramada sobre os membros, o rosto, os abdómen e logo a seguir uma toalha quase áspera que não deixava emm paz. O quarto iluminado comm muita luz solar e uma equipa que parecia estar a fazer o melhor trabalho do mundo, quase me atordoou naquela cama da UCI. Hoje é diferente, nalguns pormenores. O banho assistido é diário. A força é nula. É logo pela manhã. De novo a água tépida a deslizar por todos os veios do corpo. O rosto e o côncavo dos olhos, o cabelo , depois o pescoço e o tronco emagrecido. Lavagem e limpeza, atenta a todos os pormenores do corpo e do ânimo, com uma eficiência que não exclui uma infinita delicadeza. Cuidado, subtileza, entrega e eficácia são as marcas diárias do meu banho. Uma experiência ameniótica, quase erótica.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Memória da Adriana 



Uma fotografia de Adriana com as primeiras folhas de Outono escorrendo as primeiras gotas de chuva desta estação. A frescura de dilúvio delicado e consentido, as gotas simples da água caindo para o chão e perdendo-se, são um lenitivo para o braseiro que me toma desde dentro. Obrigado à amiga Adriana.

quinta-feira, novembro 03, 2005

Humildade 

As lições de humildade que tenho "levado para casa" nestas últimas semanas, meses poucos, têm sido em catadupa. E tipo goleada, do tipo: "Vai buscar!" Ao contrário da gratidão, que é um sentimento insustentável, antinatural, a humildade é o sinal de que contamos com as forças dos outros frequentemente mais do que com as nossas próprias fraquezas. Nada a a acrescentar. É assim.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Livros não lidos, coisas 



Quando voltar a casa vou pôr os livros na ordem. Já está planeado há muito. O móvel novo, depois de estar em condições, receberá as memórias, as biografias, as homenagens, as autobiografias, epistilografias, ideias políticas dispensáveis e géneros periféricos. Até lá é como o longo "dia do patrão fora, dia santo na loja".

Depois há o direito de não ler. Com tábua explícita dos direitos do não leitor. Para além deste direito, amplamente reclamado e de que muitos são useiros sem sequer terem lido o livrinho de Daniel Pennac, - "Como um Romance" - também deve haver o "medo de ler", o "pudor de ler", o "escrúpulo da leitura", o "tédio de ler"... etc. Encontro-me, de momento, como já avisei, na parte do tédio. Tenho comprado livros, através daquele maravilhoso sistema que nós trás o livro embrulhado no jornal até às mãos, muitas vezes antes de imaginarmos sequer que o livro existia, mas quanto a ler... nada. Nem uma linha.

A colecção de policiais do Público está a terminar e hoje recebi já o penúltimo. Metade estão lidos, os outros repousam para melhor ocasião. Os filmes de Hitchcock, que são um DVD mascarado de livrinho, também chegam regularmente mas nem o facto de ser leitura breve e de poder ver o filme no portátil, me dá grande vontade. Os dois tomos do Quixote, na edição de Aquilino, re-editada pelo Público, ou os fascículos da edição da mesma obra, no Expresso, traduzida por Serras Pereira e ilustrada por Júlio Pomar, também repousam para outro dia. Os livros de BD, bem esses são do Miguel. Guardo-os no quarto, lá mais para o Verão.

Os meus cafés [5]: o Arcadas, que é alcunha, no fio do vento 



O Café "Arcadas", e "Arcadas" é alcunha, já disse, porque não me consigo lembrar nunca do nome verdadeiro que deve ser bem pior que este, é um pequeno Café de Bolso. Fica no topo de uma calçada comercial, paralela à estrada, na esquina redonda de um troço de lojas e comércios de pequeno fôlego [cabeleireira, Pub, roupa, loja de Informática entre outras] com pretensões a galeria exterior. Antes era um de três cafés de bolso, num pequeno arco de 30 metros. Agora, se não estou enganado, sobrevivem dois e o das "Arcadas" é o mais simpático deles. Pelo menos é o primeiro que encontro, no topo das escadas, vindo de baixo, ou na curva da calçada, quando venho de casa a bater com a bengala desnecessariamente no chão.

O dono, toda a família [à excepção da funcionária, alta e magra, que pertence a outra raça], são uma espécie de habitantes da Terra Média, criaturas laboriosas e cordias, tal como as inventadas pelo Tolkien. De pequena estatura, girando de um lado para o outros sem movimentos demasiados, cuidando do seu cliente combalido e de hábitos "morigerados". Falamos pouco, praticamente apenas o essencial e alguma que outra resposta a alguma pergunta ociosa. Também consumo sempre o mesmo e a minha frequência é irregular, por vezes quase de cliente em fuga. Uma meia, como é hábito, algum café, nos dias de calor uma coca-cola, um bolo para enganar a fome.



Mas gosto do "Arcadas", apesar de uma certa tibieza do lugar, como se pode ver nas fotos. Prefiro a esplanada, ao interior banal e acanhado com mesas em cima de cadeiras ou vice-versa. Encosto-me a uma das colunas, disponho as minhas coisas sobre a mesa, ajeito a bengala e peço. Li muito naquele lugar. Jornais mas também livros, nem me recordo quais. Sei que lá li os Evangelhos, mas agora trabalhava já nas actividades da escola e lia coisas de trabalho.

O sol evito-o, quando não de outro modo, escondendo-me atrás da pedra da coluna. O vento fresco quase sempre é agradável. Quando ultrapassa o que deve saio para o interior, vou-me embora a tiritar.



A fórmula de Einstein fez anos. O jornal falou disso e fez uma festa. Nesse dia passei pelo "Arcadas" e estive por lá num bom dia de sol e vento. Mal posso esperar pelo momento de me sentar de novo ao sol, ou evitando-o atrás da coluna, para pedir então em apoteose de regresso inesperado: "Uma meia de leite e uma tosta mista, ou uma torrada barrada com manteiga; por favor!"

Macau, desde o 12º andar com vista para o delta das Pérolas 

Eram oito horas e picos, oito e meia, dezasseis e trinta. Tarde calma. Como não há televisão o Miguel lia o Tintim, que levou aos quilos. Silêncio em fundo, como sempre. Um silêncio de 12º andar sobre o ruído constante da rua. Lá em baixo o parque com as máquinas fantásticas que não são do professor Hoffman [!], o Caravela onde se bebe bom café, se come comida portuguesa e se leva para casa, para lá disso o rio. E lá em cima aquele silêncio de prédio grande. Uma tarde calma. O Miguel com a voz embargada pela constipação, depois do almoço de bitoque. Todos bem, tudo vai bem. Apenas tudo é demasiado caro. É sempre demasiado caro, nunca como se diz.

E o Tintim em chinês, vendido na loja ao lado do Caravela, quanto custará?

terça-feira, novembro 01, 2005

Buffet internacional, cabeça de borrego no forno, bacalhau à braz, batido de morango, etc 

Parece um desvario, parece que a fantasia já não obedece a regras, nem a precedências, nem olha às estações. Alguma vez obedeceu, alguma vez 'olhou', alguma vez teve juízo? Um atropelo de palavras, frases, imagens e descrições minuciosas. Tudo a jogar na minha cabeça, mas sem fazer sentido na cabeça dos outros. Tenho passado o meu tempo a lembrar estas coisas. A tal salada de tomate, de tomate carnudo e sumarento, que termina num caldo de vinagre; a verdadeira salva de peixe frito para quatro, com salada de alface, numa praia da costa de Cádiz [um hino de frescura e de boa comida]; a inesperada cabeça de borrego no forno, bem tostada sob um naco de gordura, com um olho ressequido que também deve saber bem a quem come com gosto; bacalhau à braz e à Gomes de Sá, quem foi que falou nisto? E que mais? Costeletas de borrego com ovo mexido e batatas fritas, uma refeição ligeira como seriam os calamares com uma salada e arroz de manteiga, ajudados pela cerveja ou pela limonada. E o buffet do pequeno almoço, no Savoy ou no outro hotel: batido de morando ou de baunilha, acompanhado de torradinhas e fatias de ovos com mel; depois os pudins ou o leite creme, de chocolate e de baunilha. Creio que estaria bem. Não?

O Prazer do Vómito 

Tiraram-me um dos poucos prazeres que ainda tinha, aqui nesta cama. O prazer de vomitar. Não digo isto para ser tremendista, mas porque nas últimas semanas apurei a técnica em cerca de uma centena de vezes que passei pela experiência. Nada do espasmo penoso e contra-natura, que parece que nos sufoca e leva à morte, quando entramos nesse transe. Pelo contrário. Uma libertação que deixa o organismo em equilíbrio e o ânimo aberto ao mundo. Quando o vómito respondia a essa necessidade de harmonia, depois sentia-me como novo. Por vezes apenas água, só água. Jorrava uma inesperada onda de frescura, ao contrário do ciclo, água bebida momentos antes, ainda fresca. Nos últimos dias o vómito era um pouco menos espontâneo e era preciso forçá-lo e lutar para que prosseguisse até ao seu final. Deixar um vómito a meio é um asco. O resultado material disso era um bojudo saco azul pendurado na mesa de cabeceira todas as manhãs. Ainda lá está o último, mistura diabólica que o estômago não quer.

O Terramoto 

Se não estivesse aqui teria dado atenção ao terramoto de há 250 anos, precisamente. Mas o não-acontecinento passou-me completamente ao lado. Posso mesmo dizer que, depois de ter iludido a possibilidade de comemorar no bloco, entre mecanismos de terror e esperança que cortam, rasgam, abrem, penetram, remendam, cosem e fecham o padecente corpo humano, trémulo de tanta fraqueza, o meu dia do terramoto passou sem que eu visse passar diante dos olhos qualquer imagem. Nada de imagens. Apenas o repicar de sinos na televisão distante, lá no corredor. Só isso e chega.

Macau, mon amour... 

Tenho escrito pouco sobre isso; tenho recebido notícias de lá, tranquilizadoras, de uma vida de se normaliza num mundo que é diferente deste em muita coisa. O Miguel está fascinado com os estranhos equipamentos do parque para o exercício físico, mesmo frente ao bloco de apartamentos em que vivem. Muito procurados pelas pessoas que frequentam o jardim, inscrevem-se naquela filosofia geral oriental de compor uma boa unidade entre corpo e espírito. Ali cuida-se do corpo. Ele adora. E mais detalhes deliciosos sobre as rotinas, os nomes dos cafés, dos restaurantes, o mercado, os preços e a dolorosa constatação de que afinal tudo é caro. E ainda falta saber tanta coisa. Para outro dia.

Agora o fino sabor do limão 

Agora penso no fino, fresco, saudável sabor a limão. Procuro esse sabor que ressuma frescura e profundidade de gelo, nos refrigerentes, na limonada, mas não o encontro. Ainda não tive aqui a opulência de frescura e sabor de um verdadeiro limão cortado ao meio, sangrando o seu sumo que não poupa o palato, que o cura da sede.

sábado, outubro 29, 2005

Tudo por um Gaspacho gelado e saturado de vinagre 



Agora, apenas isto. Depois, provavelmente já outra coisa. Mas que ninguém me tire o prazer, real ou muito imaginado, de comer bons pedaços de tomate bem cortdo à medida da boca, tomate vivo, vivaz e vermelhão, ungido do azeite e mergulhado no vinagrete. E depois, contra todas as regras, sorver a mistela final; água saturada de vinagre, azeite, oregãos perdidos a flutuar e grainhas de tomate em suspensão. Na mais completa clandestinidade.


quarta-feira, outubro 26, 2005

Contraste e o odor do café 

Fui a exame, de novo. Quando saímos daqui, deitados na cama, de costas sobre um colchão que desliza, saímos subitamente desta zona reservada e entramos na agitação do secretariado e da sala de espera. Num momento, um mundo ignorado revela-se sem surpresa. Vistos naquela posição de um faraó que repousa para a eternidade, de costas para baixo e vendo deslizar o que parece o mundo sobre os olhos, as pessoas parecem figurantes ali colocads para a nossa passagem. Falam, agitam-se, gesticulam, parecem ocupadas desde muito antes de irrompermos por ali naquele trono deslizante. E assim continuarão um pouco mais, depois de passarmos a outros corredores, com outros figurantes ocupados sempre em fazer qualquer coisa que vai para além de nós. Passamos por lugares vazios, onde só uma máquina de café nos conforta. Segundos depois já nada ficou do agradável odor do café que penetrámos. E mesmo agora só a memória.

Bolo de Arroz, última à direita 


Para chegar ao Bolo de Arroz, disse-me o enfermeiro simpático, com uma ponta de irreprimível nostalgia na voz, quem vem do Leal Senado, é a ùltima transversal à direita. Mesmo antes de sair da praça, à direita do prédio amarelo de arcadas brancas. Também me disse que a Star Buck [!] instalou lá uma loja de café, mas esplanadas parece que não. O Bolo de Arroz é um café português, de portugueses onde se encontram regularmente... para beber café português [já agora].

Viveu lá durante cinco anos, regressou ao nosso rectângulo em 2000. Adora aquele território e por isso fartou-se a tempo. Macau é, nas suas palavras, o lugar onde tudo a contece a toda a hora. Intenso e vivo, onde se pode comer um bom shop sui pelas 5.30 da manhã, porque apetece, num dos muitos restaurantes abertos de madrugada para os jogadores dos casinos.

Quem me fala de Macau fala sempre no passado; fala daquele território como um sonho frágil e trémulo, mas irreprimivelmente real, que permanece ainda como uma promessa. Há qualquer coisa, também, de um leve ressentimento, porque foi um lugar onde se foi intensamente feliz noutro tempo.

Delírio, louvor, receituário de moelas e caracoletas 




O Papinha Feita é o Blogue Oficial da Confraria da Papinha Feita; um grupo de amantes da boa cozinha, como é costume dizer-se. Lavram, de cada repasto, de cada banquete, copiosas actas cujo estilo pretensamente pomposo e abstracto, formal e seco, não esconde um profundo gosto pelo encontro fraterno, pela amizade, pela comida partilhada com os amigos. Aqui deixo o endereço do blogue para uma visita de fazer crescer água na boca.

E uma história mais triste, que não é trágica. Trata-se de um post, de um blogue de homossexuais, atento também à boa mesa, na tradição hedonista que lhes corresponde. É um pequeno episódio envolvendo uma história infeliz com caracoletas, quando se tratou de pagá-las. Também custa. Só isto.




Agora faltam-nos as receitas. Uma busca rápida dá-nos um punhado delas. A começar por esta receita de caracoletas, com tomate fresco sem grainhas, presunto e piri-piri. Muito sofisticada, na parte do presunto, mas ainda assim uma tentação.

Uma receita mais simples, esta: Caracoletas com Manteiga de Alho, escrita num português de trocar os rr pelos ll... e de arrepiar os cabelos. Mas a menção da manteiga e do alho desculpa o erro.

As duas primeiras entradas que encontrei no sítio das Receitas de Petiscos
dão-nos uma receita simples de caracóis e uma receita de caracoletas assadas. Com um magnífico molho de alho e colorau. A imagem da caracoleta assada, ressequida levemente pelo calor da assadura, pintada de molho picante escorrente, tem-me perseguido nestes últimos dias.


Receita de Caracoletas escondidas é um exercício requintado sobre caracoletas, em que elas parecem constituir apenas um pretexto. O autor é um tal Alfredo Hervías y Mendizábal, natural de Madrid, e coordena a equipa de cozinheiros do restaurante Xtoril Café, no Casino do Estoril. Mas é preciso comer muito para chegar à caracoleta escondida sob o pão de forma e a massa deliciosaq que o cozinheiro criou para o efeito.

Outra receita com requinte, estes Caracóis à La Bourguignonne. Prova-se que caracóis e caracoletas não são incompatíveis com alta cozinha. Para mim são realmente alta cozinha. Estes vão ao forno e devem ser servidos imediatamente.





As moelas também merecem uma boa obsessão, não tão intensa é certo, mas uma obsessão bem percutida que estimule continuamente o palato até à dormência. É o caso desta receita de moelas, com três grandes tomates bem maduros, picadinhos num refugado. É uma receita básica, mas que deixa a promessa do prazer de um petisco. Uma citação, um divertissement, algo que apenas começa e não termina. Vale a pena, claro.

Para quem queira descobrir um petisco, fazer uma festa de surpresa, aqui fica, a terminar, um sítio que é, verdadeiramente, um portal dos petiscos. Agora é escolher.

Marnie; o thriller psicológico de Hitchcock 

Foi o primeiro filme que vi completamente em DVD no computador. E foi absorvente. Apesar do incómodo da posição, de estar deitado, um pouco de lado para a acção, vi o filme com imensa absorção. É o velho problema do mal no homem. Não há fronteiras, só sombras e duplicidade.

Perguntas, respostas à distância [com Vivaldi em fundo] 

Vivaldi ouve-se na cama em frente, do meu camarada de quarto, que toma o pequeno almoço com um invejável entusiasmo. Eu invejo-lhe isso e o Vivaldi. Come com uma sofisticação da fome, não tanto do gosto, que me surpreende. E ouve o Vivaldi. E vai sair dentro de horas, para casa, para regressar mais tarde, numa rotina estabelecida de tratamentos. E chora agora no telemóvel que acabei de lhe passar para a mão, por não lhe poder chegar.

Eu acabei de escrever umas mensagens para Macau. Interessa-me saber de tudo, como é natural. Saber das pequenas e grandes rotinas, dos horários para saber o quanto diferimos todos os dias. Saber se há café, a que sabe, quanto custa; se há um café onde se possa estar, esquecido, fora do mundo, a ler o jornal. Se há cafés perto de casa, na praça do Leal Senado. E os jornais, como são, a quanto se vendem, qual é o melhor. Compras qual? etc. A Livraria Portuguesa é pobre e muito careira, segundo parece. Mas o que é que tem? Os livros andam por que valores? É uma Livraria com iniciativas, segundo creio. É lá que se encontram os portugueses? E os colegas? E o Instituto, como é? Bem equipado? E a Escola Portuguesa, merece o que dizem dela? E o cinema para portugueses, onde é que há? E a casa como está? Etc., etc...

O Miguel pediu-me no último mail: "manda-me respostas." Vou ver o que é que há aqui.

domingo, outubro 23, 2005

Macau, Praça do Leal Senado [15.20 - 8.20] 



O fio de voz atravessa vários continentes, e pelo meio mais um subcontinente que deixa escorrer uma lágrima no Índico, e perde-se invariavelmente nesta imensidão. Tem sido assim sempre que falamos por telefone, que é, nestes tempos, afinal a forma mais inverosímil de falar de tão longe para tão longe. Há outras, mas todas elas envolvem mais logística; esta é mais linear e no entanto, no momento em que as vozes se cruzam ficamos metade do tempo em perguntas, meias frases: "estás a ouvir?", "não se ouve nada", "ouço um eco", "vou passar", "fala mais alto", "ouço a voz ao fundo", "é melhor desligar". Uma decepção, de que só escapa ouvir-se mesmo, ainda que por instantes, o fio verdadeiro da voz do outro lado. Não o que tem para dizer, mas a ela mesma, na sua clara presença. Só isso, o que é muito, mas que está longe de ser tudo.



Falaram-me desde a Praça do Leal Senado, centro cívico e político da cidade de Macau. Não sei de onde. E há uma coisa que me inquieta. Em todas as fotografias que tenho visto não vislumbro nenhuma mesa de café. Será possível não haver naquele lugar um café com esplanada de onde se possa ver o mundo, aquele pedaço glorioso do mundo?




[O Leal Senado há muitos anos, com patine]

Podcasting do SCMP 

Aqui alguns interessantes exemplos de Podcast ou iPodcasting, na página do South China Morning Post [SCMP].

Voluptuosidade e relutância 

O vómito não é, nunca será, um tema digno sobre o qual se escreva. Nada do que é tão voluptuosamente rejeitado, umas vezes, nada que seja tão relutantemente devolvido ao princípio, outras, parece poder ter algum tratamento decente e de bom gosto na escrita de quem se atreva. Quantas páginas dedicadas ao vómito deve haver por esse mundo fora. Não as conheço. Pela minha parte, estou a recuperar ouvindo o Messiah de Handel.

sábado, outubro 22, 2005

O efeito de borboleta e a gripe [2] 

Afinal deve haver alguma verdade na teoria. O bater de asas num lado do mundo pode, em determinadas circunstâncias, desencadear uma gripe no outro lado. Não é mais ou menos o que está a contecer?

O efeito de borboleta e a gripe 

Afinal sempre deve haver alguma parte de verdade na teoria. O simples bater de asas num lado do mundo pode muito bem desencadear uma gripe do outro. Não é mais ou menos o que está a acontecer?

Sabe o que é o iPodcasting? [e para que serve?] 

Poderá ser uma evolução natural na rede de concepção, edição e distribuição de conteúdos por parte de produtores individuais não especializados a que estamos a assistir, na net, desde há alguns anos. Os Blogues, os photoblogues, moblogues, videoblogues... e o iPodcasting. São conteúdos de rádio produzidos em formato próprio para descarregar do computador para o MP3, por exemplo, e para se ouvir quando se quiser. Pequenas sequências de dimensão variável, do minuto ou dois no registo de escrita diarística do blogue, ao mais elaborado, de meia hora, sobre a descoberta do espaço, sobre música ou questões sociais candentes.

Ouvi há pouco um programa na TSF, o segundo da série sobre esta nova forma de criação e edição de conteúdos audio, e cheguei através de uma busca simples a este primeiro sítio, da Penguin Radio onde podem ser ouvidos alguns exemplos de iPodcasting.

Na escola o modelo também poderá ter sucesso. Eu, se estivesse a dar aulas, tentaria chegar aos alunos também assim. Um iPodcasting por cada dúvida consistente que fosse apresentada, ou por cada unidade do programa. É uma ideia. No blogue das aulas, para que os alunos tivessem ali o professor à disposição, ao sábado e ao domingo, na véspera do teste. Para não falar das utilizações mais lúdicas e criativas.

Descrição perturbadora e obsessiva acerca do modo de comer caracóis 



Devemos dar a uma obsessão a sua verdadeira importância: toda a que ela tem, muita, o mais possível. É o meu caso com os caracóis cozinhados de acordo com as receitas tradicionais portuguesas. Aos caracóis ou os como com imenso agrado e voracidade, ou os fantasio ardentemente. Mas também estou, frequentemente, imensos períodos de tempo esquecido, amnésico, sem os comer e sem os fantasiar. Depois desperto e faço uma destas duas coisas obsessivamente. Como é o caso, agora.



Este ano comi caracóis menos de uma meia dúzia de vezes, o que não é nada, e agora não paro de os fantasear permanentemente. Ontem falaram-me de uma casa, um templo aos caracóis, que fica para os lados da Torre da Marinha, inteiramente dedicada aos caracóis de todas as cores, tamanhos e feitios. Desde então a minha alma penada tem vagueado por lá, por aqueles lugares, em busca do sítio.

Imagino que entro no templo e me sento a uma das mesas. Não imagino o cenário com detalhe. Peço, não caracóis, mas caracoletas. Mais cheias, volumosas e carnudas. Com algo para comer. O grau de relutância cresce em muitos quando falamos de caracoletas. O que há de suspeito no gosto pelos caracóis, cadaveres moribundos encolhidos dentro da concha no momento da morte, cresce quando falamos destes frutos maiores, as caracoletas. Quem não gosta dos primeiros deve abominar os segundos, imagino eu.



Falo de cor, porque não como caracoletas há décadas. Comia-as à mistura com caracóis, quando era garoto, na casa da avó. Não me recordo de o ter feito noutra altura, mas não é possível que tenha entretanto perdido o gosto pela bizarria.



Imagino que uma caracoleta estende o corpo para fora da casca, ficando paralisada e preparada para o meu banquete, depois de cozida na água fervente. Assim até é mais fácil. Basta pegar na casca redonda e acastanhada, mergulhada no fundo do molho, fixar o corpo escurecido com os dentes e puxar. Um movimento de gáudio ainda contido, que desenrola continuamente a espiral da caracoleta. A parte escura, que nalgumas receitas é retirada, a que levanta mais suspeitas quer pelo conteúdo, quer pelo formato espiralado e retorcido que se envolve no interior da casca, vem no fim, recalcitrante. Uma aspiradela rápida, coordenada com um movimento de abertura da boca, deixa cair para dentro o petisco. A carne da caracoleta resiste mais que a do caracol, esta, naturalmente é mais miúda e quase se desfaz na boca. A caracoleta come-se mesmo. No caracol, por vezes, a espiral parte-se, o que obriga a exercícios de uma motricidade digital muito fina. Nas caracoletas penso que o ênfase está dado no mastigar. Mais para mastigar, um prazer mais denso, mais radical, mais perto da estranheza de comer deliciadamente um bizarro e inofensivo animal deslizante.

Por vezes a carne deixa escorrer o molho que sobra. Não se pode perder sequer uma gota desse molho que envolve, embebe, impregna de ominoso sabor picante e apaladado a carne que mastigamos. Podemos depois usar a concha vazia como colher e retirar o que está no fundo, uma mistura irrepetível de sabores e temperos.



Não sei quando se termina, quando paramos isto. Só sei que não é no fim.


Os Rankings... cá estão! 

Os principais jornais de referência, concertados ao que julgo, publicaram hoje os Rankings das escolas secundárias. São todos diferentes porque cada equipa escolhe os seus critérios de trabalho a partir dos dados em bruto fornecidos pelo Ministério. E esses dados, supostamente, permitem estabelecer listas graduados onde as escolas aparecem por ordem decrescente da média obtida pelos seus alunos do 12º ano nos exames que realizaram a cada disciplina, no final do ano lectivo. O jornal Público, o Expresso, nomeadamente aqui, o Diário de Notícias e o Correio da Manhã publicaram listas e trataram a informação a seu modo. Vale a pena comprar a edição em papel para comparar, de lápis na mão, pronto a sublinhar.

Há dois anos convidámos o jornalista da SIC notícias, João Almeida e o actual presidente do Executivo, professor Manuel Porfírio, para nos falar deles e da sua importância. Foi a minha última "aparição social". A iniciativa integrou-se na Feira do Livro.

Escreverei alguma coisa sobre os resultados. Só não sei quando.

O enterro do conde [que vale uma visita a Toledo] 



Para ilustrar o post do outro dia, que vem com o excerto do poema de José Bento, aqui fica, em parte da sua grandeza que só pode ser confirmada no local, uma gravura do quadro do Greco.

Para ler mais sobre o autor e sobre este quadro, aqui fica um link directo a um artigo da Wikipédia.

O meu breve texto mereceu dois comentários emocionados e um comentário-verborreia. Obrigado ao Paulo e ao meu comentador anónimo pelas palavras.


quinta-feira, outubro 20, 2005

Antonio Nuñez Montoya, El Chocolate 



Deve o nome à cor da pele, a cor do chocolate. É um Montoya e, de acordo com um crítico que escreve um texto de apresentação no CD, "conhece e domina todos os arcanos e segredos", "encarna a memoria do cante mais antigo".

Neste registo da Radio France, gravado em Paris, entre 13 e 14 de Janeiro de 1992, Chocolate percorre com mestria todos os palos antigos do flamenco. Em todos se sente que está no limite. Quer no Fandango, como na Cartagenera, na Solea, na Siguiriya de Jerez, na Malagueña, nas Bulerias, numa belíssima Serrana, no Martinete e na Debla, à capela, desenha-se o mapa de uma autêntica geografia flamenca.

Praticamente nunca tinha ouvido tão profundamente o canto de Chocolate. Nada mais para além da sua magnífica intervenção no quadro do Flamenco, de Carlos Saura. Agora Chocolate é um dos meus maiores.

* * *

A LA BOCA DE UNA MINA [TARANTO]

A la boca de una mina
Asomaba tu queré
Y como te quería tanto
Me confesé yo a un debé
Eso si que son quebranto

Probre de lo minerico
Que desgraciaito son
Que en la mina del carbón
Trabajando con el pico
Se dajan el corazón



quarta-feira, outubro 19, 2005

A direita mente 

Estou a ler e Já li, na direita, na coluna aqui ao lado, não são de confiar. Já li, sim; li o que lá está. Estou a ler mente e mente com descaramento. Neste momento não sei o que estou a ler. Highsmith, Dan Brown, Rimbaud... ou nenhum deles? Amanhã o direi.

Os meus cafés [4]: Pequena Maravilha no meio do caos e do sangue 




Amanhã há uma greve da Função Pública e o meu exame foi desmarcado; não vou a exame nem sei que nova data me será reservada. O Pequena Maravilha, apesar do nome, supremo monumento ao horror, também é um dos meus cafés. Nem o profissionalismo do pessoal, jovem e no espírito do negócio, nem a dona boa, sobretudo simpática, nem o nome, fazem do lugar o requinte que se sugere. Mas é um dos meus cafés, por vezes a contragosto.

Uma esplanada inclinada, à vista de vários outros cafés onde também já estive, mas que nunca frequentei [porta com porta com o café árabe], dá gloriosamente para uma avenida constantemente percorrida por bólides a grande velocidade e em grande desatino, com automóveis estacionados a toda a volta, e um nível quase insuportável de ruído. O que é que torna aconselhável um lugar como este? Nada. Pelo menos por um longo período, ou com muita frequência.

Talvez por isso tenha reservado para este lugar a leitura de jornais e suplementos de jornais. De livros a sério não me lembro. Mas lembro-me agora que numa das primeiras saídas, talvez a primeira, no início desta longa convalescença, foi lá, ao interior do café, que fui aportar. Uma manhã de fevereiro, se a memória não me engana, mas de fevereiro passado. Manhã muito tépida, com neblina e sol, e com um livro horrível na mão para ler; sobre o devasso e muito pouco transcendente mundo do futebol.


aos amigos, aos meus amigos 

Os versos de Herberto Helder servem uma vez mais para dizer tudo, nomeadamente sobre os amigos: "amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado; os amigos que entristecem e estão sentados, cobrindo os olhos com os dedos... Não os chamo e eles voltam-se profundamente dentro do fogo... Temos um talento doloroso e obscuro: Construímos um lugar de silêncio, de paixão."

Tenho recebido, nestes últimos dias, um corropio de amigos em carrossel, uma legião de gente que admiro e aprecio desde que os conheço. Amigos a quem é difícil aplicar definições, colar frases, de quem é difícil dizer coisas definitivas, porque definitiva parece ser apenas, neste largo intervalo de anos, 20, 30, nalguns casos, a amizade. O sentimento que é próprio a todos. A espontaneidade e a generosidade deste movimento, desta sacudidela que começa logo que os primeiros sinais de desconforto se instalam, ainda agora me comovem e surpreendem. A todos os meus amigos...

Esperar pela Feira, promessa de uma vida livre 

A Feira do Livro de Lisboa chega sempre muito cedo no calendário. Começa o ano, chega o bom tempo e mal dou pelos dias já estamos no início da época de caça ao livro barato. Eu sei que dizer isto em final de Outubro é um pouco cedo demais, mas a verdade mantém-se. Já comecei a imaginar, e a antecipar com volúpia, os dias da feira, lá para o final de maio, princípio de junho. O bom tempo, o calor atenuado pelo vento, as pessoas, os livros e sempre os livros, a promessa de uma vida livre. O desafio desta feira é que ela seja, durante quinze dias, não apenas um entreposto de venda de livros a preço módico, mas também um momento de descobertas de autores e de literaturas. Comprar e ler. Com uma festa tropical no fim, lá em casa, para folhear os livros comprados. E um menú básico para acompanhar: sumos tropicais e outros, tão naturais quanto possível - laranja, limonada..., - sangria pode dizer-se que é sumo? -; caracóis para acompanhar com a cerveja nacional e internacional [é uma forma de dizer]; gambas à maneira, como nós gostamos e mais as azeitonas e os tremoços, como cantam no anúncio da Imperial; sandes para matar a fome, ao menos por alguns momentos, saladas de fruta com sumo, pudim... e que mais? Uma canja no final disto tudo, com música a acompanhar? E a toda a volta, os livros, os livros, os livros.

terça-feira, outubro 18, 2005

O Filho; tudo o que não sejas tu agora é nada 



"Tudo o que não sejas tu agora é nada. "


Estes versos, relidos do Silabário de José Bento, devastados pelas minhas minhas leituras de olhos embaçados [não consigo evitar], com a recordação da vez em que lá fomos ver todos juntos este presépio fúnebre que também canta singularmente a vida, são o meu bálsamo. Um poema ao meu filho que está longe.


"Vê, meu filho: estes olhos sem fundo
fitando o caminhante que este quadro contempla
enquanto apontas aquele corpo alado,
o nobre corpo alado entre rostos e mãos,
são os teus.
Tu és este menino
senhoril e assombrado diante dos senhores.

No teu lenço, minha firma e uma data;
na língua antiga dessa ilha secreta
que me sagrou na luz que não virá ungir-me
escrevi claramente:
"domeniko theotokópoli o fez
1578".
Não este quadro mas a ti, nesse ano.
Proclamo assim no rigor desta linguagem,
pertença minha como de ninguém,
que te amo sobre todas as coisas:
és a obra mais sonhada e mais gerada
em mim, que existo para minhas obras.

És tão pequeno, não sei quem irás ser,
talvez não te distingas entre quem é turba
e de ti falem só por seres meu filho,
tenham tua face porque segunda vez
te dou a vida neste painel sem preço,
sustendo aí tua carne e sua graça
quando nem se suspeite o lugar de tuas cinzas.

[...]

Que me importa a minha obra,
importando-me muito mais que tudo, sempre,
que me dá o meu génio, dando tanto,
- se valores vãos contigo comparados,
embora os louve para dourar meu vazio?

Minha sombra ir-se-á puindo como sombra,
de nada servirá minha ambição
de querer permanecer e eternizar-me
contra o tempo feroz, dissimulado.

[...]

Tudo o que não sejas tu agora é nada. "

in O Enterro do Senhor de Orgaz, 4, SILABÁRIO, José Bento, Relógio D'Água, Lisboa, 1992

Sonda e açaimo 



Tiraram-me a sonda que me incomodava num nível de mal estar de baixa intensidade e mantinha com uma espécie de açaimo pela narina abaixo até ao estômago. Parte deste leve horror sustentável de estar aqui, preso a tubos e a um corpo fraco e dócil, já está um pouco aligeirado. Agora já tenho refeição, ou uma ideia simples, com princípio, meio e fim; um pouco de sopa, um pouco de fruta cozida e moída e o pudim de casa que não dispenso. Ao mesmo tempo, já tive alguns indícios de saciedade, enquanto as barrocas fantasias alimentares entraram em retração. Penso menos em cabidela, iscas com arroz, pézinhos de porco de coentrada e copos de cerveja que só estarei em condições de beber a travos dentro de muitos meses, provavelmente um ano e jamais sem a pecha da má consciência a zumbir dentro da cabeça. Pelo que imagino.

A Fatwa foi revogada 



Sentia-a como uma condenação, eterna enquanto durasse. Mas agora já foi levantada. Agora já posso comer, com restrições, é certo, as quais tenciono seguir e cumprir religiosamente, mas também com certa flexibilidade. Comer pouco, comandar o processo desde a profundidade dos intestinos, não dar tréguas, voltar à realidade.

Também comecei a ler; pelo menos é o que eu digo. Estou a começar a manusear o grande best-seller visionário do momento. É difícil de conservar em equilíbrio estável, nas mãoas, mas o Ulisses de Joyce ou a Montanha Mágica de Thomas Mann não devem ser mais fáceis. Descontando a qualidade de uns e de outros, que não estou a comparar, claro.

Mas a leitura progride com dificuldade, como se lesse contra as ondas de um mar veemente, na ordem externa das coisas e contra o ruído e a minha agitação mental, na ordem interna.

Espero dar notícias da vertigem.

segunda-feira, outubro 17, 2005

O Leitor Nocturno [3] 





Continuo com a propensão para ler de noite, ainda que a compulsão tenha atenuado grandemente como actividade vital. Não há nada como a vida real para deitar por terra todas as boas fantasias de leitura de um plano magnífico. A mínima gravilha na engrenagem das minuciosas rodas da leitura solitária acabará por sabotar o plano, que cairá sem glória. Ou basta algo menos que gravilha, apenas grão de poeira no ar, a dar à volta do nosso nariz.

Os meus últimos meses têm sido meses e dias de grande decomposição. A todos os níveis. Pessoal e familiar [parar, mudar de sítio, recomeçar de outra maneira], profissional, se posso falar assim quando tenho profissão em reserva [regressar, reconfigurar, retomar rotinas, reinventar... partir de novo], na saúde [parar e tocar a marchar de novo, com interregnos e esta vinda às boxes, de agora]... Preciso de me recompor destes últimos meses, inventar novos caminhos para a leitura que tem de ser feita, que está por fazer. Preciso de me recompor de tanta intensidade frouxa. Tenho leituras à minha volta, meio derrotadas, sem leitor de cabeça levantada. Livros, jornais, DVDs, mais livros e a miragem que tanto desejo de uma cálida mesa de café, sob a fina película vertical da chuva que cai ou que apenas ameaça, que me promete horas e horas de leitura tranquila e redentora.

Quando regressar a casa não sei onde aninharei os jornais e os livros para ler, sob o conforto da chuva. Talvez nas "Arcadas" ou no "Quintal". Ou na "Pequena Maravilha"... tudo lugares sem nomes à altura da dignidade de que gostaria de investi-los: verdadeiros templos da leitura ao meu serviço. Mas é o que há, nada a fazer. Estou-lhes imensamente gratos a todos e em breve chegará a Primavera com a sua ameaça de chuva e a sua montra de sol e vento fresco a modelar-nos o sovaco e o resto desprevenido do corpo.

Também posso ir para a geografia do sul, lá mais a sul, onde estaria provavelmente agora se não estivesse no HGO. Mas isso são outros saffaris. Depois, a terra branca em que retomo o gosto de viver as pequenas grandes coisas familiares, a terra mareada de sal, lá mais confinada, onde redescobri que pode haver sempre outro lugar para se estar perdidamente bem sem fugir para longe.

E também poderia mudar o título, antes de retomar a leitura. E tentar ser um leitor diurno. A começar sempre de noite, claro. Podia tentar e acho que é isso que vou fazer quando tiver sobre o meu corpo e sobre o meu espírito um mais forte domínio da vontade. Depois "leremos" todos, depois falaremos.

O Príncipe Misterioso 



O sexto volume avantajado da saga do feiticeiro de Howgworts, Harry Potter, acaba de sair. Foi lançado em Português de cá, na passada sexta-feira, pelas 24 horas. Uma cenografia gótica no Largo do Carmo, nas ruínas do convento que ficou assim desde o terramoto de 1755.

Se fosse antes de Macau teríamos tratado do livro e depois preparado a leitura. Começaria por ler o início e depois negociariamos os trânmites da função. Veremos como é agora. Na China há muito que sairam versões piratas deste último tomo.

domingo, outubro 16, 2005

O Correio do Oriente 

As cartas, as cartas. Quando é que chegam, afinal, as primeiras CARTAS DE MACAU ? São, de todas, as primeiras, que antes de terem seguido o seu destino, já têm os seus leitores.

"Making History..." 

Devo ser o primeiro... mas, como dizia Borges para os poetas menores, o "esquecimento é a meta!" Por isso cheguei primeiro, já está. Devo ser o primeiro e se não fôr não faz mal, nem bem: o primeiro paciente do HGO, Almada, a entrar on line. Desde a vastidão de vistas do oitavo piso, de costas para o Tejo e à vista vigiada da Arrábida, aqui estou, à beira do portátil, dedilhando o teclado dentro do meu blogue das leituras. Agora posso mandar notícias frescas sobre isto, desde aqui. Os amigos que quiserem nem precisam telefonar, fazer reserva, marcar bilhete. É sí vir, entrar e ler. De momento tudo bem: parece que os intestinos, que já estiveram em férias e agora andam em desalinho, sem ligar a nada nem aos maiores, estão a voltar à razão. Pianinho, que o comcerto ainda vai no adro.

O ânimo está bom, de momento, mas ainda temos aqui lenha para queimar até mais uns dias. Até meio da semana, até ao fim, vamos escrever assim, para nao desanimar. E quanto ao resto [os calamares com cerveza, os tremoços, os búzios que eu tirei não sei donde, até os caracóis com cerveja, as belas gambas de Moçambique comidas naquele lugar que eu não conheço de Ayaamonte, Fevereiro de 2006, os caldos e caldinhos, como o de beldroegas, o de catacuzes carnudas e deliciosas, o arroz de cabidela avinagrado, a toffina, os pézinhos de porco de coentrada, os pézinhos de borrego ou as magníficas e suplicantes mãos de vaca, as migas... e os pudins, as papas, tudo o que tiver sabor e nos disser alguma coisa ao palato que espera que lhe contem histórias]... eu serei que terá de esperar. Mas espero que não por muito tempo. Só o indispensável.

De regresso à Biblioteca do poeta Sebastião... Ooops 

Ia a escrever este post, ou este post com este título tão soalheiro e ao gosto do bom poetizar quando sobreveio o pior: o que já disse. Um louco intestino em férias, em fúria, ressentido com qualquer coisa que lhe falha... mandou-me para onde estou agora. Voltarei ao poeta Sebastião e as seus livros logo que possa sair daqui, passar uns dias e descer lá abaixo. Voltarei ao mesmo tempo que voltar aos caris, de que falava o João Pedro, ontem, e o Paulo Lobo. Ao mesmo tempo para folhear os livros e a comida.